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quinta-feira, 6 de agosto de 2026

Jornal de Letras (1987)


Pela importância da pessoa e da relevância do conteúdo partilhamos na totalidade esta entrevista importante a Simões Muller.

Entrevista a Adolfo Simões Müller. No JL de 16.3.1987

Adolfo Simões Müller: "Paguei a Hergé em latas de sardinhas"

Raul Correia, Cardoso Lopes, José de Oliveira Cosme, Baptista Rosa, Roussado Pinto... Homens, todos eles já desaparecidos, que devotaram, integralmente ou em grande parte, a sua actividade pública à divulgação editorial da banda desenhada. Adolfo Simões Müller, cujas declarações aqui registamos, é a voz de uma geração entusiasticamente empenhada na divulgação dessa forma de arte. Aos 76 anos, aquele que foi sucessivamente director de «O Papagaio», «Diabrete», «Cavaleiro Andante», «Foguetão» e «Zorro» defende com calor as histórias ilustradas dos ataques dos seus detractores.

Jornal de Letras — Como principiou o seu interesse pelos «quadradinhos»?

Adolfo Simões Müller — Claro, principiei por ser apenas um leitor do que, na matéria, então se fazia por cá: havia os suplementos do «Diário de Notícias» e de «O Século», um deles creio que dirigido pelo Cottinelli Telmo...

P. — E o passo seguinte, a entrada activa na sua produção e divulgação?

R. — Vamos por partes. Por altura dos meus 18 anos, estava eu a estudar Medicina, vi-me forçado a começar a trabalhar, dando aulas, porque as posses da minha família não eram grandes. Tornei-me professor nas Oficinas de S. José, onde me lembrei de inventar processos de entreter os alunos. Um deles consistiu em dividir a turma em dois grupos de futebol, com onze de cada lado, perfeitamente definidos como avançados, halves, backs, keeper e tal. A bola ia progredindo até ao golo, através de perguntas que se iam formulando sobre a matéria (neste caso, Ciências Naturais). Quando era golo havia uma algazarra! Este processo era óptimo porque os rapazes tinham sempre a matéria na ponta da língua, para tramarem o parceiro. Um dia, quando uma das equipas marcou golo, foi tal a barulheira que apareceu o director acompanhado de umas senhoras muito bem vestidas. Fiquei atrapalhado, mas lá expliquei em que consistia o jogo. Pois a verdade é que o «público» ficou para assistir e, no final, aplaudiu... Também ensinava a História de Portugal recorrendo à narração de episódios como se fossem histórias maravilhosas e os alunos aderiam entusiasmados. Assim começou, digamos, a exprimir-se a minha vocação para o contacto com a gente nova...

«Uma técnica própria de leitura»

P. — E daí aos jornais de histórias aos quadradinhos?

R. — Bom, teria eu cerca de 30 anos, «pescaram-me» para as «Novidades», onde passei a trabalhar como redactor. Por volta de 1935, o director da Renascença, Lopes da Cruz, lembrando-se da minha vocação para lidar com jovens (e eu, entretanto, tinha já publicado um livro infantil) convidou-me para fazer um jornal — e assim nasceu «O Papagaio». Escolhi alguns colaboradores já meus conhecidos — o Tom, o José de Lemos, etc. — e, além de textos, decidi incluir também banda desenhada. As pessoas diziam muito mal, que afastava os jovens da leitura, e por aí adiante, mas eu acho que não: o que tem é uma técnica própria de leitura. Aliás, quando se tratava de adaptações de obras literárias eu tinha sempre o cuidado de chamar a atenção para esse facto e de convidar à leitura do original, sublinhando que a adaptação não era mais do que um aperitivo para ela.

P. — Havia fortes concorrentes na altura...

R. — Sim. Os mais importantes eram o «Tic-Tac», «O Mosquito» e «O Senhor Doutor». Todos tinham histórias em banda desenhada.

