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quinta-feira, 6 de agosto de 2026

Entrevista no Jornal de Letras (1987)


Entrevista a Adolfo Simões Müller. No JL de 16.3.1987

Adolfo Simões Müller: "Paguei a Hergé em latas de sardinhas"

Raul Correia, Cardoso Lopes, José de Oliveira Cosme, Baptista Rosa, Roussado Pinto... Homens, todos eles já desaparecidos, que devotaram, integralmente ou em grande parte, a sua actividade pública à divulgação editorial da banda desenhada. Adolfo Simões Müller, cujas declarações aqui registamos, é a voz de uma geração entusiasticamente empenhada na divulgação dessa forma de arte. Aos 76 anos, aquele que foi sucessivamente director de «O Papagaio», «Diabrete», «Cavaleiro Andante», «Foguetão» e «Zorro» defende com calor as histórias ilustradas dos ataques dos seus detractores.

Jornal de Letras — Como principiou o seu interesse pelos «quadradinhos»?

Adolfo Simões Müller — Claro, principiei por ser apenas um leitor do que, na matéria, então se fazia por cá: havia os suplementos do «Diário de Notícias» e de «O Século», um deles creio que dirigido pelo Cottinelli Telmo...

P. — E o passo seguinte, a entrada activa na sua produção e divulgação?

R. — Vamos por partes. Por altura dos meus 18 anos, estava eu a estudar Medicina, vi-me forçado a começar a trabalhar, dando aulas, porque as posses da minha família não eram grandes. Tornei-me professor nas Oficinas de S. José, onde me lembrei de inventar processos de entreter os alunos. Um deles consistiu em dividir a turma em dois grupos de futebol, com onze de cada lado, perfeitamente definidos como avançados, halves, backs, keeper e tal. A bola ia progredindo até ao golo, através de perguntas que se iam formulando sobre a matéria (neste caso, Ciências Naturais). Quando era golo havia uma algazarra! Este processo era óptimo porque os rapazes tinham sempre a matéria na ponta da língua, para tramarem o parceiro. Um dia, quando uma das equipas marcou golo, foi tal a barulheira que apareceu o director acompanhado de umas senhoras muito bem vestidas. Fiquei atrapalhado, mas lá expliquei em que consistia o jogo. Pois a verdade é que o «público» ficou para assistir e, no final, aplaudiu... Também ensinava a História de Portugal recorrendo à narração de episódios como se fossem histórias maravilhosas e os alunos aderiam entusiasmados. Assim começou, digamos, a exprimir-se a minha vocação para o contacto com a gente nova...

«Uma técnica própria de leitura»

P. — E daí aos jornais de histórias aos quadradinhos?

R. — Bom, teria eu cerca de 30 anos, «pescaram-me» para as «Novidades», onde passei a trabalhar como redactor. Por volta de 1935, o director da Renascença, Lopes da Cruz, lembrando-se da minha vocação para lidar com jovens (e eu, entretanto, tinha já publicado um livro infantil) convidou-me para fazer um jornal — e assim nasceu «O Papagaio». Escolhi alguns colaboradores já meus conhecidos — o Tom, o José de Lemos, etc. — e, além de textos, decidi incluir também banda desenhada. As pessoas diziam muito mal, que afastava os jovens da leitura, e por aí adiante, mas eu acho que não: o que tem é uma técnica própria de leitura. Aliás, quando se tratava de adaptações de obras literárias eu tinha sempre o cuidado de chamar a atenção para esse facto e de convidar à leitura do original, sublinhando que a adaptação não era mais do que um aperitivo para ela.

P. — Havia fortes concorrentes na altura...

R. — Sim. Os mais importantes eram o «Tic-Tac», «O Mosquito» e «O Senhor Doutor». Todos tinham histórias em banda desenhada.

P. — «O Mosquito» e «O Senhor Doutor», nos primeiros tempos, poucas ou nenhumas histórias ilustradas de origem portuguesa publicavam. N'«O Papagaio», creio, não se passavam assim as coisas...

