sábado, 14 de janeiro de 2017

Michel Bareau: Dar cor "sem trair" o original

Diretor artístico do Estúdio Hergé, responsável pela versão a cores "Tintin no País dos Sovietes", explica como foi o processo.



Hergé pintou outras obras em cores mais vivas. Procurou propositadamente ser diferente do autor?

Fizemos um trabalho como alguém que descobre uma obra do início do século depois da Grande Guerra. Os filmes de reportagem a preto e branco sobre a guerra marcaram as primeiros desenhos de Hergé. Quando criou Tintin, em 1928, foi marcado por esse estilo, desenhando como se fosse um filme a preto e branco. O que fizemos foi uma "colorização"" com a mesma técnica que já se utilizou para dar cor a filmes a preto e branco. Não tem nada que ver com a técnica de Hergé, a qual quisemos manter intacta, sem a trair.

Uma técnica diferente?

Ele criou uma técnica particular, que era fazer uma pintura sobre uma grelha. Ele desenhava e o gráfico filmava as figuras e depois imprimia em cinzento sobre papel de desenho. Hergé pintava e, posteriormente, sobrepunha uma segunda camada composta pela película que continha os traços a negro.

Como é que chegaram a essas cores?

Fizemos um trabalho de documentação. Se nos questionarmos sobre a cor de um garrafão de gasolina da Shell, vamos pensar que é amarelo, mas naquela época era vermelho escuro. Tentámos recriar um ambiente de 1920. Fotografámos os documentos originais e foi a partir daí que trabalhámos. Pensamos que conseguimos um resultado apelativo, com cores um pouco mais suaves do que as utilizadas por Hergé.

Como reage aos críticos da cor nesta obra?

O antigo secretário de Hergé, o senhor Alain Baran, diz agora que não deveríamos mexer na obra de um artista depois de ele falecer. Sinto como um ataque pessoal e à equipa, que se dedicou muito.

Sentiu responsabilidade perante os fãs de Hergé ao fazer este trabalho?

Foi uma grande responsabilidade, mas ao mesmo tempo tive muita liberdade para o realizar. Tive luz verde de Fanny Rodwell, que é a viúva herdeira de Hergé, e do seu marido, Nick Rodwell, que é ao mesmo tempo o responsável de Moulinsart, a empresa que gere os direitos de As Aventuras de Tintin. Com essa liberdade que me deram consegui ter uma noção clara e formar a minha opinião sobre o ponto de partida.