P. — «O Mosquito» e «O Senhor Doutor», nos primeiros tempos, poucas ou nenhumas histórias ilustradas de origem portuguesa publicavam. N'«O Papagaio», creio, não se passavam assim as coisas...

R. — As histórias eram então quase todas de importação inglesa ou americana. Ora, independentemente dos méritos dos seus autores, não me agradava aquilo, pois não se adaptavam bem à nossa sensibilidade. Antes de passar a incluir n'«O Papagaio» produção portuguesa tive, porém, a sorte de poder contar com a inserção de histórias de Hergé. Foi o padre Abel Varzim, que estudara em Lovaina e que lá na Bélgica tivera a oportunidade de conhecer pessoalmente [ nb: apenas conheceu a Obra e não o autor ] o então ainda jovem e não muito famoso autor de Tintin, quem me falou dele. A coisa interessou-me, ele próprio se encarregou dos contactos e assim passámos a publicar em Portugal, pela primeira vez, o Tintin, o «Tim-Tim no Congo»... [lah: Na verdade, era Tintim na América]  O Hergé, para mim, é a maior figura da banda desenhada. E fiquei sempre, n'«O Papagaio» e nos jornais que se lhe seguiram, com o exclusivo do Tintin. E sempre com o maior êxito!

P. — Os direitos de publicação de histórias do Hergé eram dispendiosos?

R. — Nem por isso... E vou contar-lhe um episódio curioso. Nós pagávamos em dólares, ou francos, ou lá o que era (já não me lembro) mas veio a guerra e aquilo para nós era uma ninharia. Eles lá é que estavam pobres... Ora, um belo dia, o Hergé escreveu-me a pedir-me, se possível, o pagamento dos direitos, não em dinheiro, mas em latas de sardinhas, que se destinariam a um irmão dele que estava prisioneiro dos alemães, num campo de concentração... [lah: Paul Remi foi prisioneiro de guerra durante cinco anos.] Assim fiz: lá ia a minha mulher comprar as conservas, enviávamos-lhas e elas em seguida iam para o campo, via Cruz Vermelha... Posteriormente visitei o Hergé, encetámos uma relação pessoal e eu sempre fiquei «cliente» das produções franco-belgas, de grande qualidade.

P. — As traduções eram mesmo da sua responsabilidade?

R. — Sim, e no caso do Tintin até adaptei os nomes das personagens. Como se sabe, o Capitão Haddock tornou-se Capitão Rosa, o Professor Tournesol ficou Professor Pintadinho, e por aí adiante. Um caso engraçado é o do cão do Tintin, que no original, como é conhecido, se chama Milou; ora, acontece que na altura estava muito em voga a actriz e cançonetista Milu, a «Menina da Rádio», [ nb:«Em 1935, com nove anos de idade, Milú já cantava nos programas infantis da Rádio Graça e era conhecida como “a menina da Rádio”. Milú Almeida ou simplesmente Milú, como ficou conhecida pelas suas participações nos filmes “O Costa do Castelo”, “O Leão da Estrela” e “O Grande Elias” (mas não em “A Menina da Rádio”, que foi protagonizado por Maria Eugénia, a Geninha).» (Azevmen) ] e eu achei (achámos todos) que era aborrecido chamar Milu ao cão, parecia que era de propósito, até porque entre nós aquilo não é nome de cão. Então, por onomatopeia, ficou Rom-Rom. Tim-Tim e Rom-Rom, soava bem. Num álbum recente, dedicado à obra de Hergé, vem um quadro com as traduções dos nomes das personagens em muitas línguas — e lá vêm os nomes que eu lhes pus...

P. — Quanto às traduções propriamente ditas, as que se fazem agora são muito más, até do ponto de vista estilístico. Não é dessa opinião?