R. — As histórias eram então quase todas de importação inglesa ou americana. Ora, independentemente dos méritos dos seus autores, não me agradava aquilo, pois não se adaptavam bem à nossa sensibilidade. Antes de passar a incluir n'«O Papagaio» produção portuguesa tive, porém, a sorte de poder contar com a inserção de histórias de Hergé. Foi o padre Abel Varzim, que estudara em Lovaina e que lá na Bélgica tivera a oportunidade de conhecer pessoalmente [ nb: apenas conheceu a Obra e não o autor ] o então ainda jovem e não muito famoso autor de Tintin, quem me falou dele. A coisa interessou-me, ele próprio se encarregou dos contactos e assim passámos a publicar em Portugal, pela primeira vez, o Tintin, o «Tim-Tim no Congo»... O Hergé, para mim, é a maior figura da banda desenhada. E fiquei sempre, n'«O Papagaio» e nos jornais que se lhe seguiram, com o exclusivo do Tintin. E sempre com o maior êxito!

P. — Os direitos de publicação de histórias do Hergé eram dispendiosos?

R. — Nem por isso... E vou contar-lhe um episódio curioso. Nós pagávamos em dólares, ou francos, ou lá o que era (já não me lembro) mas veio a guerra e aquilo para nós era uma ninharia. Eles lá é que estavam pobres... Ora, um belo dia, o Hergé escreveu-me a pedir-me, se possível, o pagamento dos direitos, não em dinheiro, mas em latas de sardinhas, que se destinariam a um irmão dele que estava prisioneiro dos alemães, num campo de concentração... Assim fiz: lá ia a minha mulher comprar as conservas, enviávamos-lhas e elas em seguida iam para o campo, via Cruz Vermelha... Posteriormente visitei o Hergé, encetámos uma relação pessoal e eu sempre fiquei «cliente» das produções franco-belgas, de grande qualidade.

P. — As traduções eram mesmo da sua responsabilidade?

R. — Sim, e no caso do Tintin até adaptei os nomes das personagens. Como se sabe, o Capitão Haddock tornou-se Capitão Rosa, o Professor Tournesol ficou Professor Pintadinho, e por aí adiante. Um caso engraçado é o do cão do Tintin, que no original, como é conhecido, se chama Milou; ora, acontece que na altura estava muito em voga a actriz e cançonetista Milu, a «Menina da Rádio», [ nb:«Em 1935, com nove anos de idade, Milú já cantava nos programas infantis da Rádio Graça e era conhecida como “a menina da Rádio”. Milú Almeida ou simplesmente Milú, como ficou conhecida pelas suas participações nos filmes “O Costa do Castelo”, “O Leão da Estrela” e “O Grande Elias” (mas não em “A Menina da Rádio”, que foi protagonizado por Maria Eugénia, a Geninha).» (Azevmen) ] e eu achei (achámos todos) que era aborrecido chamar Milu ao cão, parecia que era de propósito, até porque entre nós aquilo não é nome de cão. Então, por onomatopeia, ficou Rom-Rom. Tim-Tim e Rom-Rom, soava bem. Num álbum recente, dedicado à obra de Hergé, vem um quadro com as traduções dos nomes das personagens em muitas línguas — e lá vêm os nomes que eu lhes pus...

P. — Quanto às traduções propriamente ditas, as que se fazem agora são muito más, até do ponto de vista estilístico. Não é dessa opinião?

R. — Não leio, não tenho conhecimento. Mas sei que há uma grande invasão de publicações feitas no Brasil, o que é péssimo. E os miúdos consomem muito daquilo. É pena... Eu sempre me preocupei por adaptar com o maior escrúpulo os textos ao português correcto e coloquial, com os nossos provérbios, as nossas frases feitas... Ah, mas ainda a propósito da transposição dos nomes, aqui vai outra história engraçada. A páginas tantas deparei, numa história do Tintin, com um pirata qualquer chamado Müller. Como é natural (risos) eu não achei nada próprio que o vilão tivesse o mesmo nome que o director do jornal. E, assim, chamei-lhe outra coisa qualquer...

P. — Que tiragem tinha então «O Papagaio»?

R. — Não sei já bem, mas uns dez mil, para aí...

P. — Como (e porquê) acabou «O Papagaio»?

R. — Bom, a certa altura, o Lopes da Cruz (que era uma pessoa muito delicada) começou a queixar-se, a dizer que «aguentava a publicação por causa do Müller», e por aí fora. Claro, eu disse-lhe que estivesse à vontade mas ele ia mantendo o jornal, que não era rentável.

