segunda-feira, 30 de julho de 2007

Heróis da Banda Desenhada: Tintim

Quem apostaria que um personagem graficamente tão “datado”, que partia de comboio, em 1929, de Bruxelas para Moscovo numa cruzada anti-comunista sem precedentes, viria a transformar-se no herói imorredouro dos nossos dias? Naqueles primeiros tempos, Tintim é de uma linearidade absoluta, de um esquematismo gráfico e mesmo narrativo nos quais é difícil reconhecer o herói “moderno” de histórias posteriores...
Como personagem, é um repórter, nascido para correr mundo e viver as aventuras que o imortalizaram. Talvez por isso mesmo, nunca é surpreendido a escrever um artigo — quando muito, há os registos impressos das suas vivências em jornais —, mas quem se importa com isso se as suas histórias exprimem de forma tão eloquente esse desejo absoluto de justiça e humanidade que impregna cada quadradinho e cada prancha?
Por detrás de cada acto de criação está, muitas vezes, uma explicação singela. Visto à distância de mais de 70 anos, e de acordo com a confissão do próprio autor numa carta enviada a um admirador, em Novembro de 19996, o acto fundador de Tintim é de um despojamento tocante: “A ‘ideia’ da personagem Tintim e do tipo de aventuras que ele ia viver ocorreu-me, creio, em cinco minutos, no momento de esboçar pela primeira vez a silhueta desse herói: isso quer dizer que ele não tinha habitado os meus verdes anos, nem mesmo em sonhos”. Mas Hergé tem o cuidado de acrescentar mais qualquer coisa: “É possível que eu me tenha imaginado, em criança, na pele de uma espécie de Tintim: nisso, mas apenas nisso, haveria uma cristalização de um sonho, sonho que é um pouco o de todas as crianças e não pertença em exclusivo do futuro Hergé”.
Depois, há as razões sociais e culturais da época que viu surgir o jovem repórter. O padre Norbert Wallez, director do jornal belga “Vingtième”, encomenda ao seu jovem colaborador — Hergé tem então 22 anos e manifesta uma admiração pelo eclesiástico que nunca sofreu a menor quebra — uma história que metesse um adolescente e um cão. A ideia era “passar” valores católicos para os leitores, que se pretendia educar no culto da virtude e do espírito missionário. O envio do jovem repórter à Rússia soviética, um reino satânico onde impera a pobreza, a fome, o terror e a repressão, era uma solução que se adequava às mil maravilhas ao desejo do padre conservador.
Antes de Tintim, Hergé dera vida às aventuras de Totor, um escuteiro chefe de patrulha de quem o jovem repórter foi imaginado como um “irmão” mais pequeno. O autor veste-o com um fato de golfe apenas porque era uma indumentária que ele próprio gostava de utilizar com frequência. O resto é a expressão natural de uma desejo de diferenciação de todas as demais personagens conhecidas. Assim surge o topete, que se tornou numa imagem de marca para todo o sempre.
A seu lado encontramos desde a primeira hora Milou, um cão inteligente que é um companheiro e um cúmplice de todas as aventuras. Não é inteiramente animal, pois Hergé confere-lhe o dom da palavra e algumas das características que habitualmente se podem encontrar nos humanos: realismo, coragem e preocupação com o seu conforto, mas também instinto batalhador... e muita gulodice.
O êxito desta primeira aventura fará com que Tintim vá ao Congo, numa homenagem de recorte inconfundivelmente colonialista à acção da Bélgica no seu antigo território africano. E, logo a seguir, à América, onde Hergé desejara levar o seu repórter num contraponto crítico à incursão soviética, mas frustrado pela vontade do padre Wallez.
Virão, ainda, mais 20 histórias, através das quais a personagem ganha espessura, é rodeada de uma notável galeria de personagens “secundárias” (Haddock, Tournesol, irmãos Dupond(t), Castafiore, etc.. etc.), ganha o sortilégio da cor e um traço cada vez mais moderno e maturado.
Poderá sempre dizer-se que tudo o que Tintim é já estava contido naquela primeira e primordial aventura. Sim, é verdade que os balões e outros signos da moderna BD europeia nascem um pouco ali. Mas também é certo que as narrativas ganham uma solidez e uma segurança que ainda mal se vislumbrava naquela história.
Lendo “Tintim no País dos Sovietes”, descobre-se também, com surpresa, que o herói não nutre uma atitude muito compassiva perante o género humano, é mesmo cruel e implacável. Mas com o passar dos anos essa atitude conhece uma subtil metamorfose, dando lugar a um herói mais positivo e fraterno, disponível para defender e ajudar os fracos e oprimidos. Quem disse que os heróis de papel não crescem e amadurecem?
http://www.tintin.be
http://www.tintin.org
http://www.multimania.com/herge/frame.htm
http://perso.worldonline.fr/Tintin http://guillaume.belloncle.online.fr/Tintin/index.html

Nome: Tintim
Criador: Hergé
Data de nascimento: 10-01-1929
Local: “Le Petit Vingtième”, Bélgica
Época: século XX
Série: banda desenhada de aventuras e um dos grandes clássicos do género, que influenciou de forma muito vincada uma parte significativa da criação europeia contemporânea de BD
Sinais particulares: Tintim é um jovem repórter, sempre vestido com calças de golfe e ostentando um inconfundível topete no alto da cabeça. É dono de um fiel e inteligente cão “fox-terrier”, chamado Milou, e tem como companheiro inseparável, a partir de 1940, Haddock, um capitão de marinha colérico, beberrão e temperamental.

