sexta-feira, 13 de dezembro de 1991

Tintin no tribunal Paródia sobre Hergé começou a ser julgada em Paris

Tintin a sodomizar o seu cão Milú. Os irmãos Dupont(d) na cama, em práticas homossexuais. A libido da Castafiore satisfeita por um Tintin com barba por fazer e camisa de “gigolo”. São situações como estas que levaram outro autor de BD, o belga Jan Bucquoy, a responder anteontem num tribunal de Paris por crime de difamação.

Uma banda desenhada belga que critica violentamente o universo de Tintin e satiriza os comportamentos políticos e sexuais do seu autor, Hergé, começou a ser julgada em Paris esta semana. A acusação considera que a memória do artista foi ultrajada. A defesa invoca o direito à liberdade de expressão. Até onde pode ir a paródia envolvendo personagens famosas? A acção foi movida pela viúva de Hergé, pela Fundação com o mesmo nome e pela Casterman, o editor francês das aventuras de Tintin, que pedem uma indemnização de um milhão de francos. Alegam que a memória do autor foi ultrajada com uma banda desenhada assinada por Bucquoy (texto) e Vidon (desenho), intitulada “A Vida Sexual de Hergé”, publicada no princípio deste ano pela revista “Belge”, editada por Dolle Morgen. Foi também pedida a proibição desta história em álbum, que inaugurou a colecção “A Vida Sexual de...”, da responsabilidade da editora francesa Magic Strip. Bucquoy declarava, em Fevereiro deste ano ao jornal espanhol “El País”, que as investigações por ele efectuadas lhe permitiam assegurar que o criador de Tintin tinha mantido relações homossexuais na adolescência. Na história publicada pela revista “Belge”, é relatada a noite que Hergé teria passado com um jovem escuteiro e há referências à vida amorosa do autor com Léon Degrelle, chefe das Waffen SS, durante a ocupação alemã, e que vive actualmente em Espanha.

Controvérsia total 

O advogado das edições Casterman, Antoine Weil, afirmou à France Presse que “essa publicação, que se pretende ‘europeia e normal’ é sobretudo escandalosa e pornográfica”. Considerando as referidas bandas desenhadas “perfeitamente abjectas”, o mesmo jurista denunciou a “amálgama” entre Degrelle e Hergé, “cujas simpatias eram próximas da extrema-direita”, mas que “nunca foi colaboracionista”. Quanto a Boucquoy, toda a estratégia da defesa assenta no direito à liberdade de expressão do artista e, por outro lado, na incompetência do tribunal de Paris para julgar um caso que incide sobre edições que não são distribuídas em França. Qualquer que seja a decisão sobre este caso, que só será conhecida no próximo dia 29 de Janeiro, a iniciativa de Bucquoy, conhecido pela sua criatividade corrosiva e provocatória, abriu o debate sobre uma velha questão: até onde pode ir a paródia e a sátira envolvendo personalidades famosas? A par da controvérsia sobre a vida sexual do criador de Tintin — que, diga-se de passagem, são totalmente irrelevantes para a avaliação da sua obra — são também as posições políticas e ideológicas de Hergé que voltam a ser denunciadas pelos autores da referida obra. Com efeito, Bucquoy retoma argumentos e críticas que estiveram em voga nos anos 60 e 70, período em que alguns dos mais importantes autores europeus de banda desenhada foram imolados no altar da crítica pelos teóricos mais politizados da banda desenhada.

Linha clara 

No caso de Hergé, o autor belga é acusado de ter trabalhado para o jornal belga “Le Soir”, um diário colaboracionista onde viram a luz do dia as aventuras das primeiras fases da série. Hergé ladeou a censura imposta pelos alemães, e as difíceis condições de trabalho decorrentes de um tempo de guerra generalizada, desenvolvendo histórias em que as problemáticas de ordem social estão totalmente ausentes, cedendo o passo à aventura em estado puro. Exemplos maiores desta orientação são as histórias “O Caranguejo das Tenazes de Ouro”, “A Estrela Misteriosa” ou o ciclo “O Segredo do Licorne”-”O Tesouro de Rackham, o Terrível”, onde Hergé desenvolve ao máximo o universo “familiar” e intimista da série. Esta opção serviu aos seus detractores para denunciarem o cunho alegadamente conservador, racista, anticomunista, colonialista e misógino das histórias protagonizadas pelo seu mais conhecido personagem. Estas críticas, mas agora de sinal contrário, viriam a ser formuladas ao criador de Tintin a propósito das últimas aventuras, nomeadamente “Tintin e os Pícaros”. Hergé e o “seu” Tintin conseguiram sempre, pelo menos até agora, sobreviver a todas as tempestades. Os anos 80, sobretudo após a morte do artista, em 1983, caracterizam-se pelo triunfo inequívoco da “linha clara”, uma corrente estética da banda desenhada internacional que se reclama do estilo gráfico popularizado por Hergé. E também pela proliferação de um número incrível de obras consagradas ao estudo, análise, desmontagem e exegese da obra deste autor belga. Aparentemente indiferentes às controvérsias, os leitores de Tintin e do seu fabuloso universo de mais de 800 personagens continuam a pagar o tributo merecido a esta obra perene, que já vendeu mais de 150 milhões de exemplares nos 40 países onde foi publicada

© 1991 Público/Carlos Pessoa

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