quarta-feira, 29 de agosto de 2007

Na Terra do Nunca

A invisibilidade de Hergé...

No dia 19 de Maio deste ano, o jornal Expresso publicou um dossier relativo ao centenário de Hergé que se comemorou 3 dias depois. Até aqui tudo bem, Hergé e Tintin têm uma relevância para a História do Século XX e nomeadamente para História da Literatura nesse século, que justificam tal trabalho. 

Contudo surgiram-me aí várias "estranhezas". A primeira foi não ter sido incluído um texto de um habitual colaborador deste jornal quando as "matérias" dizem respeito a este assunto, falo de João Paiva Bóleo. De qualquer forma fiquei igualmente congratulado pelo texto de João Paulo Cotrim, a quem reconheço, também, um conhecimento sobre Tintin e Hergé acima da média. A segunda "estranheza" aconteceu quando vi que um novo livro sobre Hergé tinha sido publicado em português e que o mesmo era apresentado pela sua autora, Ana Bravo, sem ser objecto de uma recensão crítica, o que era, no mínimo, expectável.

Esse livro, que tem como título "A invisibilidade do género feminino em Tintin: a conspiração do silêncio" resulta duma tese de mestrado em Estudos sobre Mulheres. Apressei-me a encontrar e a comprar o livro, porque sou um comprador compulsivo de todas as obras que se debrucem sobre Tintin. Depois de o folhear e ver minimamente o que lá estava escrito, achei que esta obra não mereceria uma leitura séria, simplesmente porque a abordagem que era feita também não me parecia muito séria. Surgiram-me um arrazoado de ideias pré-concebidas (e mal documentadas) sobre a obra de Hergé com o único intuito de denegrir essa obra, justificando uma hipótese de tese que, a ser honestamente trabalhada, até poderia ter alguma "piada".

Mais tarde tive oportunidade de ler um texto sobre esta obra da autoria de J.P. Boléo que justifica e consolida, definitivamente, a ideia com que tinha ficado. Este texto irá ser publicado brevemente, assim como outros cuja autoria, de pessoas profundamente conhecedoras da obra de Hergé e da banda desenhada, serão garantias de qualidade.

Quanto a este trabalho de Ana Bravo, parece-me que se trata, tão só, de uma obra em que se nota, sobretudo, uma verdadeira invisibilidade de honestidade intelectual e que não irá ficar numa conspiração silenciosa, já que vozes, verdadeiramente informadas, não deixarão que isso aconteça!

Publicada por Pan em 08/08/2007


segunda-feira, 27 de agosto de 2007

Tintin, Meu Herói

DA MEMÓRIA …JOSÉ LANÇA-COELHO

TINTIN, MEU HERÓI

Hergé, o ‘pai’ de Tintin, punha o seu filho, e o seu inseparável cão Milú, em aventuras extraordinárias, que eram complementadas com os impagáveis gémeos Dupont, as estrambólicas invenções do Professor Tournesol, que mais tarde o compararia com o meu mestre Jules Verne – ambos foram à Lua - , e, o carismático capitão Hadock, e que eram vistas, não lidas, por mim, pelo meu irmão e por todos os amigos que faziam parte do saudoso clube de futebol, lá da rua.

Andava eu pelos nove anos e os outros pelos sete. Nenhum de nós aprendera ainda a língua de Voltaire. Então, como não percebíamos uma palavra de francês, abríamos o livro mais recente do nosso herói – cada um de nós comprava o seu que depois compartilhávamos – e punhamo-nos a adivinhar o que cada um dos personagens dizia no primeiro quadradinho (só muitos anos mais tarde vim a saber que os quadradinhos na Banda Desenhada tinham o nome científico de vinheta)

A partir dos bonecos, inventávamos uma história que, na nossa imaginação, podia não coincidir com as palavras dos personagens de Hergé, mas, quando chegávamos às partes cómicas, a hilaridade que Hergé pretendia transmitir aos seus leitores, eram compartilhadas por um grupo de crianças, totalmente reduzidas à força das imagens e das expressivas onomatopeias que, não deixavam qualquer dúvida, sobre o que estava a acontecer.

O segundo irmão Dupont a repetir o que o primeiro dissera, mas precedido das palavras, “Eu diria mais”.

A impulsividade do capitão Haddock, quando estava furioso, - e não eram poucas as vezes -, ‘com os mil raios’, representados por montes de estrelas, que lhe saíam da boca, onde estava um cachimbo, cujo combustível consumido ainda não era proscrito como actualmente, pois a ciência ainda não descobrira os verdadeiros malefícios do tabaco.

Tintin e Milú, na sua simplicidade encarnada por um rapaz um pouco mais velho que nós, com quem nos identificávamos em todas as aventuras, e um cão que era igualzinho ao da Aninhas, a rapariga do prédio da frente, que já andava no Liceu – e sabia francês - e por quem todos nós estávamos apaixonados.

Mais tarde, quando descobri a poesia e, dentro desta, “os meus maiores”, mal sabia que, um deles, Miguel Torga,  nascera no mesmo ano do criador do meu herói preferido na Banda Desenhada.

Na verdade, o poeta português, cujo nome é Adolfo Correia da Rocha, pseudónimo Miguel Torga, nasceu a 12 de Agosto de 1907, em S. Martinho de Anta, enquanto Hergé, pseudónimo de Georges Prosper Remi, viu a luz do dia a 22 de Maio de 1907, em Bruxelas, cidade belga onde veio a falecer, a 3 de Março de 1983.

Os livros de Hergé/Tintin estão traduzidos em mais de 40 línguas.

https://arquivo.pt/wayback/20070717121244/http://cempalavras.blogs.sapo.pt/2007/06/25/

publicado por cempalavras às 23:57