P. — E veio «O Diabrete»...

R. — Por essa altura, um dos administradores do «Diário de Notícias» perguntou-me se eu não quereria dirigir o «Diabrete», surgido uns meses antes, e que até então fora dirigido por um engenheiro agrónomo cujo nome, sem menosprezo, não recordo, mas que à data já era muito idoso [nb: A. Urbano de Castro] e se encontrava pouco capaz de ter ideias novas. Eu falei com o Lopes da Cruz, expus-lhe o caso, ele aceitou a minha posição — mas não gostou. E o que é certo é que fez sair «O Papagaio» por mais dois anos, apesar das dificuldades económicas com que se debatia. [ nb: Mais anos! «Como revista terminou no n.º 722, em 10 de Fevereiro de 1949, mas continuou, sendo secção da revista Flama, até 9 de Fevereiro de 1951.» (Azevmen) ]

P. — Dificuldades que não tinha o «Diabrete»?

R. — Era um jornal novo e menos dispendioso. Aí contei com a colaboração próxima do Fernando Bento, um grande desenhador, que ainda continua a trabalhar, apesar da idade (que é mais ou menos a minha).

P. — Mas já «O Papagaio» tivera grandes desenhadores...

R. — Sim. Olhe, um deles — pouca gente sabe isto — foi o grande pintor Júlio Resende, talvez hoje o maior pintor português. É verdade, o Júlio Resende, que com o irmão, fazia banda desenhada para nós. Um dia vieram do Porto de propósito para colaborarem numa festa de «O Papagaio», no Politeama. Faziam uma parelha de palhaços, o Júlio era o faz-tudo e o outro tocava harmónio.

P. — Era frequente nesse tempo a colaboração de artistas plásticos em jornais infantis...

R. — Pois era. O Stuart Carvalhaes também desenhou histórias a meu pedido. O Stuart já fizera muito antes bandas desenhadas com as personagens «Quim e Manecas», que ressuscitou já nos anos 50, quando lho solicitei. Sabe que nunca guardei os originais? Perdi tudo, nunca tive preocupações de coleccionismo. Hoje lamento-o profundamente.

P. — Não possui as colecções dos jornais infantis e juvenis que dirigiu?

R. — Não, nunca me preocupei com isso. Às vezes há coleccionadores que me procuram, que dizem que me dão não sei quantos contos por isto ou por aquilo. «Homem, venda-mos você a mim», respondo eu. (Risos).

P. — Mas voltemos a «O Diabrete»...

R. — Foi uma fase muito grata para mim os dez ou onze anos que durou. Mas comecei a imaginar uma coisa maior e melhor e assim nasceu o «Cavaleiro Andante», no princípio dos anos 50. Antes contara com trabalhos de grandes artistas portugueses e espanhóis (e entre estes últimos cabe destacar o Jesus Blasco, um grande pintor), ao passo que o «Cavaleiro» passou a estar voltado praticamente para quanto se fazia de melhor na Europa. Publicámos, além de produções de outras origens, o melhor da banda desenhada francesa e belga. O Professor Mortimer, de Edgar P. Jacobs, o Astérix, o Lucky Luke, tudo isso, que foi assim pela primeira vez divulgado em Portugal. E o Hergé continuava. O Fernando Bento acompanhou-me sempre e aquilo serviu de escola a outros mais novos, como o José Ruy ou o José Garcês, o que para mim foi muito grato.

«Eu fazia os guiões, o Bento recriava-os»

P. — As histórias não eram, então, assinadas. Como nasciam as que fazia com o Fernando Bento? De quem partia a iniciativa?

R. — Era um trabalho dos dois. Em regra, eu fazia um guião indicando as situações e os diálogos e ele recriava-os. É um grande artista, a quem nunca foi prestada a homenagem que merece.

P. — Pode considerar-se o «Cavaleiro Andante» o jornal de maior êxito de entre os que dirigiu?

R. — Sim, foi um sucesso desde que principiou. Tirávamos trinta ou quarenta mil exemplares e o número um teve de ser reimpresso. Tínhamos, também, uma série de publicações adjacentes: o «Álbum do Cavaleiro Andante», mensal, os «Números Especiais» (os do Natal eram encadernados, com um certo luxo, e custavam 10 «paus»), a «Colecção Oásis», o «João Ratão», a «Colecção Alvo», as «Obras-Primas Ilustradas»... Por fim imaginei o jornal mais giro de todos, mas esse não teve êxito... Foi o «Foguetão», de que se publicaram apenas treze números. Era um jornal grande, tipo «adulto», magnífico, com artigos, contos, histórias ilustradas, grandes diaporamas, tudo a cores e em bom papel. Sabe a que se ficou a dever o falhanço? Eu fiz uma «sondagem» (como se diria hoje) junto dos vendedores e apurei o seguinte: que não se vendia por ser grande de mais. É que os rapazes queriam jornais que pudessem, na escola, meter debaixo dos livros, enganando assim o professor... Foi uma pena. Olhe, é o único jornal que dirigi de que possuo a colecção completa: são apenas treze números.

