Comprar Banda-desenhada de todas as épocas e para todos os gostos
A loja Timtimportimtim, no Porto, é um alfarrabista especializado em banda-desenhada. Tem uma oferta tentadora, e quase inesgotável, para um público "dos 7 aos 77 anos"
Se é quarentão, prepare-se para uma viagem no tempo. A Timtimportimtim, no Porto, tem todos os livros e revistas de BD (e merchandising) que povoaram a sua infância. Mas se não é tão velho (ou tão novo) não faz mal. Os comics são para leitores "dos 7 aos 77 anos", qualquer idade é boa para nos interessarmos por eles.
A montra, dominada por um boneco vintage do Tintim em tamanho natural, chama a atenção do mais distraído. Além de pilhas de livros e revistas, as miniaturas fazem as delícias de qualquer pessoa mais votada à memorabilia. Imagine o John Steed e a Emma Peel de "Os Vingadores", ele ao pé do seu clássico Bentley, ela do seu modernaço Lotus Elan. Ou um cenário sci-fi da série de animação "Thunderbird". Ou todos os automóveis dos filmes de James Bond...
Hoje com 51 anos, Alberto Gonçalves abriu esta loja em 2004, quando a rua da Conceição ainda não tinha a azáfama de novo comércio que hoje tem. Começou com um negócio pequeno e foi crescendo. A especialidade da casa são as revistas franco-belgas e portuguesas. As estrangeiras "Tintim", "Spirou" e "Pilote", mas também as nossas "Cavaleiro Andante", "Tintim" e "Mundo de Aventuras". Ou, ainda, as edições brasileiras da Walt Disney (Mickey e derivados) e dos super-heróis. "Comecei com um stock pequeno, no início, e depois fui comprando a grandes coleccionadores", explica o proprietário. "Há pessoas que se souberam desfazer destas coisas na altura certa, porque hoje têm um valor que não tinham 10 anos atrás".
Uma boa biblioteca de banda-desenhada "pode rondar entre os 25 e os 50 mil euros", exemplifica. "Este é um nicho de mercado muito pequeno", acrescenta. Quando lhe pedimos para dizer o que é que tem à venda mais barato e mais caro, apressa-se a esclarecer: "Coisas baratas, aqui, não há!" E dá exemplos: "Tenho revistas a €0,50 e a €1 ("FBI", "Xerife"...), mas uma colecção d'"O Mosquito" pode valer 5 mil euros." Depois, também conta muito o estado de conservação: "Um álbum do Tintim dos anos 60 pode oscilar entre os 2 e os 100 euros".
Para onde quer que olhemos, é só títulos e logótipos da nossa infância a ganharem vida novamente: Asterix, Ric Hochet, Michel Vaillant, Bernard Prince, Condor, Mandrake, Major Alvega, Zorro, Flecha 2000... "Quero apostar sobretudo em tudo o que gostei quando era miúdo... Aquilo de que eu gosto mesmo é tudo o que é relacionado com a minha mocidade", diz Alberto Gonçalves. Daí haver espaço ainda para alguma cinefilia, com várias revistas de espectáculos ("Ciné- -Revue", "Plateia", "Salut les Copains"...) e cartazes de filmes; para livros juvenis (Júlio Verne, Enid Blyton...); para cadernetas de cromos; ou para simples postais. Se é coleccionador, em busca daquele objecto perdido no tempo que nunca voltou a encontrar, ou um simples curioso, vale bem a pena perder algum tempo - e algum dinheiro, já agora... - neste mundo de fantasia retro.
Rua da Conceição, 27-29, Porto. 222 011 083 / 938 615 339. De segunda a sexta-feira, das 10h00 às 12h30 e das 14h30 às 19h30. Sábado, das 10h00 às 12h30 e das 14h30 às 18h00. Encerra ao domingo.
Publicado em 09 de Abril de 2010 , I
O sótão de todas as infâncias
A Livraria Timtim por Timtim apenas pelo nome avisa logo ao que vem: loja de banda desenhada com grande foco na franco-belga, destrocada com sotaque portuense. Aos comandos desde sempre está Alberto Gonçalves, uma figura reconhecidíssima entre colecionadores. Não que Alberto se identifique como colecionador, porque "qualquer livro que eu tenha é para lhe dar uso, para me sentar a ler". Também não considera a Timtim por Timtim um alfarrabista. No fundo, admite que a livraria é uma fantasia de criança: "isto é como ser um ator de cinema ou um apresentador de televisão. São profissões em que, quando chega o domingo à noite, um indíviduo não fica triste por depois ser segunda-feira e ser dia de trabalhar."
Essa infância de fantasias de Alberto estava preenchida pela chamada "macacada": "as pessoas da minha geração podiam até não gostar muito ou não ler muito banda desenhada, mas era algo que fazia parte do quotidiano de todos, simplesmente porque então não havia TV nem jogos de computador. Voltávamo-nos para o que os adultos chamavam de 'macacada', que era algo que tirava os pedagogos do sério — sobretudo porque as traduções que tínhamos eram todas em português brasileiro, e depois dávamos erros a escrever."
Finda a infância, Alberto fez a tropa em Cascais ("um sítio paradisíaco, e vi muito cinema no Quarteto e na Cinemateca, mas também nas máquinas de 25 escudos que mostravam filmes de mulheres a dançar"), e lança-se numa longa sequência de empregos: desde professor até quadro de uma empresa de engenharia civil. Mas foi só com a loja que encontrou a solução ideal, ou seja, um trabalho sem patrão.
O nome, "Timtim por Timtim", deve-o a uma rubrica da popularíssima revista Tintin. Mas muito facilmente o nome poderia ser outro: "as revistas de banda desenhada icónicas da minha geração tinham nomes como O Mosquito, Coleção Águia, Coleção Papagaio. Por pouco não chamei a isto 'Loja do Falcão'". A loja começou com um espaço na R. da Constituição, pouco depois mudou-se para a Rua de General Silveira, mas há cerca de 20 anos encontrou poiso permanente na R. da Conceição.
Esta localização, em plena baixa do Porto, trouxe consigo, nos últimos anos, uma clientela surpreendente: os turistas são muito atraídos pela loja, explorando os pequenos corredores com livros de formatos díspares combinados e encaixados como azulejos.
"A resposta é fácil: as personagens e heróis que estão aqui são de um imaginário partilhado, não importa as nações. E temos aqui muitos livros em italiano, em francês, em espanhol. Há aqui livros para qualquer pessoa", assegura.

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