R. — Não leio, não tenho conhecimento. Mas sei que há uma grande invasão de publicações feitas no Brasil, o que é péssimo. E os miúdos consomem muito daquilo. É pena... Eu sempre me preocupei por adaptar com o maior escrúpulo os textos ao português correcto e coloquial, com os nossos provérbios, as nossas frases feitas... Ah, mas ainda a propósito da transposição dos nomes, aqui vai outra história engraçada. A páginas tantas deparei, numa história do Tintin, com um pirata qualquer chamado Müller. Como é natural (risos) eu não achei nada próprio que o vilão tivesse o mesmo nome que o director do jornal. E, assim, chamei-lhe outra coisa qualquer...

P. — Que tiragem tinha então «O Papagaio»?

R. — Não sei já bem, mas uns dez mil, para aí...

P. — Como (e porquê) acabou «O Papagaio»?

R. — Bom, a certa altura, o Lopes da Cruz (que era uma pessoa muito delicada) começou a queixar-se, a dizer que «aguentava a publicação por causa do Müller», e por aí fora. Claro, eu disse-lhe que estivesse à vontade mas ele ia mantendo o jornal, que não era rentável.

P. — E veio «O Diabrete»...

R. — Por essa altura, um dos administradores do «Diário de Notícias» perguntou-me se eu não quereria dirigir o «Diabrete», surgido uns meses antes, e que até então fora dirigido por um engenheiro agrónomo cujo nome, sem menosprezo, não recordo, mas que à data já era muito idoso [nb: A. Urbano de Castro] e se encontrava pouco capaz de ter ideias novas. Eu falei com o Lopes da Cruz, expus-lhe o caso, ele aceitou a minha posição — mas não gostou. E o que é certo é que fez sair «O Papagaio» por mais dois anos, apesar das dificuldades económicas com que se debatia. [ nb: Mais anos! «Como revista terminou no n.º 722, em 10 de Fevereiro de 1949, mas continuou, sendo secção da revista Flama, até 9 de Fevereiro de 1951.» (Azevmen) ]

P. — Dificuldades que não tinha o «Diabrete»?

R. — Era um jornal novo e menos dispendioso. Aí contei com a colaboração próxima do Fernando Bento, um grande desenhador, que ainda continua a trabalhar, apesar da idade (que é mais ou menos a minha).

P. — Mas já «O Papagaio» tivera grandes desenhadores...

R. — Sim. Olhe, um deles — pouca gente sabe isto — foi o grande pintor Júlio Resende, talvez hoje o maior pintor português. É verdade, o Júlio Resende, que com o irmão, fazia banda desenhada para nós. Um dia vieram do Porto de propósito para colaborarem numa festa de «O Papagaio», no Politeama. Faziam uma parelha de palhaços, o Júlio era o faz-tudo e o outro tocava harmónio.

P. — Era frequente nesse tempo a colaboração de artistas plásticos em jornais infantis...

R. — Pois era. O Stuart Carvalhaes também desenhou histórias a meu pedido. O Stuart já fizera muito antes bandas desenhadas com as personagens «Quim e Manecas», que ressuscitou já nos anos 50, quando lho solicitei. Sabe que nunca guardei os originais? Perdi tudo, nunca tive preocupações de coleccionismo. Hoje lamento-o profundamente.

P. — Não possui as colecções dos jornais infantis e juvenis que dirigiu?

R. — Não, nunca me preocupei com isso. Às vezes há coleccionadores que me procuram, que dizem que me dão não sei quantos contos por isto ou por aquilo. «Homem, venda-mos você a mim», respondo eu. (Risos).

P. — Mas voltemos a «O Diabrete»...

R. — Foi uma fase muito grata para mim os dez ou onze anos que durou. Mas comecei a imaginar uma coisa maior e melhor e assim nasceu o «Cavaleiro Andante», no princípio dos anos 50. Antes contara com trabalhos de grandes artistas portugueses e espanhóis (e entre estes últimos cabe destacar o Jesus Blasco, um grande pintor), ao passo que o «Cavaleiro» passou a estar voltado praticamente para quanto se fazia de melhor na Europa. Publicámos, além de produções de outras origens, o melhor da banda desenhada francesa e belga. O Professor Mortimer, de Edgar P. Jacobs, o Astérix, o Lucky Luke, tudo isso, que foi assim pela primeira vez divulgado em Portugal. E o Hergé continuava. O Fernando Bento acompanhou-me sempre e aquilo serviu de escola a outros mais novos, como o José Ruy ou o José Garcês, o que para mim foi muito grato.