© 2000 Público/Carlos Pessoa

sábado, 28 de julho de 2007

Radar TIMTIM - Um Espectáculo de Verão


"Esplendor na Relva" e "Estendal Lusitano" foram alguns dos espectáculos dos Radar Kadafi e marcaram um estilo: adereços em profusão, suportes audiovisuais, um desconcertante apresentador, o showman Tell Tapia.

No ano de 1987 lançaram o álbum "Prima Donna".

O espectáculo concebido para o verão de 1987 chamava-se Radar Timtim:

"Uma analogia a todo o mundo de Hergé, a aventura da adolescência. É a simbologia Tim Tim, não óbvia, tratada por nós numa "picadora" especial, e visível em cenários, murais, painéis, projecções e toda uma série de objectos móveis. Há ainda canções e músicas que poderão ser ouvidas no espectáculo e que não voltaremos a utilizar. Quem não vir perde..." 

Fonte: Tiago Faden/TV Guia


Imagem de Pedro Morais (Desenho de Pampam)

http://tintinofilo.over-blog.com/article-11550945.html

segunda-feira, 16 de julho de 2007

Como Tintim chegou a Portugal

UMA INFORMAÇÃO PARA INTERESSADOS...

Perguntam-me como chegaram a Portugal as aventuras de Tintin. A história É muito simples. Quando os Padres Abel Varzim e Manuel Rocha estavam a preparar o doutoramento na Universidade de Louvaina relacionaram-se com vários sacerdotes da diocese de Bruxelas. Foi, assim, que o Padre Varzim conheceu o director do jornal católico "Vingtième Siécle" e do suplemento juvenil "Petit Vingtième" Padre Norbert Wallez e através deste chegou ao contacto com Georges Remi - o célebre Hergé. De acordo com a investigação do jornalista Carlos Pessoa, especialista em BD do jornal Público, data de meados dos anos 30 o primeiro contacto dos leitores portugueses com a figura de Tintin, cerca de cinco anos após ter surgido no "Le Petit Vingtième". Portugal foi o primeiro país não-francófono a publicar as aventuras de Tintin.

O responsável por esta iniciativa editorial no nosso país foi Adolfo Simões Müller, ao tempo, director de "O Papagaio". E o certo É que Muller conhece Tintin através de Abel Varzim, que lhe fala do sucesso das histórias em Bruxelas e na Bélgica. Interessante é verificar que Tintin n'"O Papagaio" era identificado como português e como repórter não do "Le Petit Vingtième" ou do "Le Vingtième Siécle" mas sim do próprio "O Papagaio". Esta adaptação faz com que a personagem Oliveira de Figueira apareça nas páginas de "O Papagaio" como espanhol.

Como é que o director de "O Papagaio" toma conhecimento com Tintin e Hergé? Segundo Carlos Pessoa a chave está numa entrevista concedida ao "Jornal de Letras" em 1987 pelo próprio Muller: "O conhecimento da obra de Hergé [É devida] ao padre Abel Varzim, que estudara em Lovaina (BÉlgica) e conheceu pessoalmente o autor. A segunda Guerra Mundial obrigou Hergé a refugiar-se, em 1940, em França, residindo durante algum tempo em casa de Marijac, um criador francês de BD. É daí que escreve a Adolfo Simões Muller, pedindo-lhe para ser pago não em dólares, mas em géneros alimentares (latas de sardinha, biscoitos, café, etc.), que se destinavam a um irmão, Paul Remi, prisioneiro de guerra dos alemães durante cinco anos. Em Setembro de 1941, numa altura, portanto, em que Tintin já era lido em Portugal no "O Papagaio"(1935-1941) e viria pouco depois a ser lido no "Diabrete" (1941-1950), Hergé escreve de novo ao director de "O Papagaio" para lhe agradecer o envio de alimentos ao irmão e também um cabaz de biscoitos, café, cacau, chocolate, açucar e enchidos que ele próprio recebera entretanto de Portugal". Eis a histÓria. Bem simples... Jamais poderemos agradecer ao Padre Varzim (grande cidadão e homem livre) a premonição extraordinária que teve quanto a Tintin...

GOM - publicado em quinta-feira, 30 de Junho de 2005 21:14