domingo, 20 de outubro de 1996

Dupond e Dupont

Eu diria mesmo mais: se há alguma dupla humorística na história da banda desenhada que vem de imediato ao espírito é Dupond e Dupont, os dois famosos, inqualificáveis e quase simétricos polícias criados pelo belga Hergé numa das aventuras de Tintim.
Surgiram em 1934 como simples comparsas na versão a preto e branco de "Os Cigarros do Faraó" — eram, no início, os agentes X 33 e X 33-bis, mas o autor baptizou-os depois com os nomes com que ficaram para a posteridade —, embora a primeira figuração (anónima) remonte à versão a cores de "Tintim no Congo". No entanto, conquistaram rapidamente um estatuto de relevo graças... à sua nulidade mais absoluta. Apesar de uma extraordinária semelhança — distinguem-se um do outro porque Dupond tem um bigode direito, enquanto o de Dupont sobe ligeiramente nas pontas —, não têm qualquer grau de parentesco. O que o criador de Tintim quis simbolizar com estes dois personagens é fácil de perceber: a pretensão e a estupidez, a intolerância imbecil e arrogante dos pequenos burgueses de todas as latitudes, a inépcia e falta de jeito que podem tornar-se perigosas com facilidade.
Mais difícil é saber como surgiram na cabeça de Hergé:
"Já não me lembro", confessou nas suas célebres entrevistas a Numa Sadoul ( "Entretiens avec Hergé", Casterman, 1989). "A verdade é que o meu pai tinha um irmão gémeo que morreu três ou quatro anos antes dele. E, até ao fim, vestiam-se de forma idêntica (...) O que é curioso é que nunca pensei sequer um segundo neles quando criei os Dupond(t)".
Vamos aceitar que sim. Porque o que realmente interessa são os "gags" extraordinários que vivem nas aventuras de Tintim. Circunspectos em qualquer circunstância — ou, pelo menos, é o que eles julgam... —, dão-se uns inimitáveis ares de Sherlock Holmes que tudo no gesto seguinte desmente. Como recorda o mesmo Sadoul, só eles é que poderiam gritar "que ninguém saia" numa situação de "As Jóias da Castafiore" em que entram numa sala de onde ninguém tem vontade de ir para onde quer que seja!
Quase seria desnecessário lembrar que nunca conseguem levar a bom termo as missões de que são incumbidos. E não é raro que as suas desajeitadas iniciativas acabem por se virar contra eles, e isto não é apenas uma imagem! Os seus delírios verbais, que surgem numa fase já relativamente tardia da série, são hilariantes até às lágrimas. E constituem, para todos os efeitos, a sua imagem de marca, de que o "eu diria mesmo mais" é o expoente absoluto. Ao lado desta dimensão cómica dos personagens, há as situações em que se vêem envolvidos. Aparecem num quadradinho para chocarem, com estrépito, num obstáculo na imagem seguinte. E os trambolhões, escorregadelas, e quedas de veículos em movimento (tanto pode ser um jipe como um combóio) são a previsível consequência de qualquer gesto mais inócuo. Ao ponto de se registar uma média de duas quedas por episódio. Nada mau!... Se é verdade que a repetição gera o riso no leitor, não é menos certo que Hergé acentua até ao limite essa fatalidade potencialmente auto-destruidora com a constante exploração de um tique — o de os dois detectives tudo fazerem para passar despercebidos. O resultado é o que se sabe: vestuário folclórico nos países que visitam (dos Andes à China) ou um indescritível fato de marinheiro que mais ninguém usa...
Se tudo isto já não chegasse para abalar a credibilidade profissional dos Dupond(t), há ainda as inúmeras circunstâncias em que eles são vítimas das suas próprias investigações. Dois exemplos: em "O caranguejo das pinças de ouro" perseguem falsários e acabam a pagar uma despesa com notas falsas; em "O segredo do Licorne", roubam-lhes as carteiras umas 20 vezes antes de apanharem o "pick-pocket" Aristide Filoselle...
Bem vistas as coisas, não há muito que possa ser adiantado em abono de duas criaturas com uma estreiteza de sentimentos e uma inteligência tão acanhada? Ora digam lá: o que se pode pensar de quem procura sair do deserto e acaba a perseguir o traçado dos pneus da sua própria viatura?!...

© 1996 Público/Carlos Pessoa

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