«Eu fazia os guiões, o Bento recriava-os»

P. — As histórias não eram, então, assinadas. Como nasciam as que fazia com o Fernando Bento? De quem partia a iniciativa?

R. — Era um trabalho dos dois. Em regra, eu fazia um guião indicando as situações e os diálogos e ele recriava-os. É um grande artista, a quem nunca foi prestada a homenagem que merece.

P. — Pode considerar-se o «Cavaleiro Andante» o jornal de maior êxito de entre os que dirigiu?

R. — Sim, foi um sucesso desde que principiou. Tirávamos trinta ou quarenta mil exemplares e o número um teve de ser reimpresso. Tínhamos, também, uma série de publicações adjacentes: o «Álbum do Cavaleiro Andante», mensal, os «Números Especiais» (os do Natal eram encadernados, com um certo luxo, e custavam 10 «paus»), a «Colecção Oásis», o «João Ratão», a «Colecção Alvo», as «Obras-Primas Ilustradas»... Por fim imaginei o jornal mais giro de todos, mas esse não teve êxito... Foi o «Foguetão», de que se publicaram apenas treze números. Era um jornal grande, tipo «adulto», magnífico, com artigos, contos, histórias ilustradas, grandes diaporamas, tudo a cores e em bom papel. Sabe a que se ficou a dever o falhanço? Eu fiz uma «sondagem» (como se diria hoje) junto dos vendedores e apurei o seguinte: que não se vendia por ser grande de mais. É que os rapazes queriam jornais que pudessem, na escola, meter debaixo dos livros, enganando assim o professor... Foi uma pena. Olhe, é o único jornal que dirigi de que possuo a colecção completa: são apenas treze números.

P. — Como eram feitos os contactos com os fornecedores de material estrangeiro e como chegava este às suas mãos?

R. — Havia agências distribuidoras, mas eu preferia o contacto directo com editoras ou publicações europeias, como a Casterman, as Éditions du Lombard, o jornal «Tintin», a Dupuis, o semanário italiano «Il Vittorioso»...

«Não violentar os jovens»

P. — Nunca lhe «disseram» muito as produções americanas, não é verdade?

R. — Há grandes desenhadores americanos, grandes artistas mas aquilo, realmente, nunca me pareceu muito adaptável à nossa maneira de ser nem muito adequado a ser lido por jovens.

P. — No entanto, o «Mundo de Aventuras» e as restantes publicações da Agência Portuguesa de Revistas abasteciam-se quase exclusivamente nesse mercado...

R. — Pois era, mas que quer? Eu era «estúpido» e não gostava daquilo...

P. — É verdade que os quadradinhos americanos não são dirigidos a jovens, mas a adultos. Em contrapartida, a própria designação «banda desenhada para adultos», que apareceu há uns vinte anos na Europa, indicia claramente que a que por cá se fazia antes era infantil. Mas o que pensa da actual produção para jovens?

R. — Hoje é tudo muito diferente, há uma grande carga de violência, os valores são outros. Eu preocupava-me em não violentar os jovens, em não os chocar, em não os excitar. E fui criticado por isso.

P. — Como?

R. — Pertenci a uma comissão de leitura, que não era de censura e se limitava a aconselhar. Eu próprio recebi conselhos da comissão de que fazia parte. Era sobretudo o tom: para quê escrever que «Fulano foi arremessado para uma fria masmorra» em vez de que «Fulano foi encarcerado», ou assim?

