sexta-feira, 18 de abril de 2025

O Papagaio


Novas Aventuras de Tim-Tim (O Lótus Azul) #166 de 16/06/1938 ao #205 de 16/03/1939

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Viajei nessa altura com Tim-Tim por sítios que nunca mais esqueci. Alguns destes, apenas alguns, já depois os conheci “ao vivo”; quanto a outros, andei pelas suas “bandas” próximas; aos restantes, nem sequer isso, mas um deles, a Escócia, está ainda na minha agenda pessoal de passeios pelo Mundo...

Estes lugares mais ou menos míticos (talvez até exóticos!) correspondem aos cenários onde decorriam as tais aventuras ao tempo transcritas nas páginas soltas de O Papagaio a que tinha acesso: Tim-Tim na América (3 - Tintin en Amérique, 1931-32), Tim-Tim no Oriente (5 - Le lotus bleu, 1934-35), Novas Aventuras de Tim-Tim (4 - Les cigares du pharaon, 1932-33), Tim-Tim em Angola (2 - Tintin au Congo, 1930-31), O Mistério da Orelha Quebrada (6 - L'oreille cassée, 1935-37), A Ilha Negra (7 - L'Île noire, 1937-38), Tim-Tim no Deserto (9 - Le crabe aux pinces d’or, 1940-41), sem título (10 - L'étoile mystérieuse, 1941-42) e O Segredo do Licorne (11 - Le secret de la Licorne, 1942-43). A informação complementar, entre parêntesis, contempla o número de ordem, título e datas da publicação original.

Em suma, das 11 primeiras aventuras de Tintin, apenas não foram divulgadas n’O Papagaio a primeira (Tintin au Pays des Soviets, 1929-30) e a oitava (Le Sceptre d’Ottokar, 1938-39), o que constitui uma autêntica proeza editorial para um pequeno país como nós. Disponho de uma segura teoria pessoal para “explicar” a “exclusão” destas duas histórias, mas isto ficará para outra oportunidade...

Entre 1936 e 1949, limites temporais da divulgação da obra de Hergé na revista nacional, foram aqui publicadas essas nove aventuras de Tintin, criadas entre 1930 e 1943, o que significa, em média, um insignificante “atraso” de cinco anos. Notável!

(...) As páginas soltas dessa história [Tim-Tim em Angola] a que tive acesso, ainda mesmo antes de saber ler-lhes legendas e balões, fascinaram-me. A sua trama, muitas vezes reduzida aos inúmeros episódios (ou gags) inseridos no essencial do seu maravilhoso continuum narrativo, era já perceptível independentemente do fundamental acesso à leitura. Nem dava para percebermos as mutilações derivadas da grosseira remontagem a que os nossos gráficos submetiam as pranchas originais nem sequer o artificialismo do colorido, primário mas sedutor, com que a história “made in Portugal” mascar(r)ava a produção “naïf” de Hergé, criada a preto e branco.

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António Martinó de Azevedo Coutinho, 06/07/2010


- Em "Le Petit Vingtième", Hergé coloriu (durante a impressão) cerca de sessenta páginas de "A Ilha Negra" com tinta vermelha e verde, utilizando cores chapadas e meios-tons. Fê-lo sem alterar o desenho original, que foi a única versão reproduzida no álbum Casterman.

- Por outro lado, após a guerra, surgiram milhões de tiras cómicas nos jornais de todo o mundo, com o estilo dos álbuns "clássicos", mas... sem as cores!

- De 1935 a 1949, a revista "O Papagaio", fornecida directamente por Hergé, publicou em Portugal nove títulos a cores. As cores eram terrivelmente berrantes. Hergé permitiu que acontecesse.

- Durante a guerra, a Cœurs Vaillants coloriu grosseiramente as tiras a preto e branco do "Le Soir", remontando-as página a página. Hergé não reagiu.

Sem dúvida que houve outros exemplos deste tipo de coloração, mas o grande interesse dos presentes em "Cœurs Vaillants" e "O Papagaio" reside no facto de termos a opinião de Hergé sobre estes flagrantes abusos. E não era contra eles, muito pelo contrário! De facto, ao seu editor e amigo Charles Lesne, que mencionou a colorização de "Bravehearts" e esperava uma reacção muito negativa de Hergé (carta de 27 de Agosto de 1944), Hergé respondeu: "Eu tinha conhecimento disso... Eu também sabia, sem ter visto, que esta reprodução estava a ser feita a cores..." (...). "Portanto, creio que não devemos encarar isto como uma tragédia. Pelo contrário, alegremo-nos por Tintim ter continuado a ser publicado lá (...)." "A situação é ainda pior em Portugal, onde os meus desenhos são indescritivelmente mutilados e coloridos como que por uma criança daltónica de três anos..." E, finalmente: "Consolo-me com a publicidade que isso nos gera. É melhor ser conhecido por más reproduções do que não ser conhecido de todo!" E, para cúmulo, numa data que não consegui encontrar, após a guerra, Hergé aceitou colorir dois dos seus álbuns a preto e branco a pedido da revista Tintin France.