P. — Como eram feitos os contactos com os fornecedores de material estrangeiro e como chegava este às suas mãos?

R. — Havia agências distribuidoras, mas eu preferia o contacto directo com editoras ou publicações europeias, como a Casterman, as Éditions du Lombard, o jornal «Tintin», a Dupuis, o semanário italiano «Il Vittorioso»...

«Não violentar os jovens»

P. — Nunca lhe «disseram» muito as produções americanas, não é verdade?

R. — Há grandes desenhadores americanos, grandes artistas mas aquilo, realmente, nunca me pareceu muito adaptável à nossa maneira de ser nem muito adequado a ser lido por jovens.

P. — No entanto, o «Mundo de Aventuras» e as restantes publicações da Agência Portuguesa de Revistas abasteciam-se quase exclusivamente nesse mercado...

R. — Pois era, mas que quer? Eu era «estúpido» e não gostava daquilo...

P. — É verdade que os quadradinhos americanos não são dirigidos a jovens, mas a adultos. Em contrapartida, a própria designação «banda desenhada para adultos», que apareceu há uns vinte anos na Europa, indicia claramente que a que por cá se fazia antes era infantil. Mas o que pensa da actual produção para jovens?

R. — Hoje é tudo muito diferente, há uma grande carga de violência, os valores são outros. Eu preocupava-me em não violentar os jovens, em não os chocar, em não os excitar. E fui criticado por isso.

P. — Como?

R. — Pertenci a uma comissão de leitura, que não era de censura e se limitava a aconselhar. Eu próprio recebi conselhos da comissão de que fazia parte. Era sobretudo o tom: para quê escrever que «Fulano foi arremessado para uma fria masmorra» em vez de que «Fulano foi encarcerado», ou assim?

P. — Relações com o poder (com os poderes). Teve?

R. — Nunca tive. Vi o Salazar uma vez, mas nunca falei com ele. O Marcelo Caetano foi o único governante que manifestou algum interesse pela minha obra: quando ocorreu o quarto centenário da publicação de «Os Lusíadas» deu instruções no sentido de uma reedição estatal do meu livro «As Aventuras do Trinca-Fortes». Pois sabe quantos exemplares se venderam? Como diria o Jô Soares: zero! (Risos). Aquilo nunca foi avante. Agora, recentemente, a dr.ª Maria Barroso esteve presente no lançamento do meu livro «A Torre de D. Ramires». E foi tudo.

P. — Porque a sua obra não cabe apenas, convém lembrar, no campo das publicações periódicas...

R. — Não. Tenho publicados cerca de quarenta livros, designadamente biografias de pessoas célebres. Era a colecção «Gente Grande para Gente Pequena». Escrevia à média de um por ano. E também trabalhava na Emissora, onde colaborei estreitamente com o Francisco Mata, que, como sabe, já morreu, está um pouco esquecido e é outro homem a quem nunca foi feita a justiça que merecia. E ainda fiz publicidade. Foi uma vida cheia, a minha.

P. — Voltando às publicações juvenis: o «Foguetão» e o «Zorro» foram as últimas que dirigiu?

R. — Depois disso ainda fiz a «Nau Catrineta», que era um suplemento do «Diário de Notícias» e, mais tarde, pediram-me para ir a «A Capital» dirigir os «Quadradinhos».

P. — Pensa que um jornalismo nesses moldes ainda teria actualmente, saída? O que há agora é diferente...

R. — Praticamente não há nada. Eu ainda pensei em fazer um jornal em moldes novos, que seria a minha despedida: um jornal juvenil para os filhos dos emigrantes, que lhes permitisse manterem-se ligados a Portugal. Mas a coisa não foi por diante. Mas agora os interesses dos jovens são outros: é a música, é a televisão, é o cinema. Quase não lêem...

Entrevista de Luís Almeida Martins / Jornal de Letras, 16/03/1987

(entrevista obtida no blog Porta da Loja onde se pode ver a digitalização da mesma)

https://portadaloja.blogspot.com/2021/10/tintin-e-as-aventuras-dos-desenhos-sem.html

https://portadaloja.blogspot.com/2020/09/mais-de-cima-da-mesa-em-setembro.html

https://portadaloja.blogspot.com/2016/11/as-tretas-das-letras-ii.html


quarta-feira, 17 de maio de 2017

Visão 2007

Na edição de 17 de Maio de 2007 da revista Visão foram publicadas várias homenagens a Tintin.