P. — Relações com o poder (com os poderes). Teve?

R. — Nunca tive. Vi o Salazar uma vez, mas nunca falei com ele. O Marcelo Caetano foi o único governante que manifestou algum interesse pela minha obra: quando ocorreu o quarto centenário da publicação de «Os Lusíadas» deu instruções no sentido de uma reedição estatal do meu livro «As Aventuras do Trinca-Fortes». Pois sabe quantos exemplares se venderam? Como diria o Jô Soares: zero! (Risos). Aquilo nunca foi avante. Agora, recentemente, a dr.ª Maria Barroso esteve presente no lançamento do meu livro «A Torre de D. Ramires». E foi tudo.

P. — Porque a sua obra não cabe apenas, convém lembrar, no campo das publicações periódicas...

R. — Não. Tenho publicados cerca de quarenta livros, designadamente biografias de pessoas célebres. Era a colecção «Gente Grande para Gente Pequena». Escrevia à média de um por ano. E também trabalhava na Emissora, onde colaborei estreitamente com o Francisco Mata, que, como sabe, já morreu, está um pouco esquecido e é outro homem a quem nunca foi feita a justiça que merecia. E ainda fiz publicidade. Foi uma vida cheia, a minha.

P. — Voltando às publicações juvenis: o «Foguetão» e o «Zorro» foram as últimas que dirigiu?

R. — Depois disso ainda fiz a «Nau Catrineta», que era um suplemento do «Diário de Notícias» e, mais tarde, pediram-me para ir a «A Capital» dirigir os «Quadradinhos».

P. — Pensa que um jornalismo nesses moldes ainda teria actualmente, saída? O que há agora é diferente...

R. — Praticamente não há nada. Eu ainda pensei em fazer um jornal em moldes novos, que seria a minha despedida: um jornal juvenil para os filhos dos emigrantes, que lhes permitisse manterem-se ligados a Portugal. Mas a coisa não foi por diante. Mas agora os interesses dos jovens são outros: é a música, é a televisão, é o cinema. Quase não lêem...

Entrevista de Luís Almeida Martins / Jornal de Letras, 16/03/1987

(entrevista obtida no blog Porta da Loja onde se pode ver a digitalização da mesma)

https://portadaloja.blogspot.com/2021/10/tintin-e-as-aventuras-dos-desenhos-sem.html

https://portadaloja.blogspot.com/2020/09/mais-de-cima-da-mesa-em-setembro.html

https://portadaloja.blogspot.com/2016/11/as-tretas-das-letras-ii.html

+

João P. Boléo fala-nos mais sobre isso:

O Sr. Simões Müller queria publicar as aventuras de Tintim em formato de álbum. Infelizmente, os direitos da língua portuguesa foram vendidos ao... Brasil. O que explica a fraca qualidade das traduções.

Só muito recentemente é que foram editados os dois primeiros álbuns em Portugal. Trata-se de “A Ilha Negra” e “O Ceptro de Ottokar” da Editora Verbo em Lisboa.

(Páginas 18 e 19)

+

No n.º 8 da revista Les Amis de Hergé, de dezembro de 1988, tem um artigo "Tintin au Portugal".

(...) na entrevista intitulada: Adolfo Simões Müller: “J’ai payé Hergé en boîtes de sardines” (Paguei ao Hergé com latas de sardinha), o escritor português desmente que os direitos de publicação das histórias de Hergé eram elevados.

Depois de trocadas várias cartas, os dois tornaram-se amigos.

Adolfo Simões Müller esclarece que “depois disto, encontrei-me com o Hergé [? Abel Varzim apenas tinha conhecido a obra] e iniciámos uma relação pessoal [? por carta]. Sempre me mantive um “cliente” das produções franco-belgas de grande qualidade”, remata o escritor.