O exposto acima não resolve a questão de saber se todas estas colorizações foram uma boa ideia. Há argumentos para ambos os lados. Mas ninguém tem permissão para invocar Hergé para rejeitar, em seu nome, a colorização de 'Os Soviéticos'. Aqueles que julgam poder falar em nome de Hergé em total ignorância deveriam copiar cem vezes: "Prometo nunca mais falar em nome de Hergé sem antes consultar a sua opinião." * Reexaminemos, pois, nesta perspectiva, os supostos sentimentos de Hergé ao saber — por terceiros — da colorização feita por Michel Bareau. É inegavelmente de alta qualidade. O álbum está a ser oferecido aos fãs pela sua ex-colorista, pela sua mulher e pela sua única herdeira. Depositou nela total confiança para gerir o seu património. Estes senhores, que falam em nome de Hergé sem nunca o terem conhecido, julgam obviamente saber mais sobre os seus gostos e sentimentos do que a mulher que esteve ao seu lado durante quase trinta anos.

Pode-se não apreciar certas iniciativas de Moulinsart ou Casterman (mesmo que se possa questionar o porquê). Mas acusar Fanny — como li — de pensar apenas em "encher os próprios bolsos" é de uma rudeza sem tamanho. Lembremo-nos da sua decisão (criticada na altura!) de não permitir que as aventuras de Tintim continuassem. Milhões de álbuns poderiam ter sido vendidos. Reconheçamos o seu trabalho intenso e contínuo, e também o de Nick, o seu marido, na perpetuação da fama de Hergé. Agradeçamos à Fanny, que dedicou somas consideráveis ​​para homenagear Hergé num esplêndido museu! Tudo isto não tinha certamente a intenção de "encher os próprios bolsos". E escrever algo tão frio num jornal ou na internet parece-me terrivelmente estúpido, particularmente injusto e malicioso.

Etienne POLLET

 Dans le "Petit Vingtième", Hergé a colorisé (à l'impression) une soixantaine de planches de "L'Île Noire" avec de l'encre rouge et verte, en à-plats et demi-tons. Sans rien changer à son trait d'origine qui sera seul repris dans l'album de Casterman.

- À l'inverse, après guerre, des millions de strips paraissent dans la presse du monde entier, avec le trait des albums 'classiques' mais… sans leurs couleurs !

- De 1935 à 1949, la revue "O Papagaio", alimentée en direct par Hergé, publie 9 titres coloriés sur place, au Portugal. Les teintes sont épouvantablement criardes. Hergé laisse faire.

- Pendant la guerre, Cœurs Vaillants colorise sommairement les strips en noir et blanc du "Soir", remontés par pages. Hergé ne réagit pas.

Sans doute y eut-il d'autres exemples de tels coloriages mais le grand intérêt de ceux de "Cœurs Vaillants" et de "O Papagaio" c'est que l'on dispose de l'avis d'Hergé sur ces abus manifestes. Et il n'était pas contre, au contraire ! En effet, à son éditeur et ami Charles Lesne, qui lui parle du coloriage de "Cœurs Vaillants" et s'attend à une réaction très négative d'Hergé (lettre du 27 août 1944). Ce dernier répond : "J'étais au courant… Je savais également, sans l'avoir vu cependant que cette reproduction se faisait en couleurs…" (…). "Je crois donc qu'il ne faut pas prendre cela au tragique. Réjouissons-nous au contraire que Tintin ait continué à paraître là-bas (…)". "Le même cas se présente d'ailleurs en beaucoup plus grave au Portugal où mes dessins sont massacrés de manière indescriptible et coloriés comme s'ils l'étaient par un enfant de trois ans affligé de daltonisme…" Et en finale : "Je me console en pensant à la publicité que cela constitue pour nous. Il vaut mieux être connu par de mauvaises reproductions que pas connu du tout ! ". Et pour couronner le tout, à une date que je n'ai pas retrouvée, après guerre, Hergé a accepté de coloriser deux de ses albums en noir et blanc, à la demande du journal Tintin France.

Ce qui précède ne règle en rien le fait de savoir si toutes ces colorisations étaient une bonne idée. Il y a des arguments dans les deux sens. Mais il n'est permis à personne de prendre Hergé à témoin pour rejeter, en son nom, la colorisation des 'Soviets'. Ceux qui croient pouvoir parler au nom d'Hergé en totale ignorance, copieront cent fois "Je promet de ne plus parler au nom d'Hergé sans lui demander son avis."


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