terça-feira, 16 de março de 1993

Um autor para a eternidade Numa Sadoul, o “mega-entrevistador” de Hergé

Testemunho impressionante e único sobre a vida e a obra do criador de Tintin, “Les Entretiens avec Hergé” constituem um paciente e laborioso trabalho de artesão, que une de forma definitiva os destinos do entrevistado e do entrevistador. Conversa com este último, agora no papel de respondedor... Do seu contacto com Hergé, Numa Sadoul, durante muitos anos ligado à crítica e divulgação da banda desenhada, guarda as melhores recordações. E, sobretudo, projecta sobre as gerações vindouras uma imagem de coragem, honestidade intelectual e amizade para com um autor que desceu aos infernos da “inquisição” do pós-guerra, atravessou purgatórios vários nos “tempos de brasa” das décadas de 60 e 70 e subiu aos céus nos anos que se seguiram à sua morte. Entre a queda e a reabilitação, permanece um espaço absoluto, aquele que é preenchido pelas magníficas aventuras dos seus personagens, evocadas nesta entrevista telefónica.

PÚBLICO — No prefácio ao seu livro com as entrevistas mantidas com Hergé, refere-se ao facto de ter sido muito penosa a revisão do texto por parte do próprio Hergé, que não só levou muito tempo, como em certos casos alterou completamente o conteúdo do que lhe tinha afirmado. Considera que essa operação de “cosmética” se destinava a esconder alguma coisa... Por exemplo, factos que dessem razão aos que o acusavam, e continuam a acusar, de ser reaccionário?
NUMA SADOUL — Não, não penso que se possa responder de uma forma simples a essa questão. Numas coisas, ele era reaccionário, enquanto em outras era progressista. É verdade que algumas das passagens das entrevistas foram totalmente reescritas, mas isso tem mais a ver com o desejo de ordem, organização e de perfeição que caracterizavam o seu temperamento e o seu modo de trabalhar. Ter levado dois anos a deixar pronto o resultado do nosso trabalho dá uma boa imagem do ponto a que Hergé levava a sério as questões que se prendiam consigo mesmo.
Mas isso permite concluir que Hergé tinha o culto da sua imagem pessoal?
Não, era precisamente o oposto disso. Gostaria que ficasse bem claro que o que ele alterou nas entrevistas não se prendia com o conteúdo das respostas, mas apenas com a forma como as coisas eram apresentadas. As suas entrevistas foram feitas nos anos 70. Nessa altura já existiam alguns indícios do movimento que viria a traduzir-se, na década seguinte, na “linha clara” que integrava os desenhadores que se reivindicavam do seu estilo gráfico?
Ainda não. Na altura, ele era, muito simplesmente, o maior autor de banda desenhada vivo. Nada que se pudesse relacionar com uma hipotética escola, ou um movimento de seguidores, nada!
Mas, apesar desse prestígio de que fala, Hergé era um homem sob a mira da contestação da esquerda... Ora, o seu trabalho constitui, de algum modo, uma postura contra a corrente dessa tendência crítica, dominante na época.
É verdade. Mas é bom recordar que ele foi bastante mais contestado nos anos que seguiram à Segunda Guerra Mundial, do que nos anos 60-70. Os intelectuais de esquerda acusavam-no de reaccionário e eu próprio, na altura, situava-me num campo que estava, de um ponto de vista ideológico, no lado oposto ao de Hergé. Mas não tive o menor escrúpulo em o defender e em demonstrar que todos os que o criticavam estavam enganados!
Quais eram os seus argumentos em defesa de Hergé? Para mim, ele era um grande autor que resistiria e passaria por cima de todas as épocas e modas. Além disso, eu sabia que tinha nele um amigo para toda a vida. Por outro lado, eu estava convicto de que não era nada daquilo que diziam dele. Na sua época, ele era já um histórico e, como em todas as artes, há sempre a tendência para contestar o que surge como institucional e consagrado. E a melhor prova de que isto é assim está no facto de ninguém se atrever hoje, 20 anos depois, a defender as mesmas posições com os argumentos da época. Quem o fizesse assumiria uma atitude completamente ridícula. Desgraçadamente, foi preciso que Hergé morresse para reunir o unanimismo. Mas já se sabe que é sempre assim...
O momento da sua morte é também o primeiro tempo de um processo de deificação...
Ah!, isso era inevitável! ...
E há mesmo uma série de autores que se reivindicam do estilo de Hergé. Na sua opinião, entre todos esses autores, quem está em melhor posição para poder, eventualmente, ser considerado um legítimo herdeiro do “tesouro” do criador de Tintin? 
São tantos, que é realmente difícil dar uma resposta simples. O suíço Cosey pode ser integrado nessa lista de “herdeiros”, sem que isso o impeça de ter uma obra original. Noutro quadrante, existe Moebius. Manara, também. A partir de Hergé desenvolveram-se estilos tão diferentes que é muito difícil falar num “herdeiro”. Aliás, com a morte de Hergé, morreu também uma certa forma de banda desenhada, já que ninguém hoje trabalha da maneira que ele o fazia! Os estúdios acabaram, a concepção quase renascentista de criar uma obra de arte — que o artista poderia reivindicar para si —desapareceu também. É tudo muito diferente.
Sendo assim, o que é que resta de Hergé e da sua obra, dez anos passados sobre a sua morte? Resta tudo! A começar pelos seus excelentes álbuns, que têm um valor indiscutível. Mas é necessário deixar poisar a poeira e acalmar os ânimos, porque começa a tornar-se insuportável toda esta loucura em redor do artista, aliás muito bem gerida pela Fundação Hergé, pela viúva, etc.
Você entrevistou Hergé, “dissecou” a sua obra, deixou um testemunho importante. O que está ainda por dizer, ou fazer, relativamente a este autor? 
Hum!... Aí está uma boa pergunta, a que é difícil responder. Pela minha parte, não há mais nada a fazer, porque, ao entrevistar Hergé, deixei-o falar, exprimir-se, dizer o que pensava. Outros autores pensarão que ainda têm algo a dizer sobre a obra de Hergé, mas não é o meu caso.
Para si, é um “dossier” definitivamente encerrado? Bem, ainda restam algumas coisas que poderia incluir um dia na versão definitiva da versão definitiva das entrevistas com Hergé (risos)... Mas para mim, é mesmo um caso acabado.
Mas continua ligado à banda desenhada? 
Precisamente: não! Desde há uns dois anos que abandonei esta área. O meu trabalho está agora virado para o teatro e a ópera.

 © 1993 Público/Carlos Pessoa

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