Na entrevista a Luís Almeida Martins, publicada no Jornal de Letras, Adolfo Simões Müller é categórico em afirmar que “o Hergé, para mim, é a maior figura da banda desenhada. E fiquei sempre n‟O Papagaio e nos jornais que se (...)


domingo, 3 de novembro de 2024

Foguetão 1961-1961


(imagem do prospecto)

A revista juvenil de banda desenhada "Foguetão – Semanário Juvenil para o Ano 2000" publicou-se do número 1, em 4 de Maio de 1961, até ao número 13, em 27 de Julho de 1961. Portanto foi mesmo digna do nome, isto é, desapareceu das nossas vistas num ápice…

Era impresso em papel de jornal, com 16 páginas de grande formato (35x50cm), algumas impressas a cores. Depois de ter sido pioneiro na apresentação nacional de Tintin (desde o saudoso O Papagaio) e de Lucky Luke, o director da publicação apostava agora na estreia de outro famoso herói: Astérix, de Goscinny e Uderzo.

O conteúdo do Foguetão era muito variado pois, para além das histórias aos quadradinhos, de continuação, apresentava contos (alguns de Yves Duval, famoso argumentista), concursos, secções temáticas diversas -futebol, cinema, filatelia, actualidade, história, biografias, ciência, etc.- e passatempos. Entre as aventuras desenhadas, para além de Astérix, ali surgiriam Dan Dare, Sexton Blake, Michel Vaillant, Blake e Mortimer, Gaston Lagaffe, Jean Valhardi, Tanguy e Laverdure e outros, e também uma história de Tintin (Tintin au Tibet) no original em língua francesa, para ajudar os jovens na sua aprendizagem escolar. Para os que tivessem mais dificuldades na tradução, era-lhes fornecida uma relação de legendas e balões, devidamente numerados, em português.

Mas a concorrência era feroz e o preço do semanário, 2$50 (dois escudos e cinquenta centavos, pouco mais de um cêntimo, hoje!), provou ser caro para a época. Embora O Mosquito já tivesse desaparecido, também o Diabrete e outros títulos, havia ainda O Mundo de Aventuras, o Cavaleiro Andante, o Camarada (da MP) e O Falcão (2.ª série), pelo que o lançamento do Foguetão se revelou falhado…

No entanto, houve dignidade na despedida, pois as suas histórias de continuação seriam prosseguidas no Cavaleiro Andante (também “herdeiro” do Bip-Bip), que ainda lhe sobreviveu alguns meses, para dar lugar ao Zorro.

O número 13 foi mesmo de azar e o dia 27 de Julho de 1961 assistiu ao final do ambicioso mas curto voo do Foguetão.

Fora lançado no dia 4 de Maio…

https://largodoscorreios.wordpress.com/2014/05/04/um-foguetao-que-voou-baixinho/

Comandado por um homem com provas dadas na área, Adolfo Simões Müller, teve um percurso difícil na competição com os seus adversários, sobretudo O Mundo de Aventuras, o Cavaleiro Andante, o Camarada (da Mocidade Portuguesa) e O Falcão (na sua 2.ª série).

O Foguetão surgiu com expressas pretensões de marcar a diferença, disponibilizando uma revista inovadora sob o lema: Um jornal crescido para os novos; um jornal novo para gente crescida.

Era impresso num grande formato (35x50cm), estreando entre nós um famoso herói: Astérix, de Goscinny e Uderzo. Para além das histórias aos quadradinhos, de continuação, publicou contos (alguns de Yves Duval, um famoso argumentista), concursos, secções temáticas diversas -futebol, cinema, filatelia, actualidades, história, biografias, ciência, etc.- e passatempos. Entre as aventuras desenhadas, para além de Astérix, apresentou Dan Dare, Sexton Blake, Michel Vaillant, Blake e Mortimer, Gaston Lagaffe, Jean Valhardi, Tanguy e Laverdure e outros, e também uma história de Tintin (Tintin au Tibet) no original em língua francesa, para ajudar os jovens na sua aprendizagem escolar. Aos que tivessem mais dificuldades na tradução era fornecida uma relação de legendas e balões, devidamente numerados, em português.

(...)

António Martinó

Cópia das revistas em formato pdf e html na Hemeroteca Digital


http://www.bdportugal.info/Comics/Col/ENP/Foguetao/index.html

https://operadepapel.blogspot.com/2014/10/foguetao-semanario-juvenil-para-o-ano.html

https://outrasleiturasdopedro.blogspot.com/2011/05/asterix-50-anos-em-portugal-i.html

https://outrasleiturasdopedro.blogspot.com/2011/05/asterix-50-anos-em-portugal-iii.html

UMA NOVIDADE PARA OS LEITORES DE HISTÓRIAS EM QUADRADINHOS!

A FAMOSA SÉRIE "TIM-TIM" VAI SER APRESENTADA NO IDIOMA ORIGINAL: O FRANCÊS

Tim-Tim é hoje a vedeta n.º 1 das séries ilustradas para a juventude. Não é possível retirá-lo do jogo sem que esse jogo deixe de ter interesse para o público, porque, pese embora ao grande Mickey, Tim-Tim, campeão da Europa, está em muito bom lugar para concorrer ao título de campeão mundial de todas as categorias...

Eis a razão por que um jornal para jovens como «Foguetão» não pode prescindir da colaboração dessa grande vedeta mundial, cujo êxito alguém já comparou ao de Charlot.

Desta vez, porém, quisemos introduzir uma novidade na série «Tim-Tim», novidade que — segundo esperamos — irá agradar aos nossos leitores — e muitos são — que estudam francês. É a publicação dessa série na língua original — a francesa —, o que lhes permitirá «saborearem» melhor toda a graça dos diálogos. As séries «Tim-Tim» estão escritas num francês ao mesmo tempo correcto e corrente. Que melhor ajuda para os nossos jovens estudantes do que esse contacto directo com o idioma vivo? Não é possível conhecer a fundo uma língua estrangeira só pelos livros escolares. E, quando não haja possibilidade de a aprender no próprio país ou convivendo com os seus naturais, nada melhor do que a leitura dos livros e jornais onde essa língua aparece «tal qual se fala», sem as habituais frases feitas: «eu tenhos o teu lápis e tu tens o chapéu da minha tia...» Em resumo, rapazes e raparigas: publicando «Tim-Tim» em francês, quisemos, não só dar-lhes a conhecer a graça original do texto, como ajudá-los a melhor compreenderem um dos mais belos idiomas do mundo.

— Mas eu não sei francês! Mas eu não estudo francês! — dirão alguns dos que nos lêem.

Naturalmente que pensamos também nesses. É por isso que, no fim de cada página da série, aparecem as legendas traduzidas e numeradas, para melhor identificação. Assim, não só os que sabem francês podem fazer a sua tradução e compará-la com a nossa, bem como os que não sabem estarão habilitados a ler a história de fio a pavio...

À propósito: queremos desde já avisar os nossos leitores que conhecem bem a língua francesa de que, como certamente devem concordar, nem sempre é possível dar uma tradução das legendas puramente literal, o que destruiria a harmonia da frase em português. Limitámo-nos, portanto, a seguir o texto o mais fielmente que nos foi dado, tanto mais que há nele expressões pràcticamente intraduzíveis, como sejam, por exemplo, as saborosas exclamações do capitão Rosa...

Devemos lembrar ainda que os nomes de várias personagens não são os mesmos no original e na tradução portuguesa. Não se trata, apenas, de Tintin se escrever e dizer Tim-Tim, mas também, por exemplo, de Milou ser Rom-Rom...

— Mas porquê o Tim-Tim em francês e não uma série em inglês? — poderão também perguntar os apaixonados pela língua de Shakespeare.

A esses responderemos que, no caso da nossa iniciativa ter êxito, uma série em língua inglesa se seguirá, apresentada nos mesmos moldes.

Vamos, portanto, ler «Tim-Tim» em francês! Dêem-nos a sua opinião os que gostaram e... os que não gostaram. A crítica bem intencionada só pode ajudar-nos a fazer subir cada vez mais alto o nosso «Foguetão»!