Tintim sou eu!’

No centenário do nascimento de Hergé, a VISÃO convidou cinco autores portugueses de BD a revisitarem a sua mais célebre personagem. Na VISAO.pt, pedimos ao mesmo aos leitores. Veja aqui as homenagens dos cinco desenhadores e envie-nos os seus desenhos, histórias, o seu próprio Tintim

Ana Margarida de Carvalho / VISÃO nº 741    17 Mai. 2007

ver as imagens publicadas na revista em

https://arquivo.pt/wayback/20081022124517/http://kuentro.weblog.com.pt/arquivo/2007_05.html

ou em 

https://tintinemportugal.blogspot.com/2011/07/revista-visao-741-100-anos-de-herge.html

artigo de Geraldes Lino

 JCF
 AJG
 LL
PM

cópia do desenho de Pedro Massano publicado na revista Visão de 17 de Maio de 2007 aqui na versão da folha volante de Junho de 2007 (Tertúlia BD)


https://arquivo.pt/wayback/20081022124517/http://kuentro.weblog.com.pt/arquivo/2007_06.html

Artigos publicados na edição especial da revista Visão :

Tintim e as polémicas

Hergé haveria de se arrepender das duas primeiras aventuras de Tintim. Nem todos lhe perdoaram o anticomunismo primário do País dos Sovietes e o racismo colonialista de Tintim no Congo

No início era mais narigudo. Mais baixo, gordo e usava as mesmas calças de golfe, só que axadrezadas. A poupa já estava lá, mas caída – só se erguia quando lhe dava o vento. Tinha a seu lado a eterna companhia de um fox-terrier branco, com pêlo mais hirsuto. Foi assim a primeira aparição de Tintim, a preto e branco, em 1929, nas páginas do Petit Vingtième, um suplemento juvenil semanal de um diário da direita belga chamado Le Vingtième Siècle, que se definia como «jornal nacional católico de doutrina e informação». Tintim no País dos Sovietes, uma reportagem na «Rússia soviética», foi a aventura inaugural. Um não muito convincente repórter faz a longa lista das tiranias e abusos soviéticos. E ao longo dos quadradinhos vemos os «bolcheviques» a ganhar votações por unanimidades impostas à conta da artilharia virada contra a população russa de rostos caídos e ombros vergados. Ou os fardos de palha postos na boca das chaminés fabris para simular uma intensa laboração industrial. «Eis como os sovietes enganam os infelizes que ainda acreditam no paraíso vermelho», escreve Hergé, que chama a Moscovo «pardieiro infecto». Toda a aventura se baseia numa única fonte: o faccioso livro Moscou Sans Voiles, de Joseph Douillet, um ex-cônsul da Bélgica que muito contribuiu para alimentar os preconceitos ocidentais e a obsessão anticomunista. Num dos capítulos do livro pode ler-se a descrição da «premeditação imoral dos comunistas» que reuniam alunos do sexo feminino e masculino no mesmo liceu... Foi um grande erro, admitirá Hergé mais tarde, «um pecado de juventude». Ao contrário de outras aventuras, construídas com a exactidão de investigações prévias, Hergé nunca retocou nem coloriu Tintim no País dos Sovietes. Face à proliferação de versões-pirata, publicou uma edição fac-similada do original, apenas em 1981.

Também a segunda aventura, Tintim no Congo (1930), esteve debaixo de prolongada quarentena. Depois dos medonhos comunistas, segue-se a apologia da imensa colónia belga. O álbum torna-se um repositório de clichés coloniais e de estereótipos paternalistas da superioridade europeia. Os negros têm todos a mesma feição, tratam os brancos por «sinhô» e o sensato Tintim é aí o mais cruel e ecologicamente incorrecto dos caçadores: massacra rinocerontes com dinamite, é serial killer de antílopes, mata um macaco por causa da pele... Mais tarde, Hergé haveria de se revelar arrependido de tal carnificina. Também este livro se lhe tornou incómodo – «Não conhecia esse país a não ser pelo que as pessoas contavam na época: 'Os negros são crianças grandes, felizmente para eles nós estamos lá'. Desenhei os africanos segundo estes critérios, com o mais puro espírito paternalista, que era o da altura na Bélgica.» As pranchas foram alvo, depois da descolonização, de vários revisionismos, e o livro passou a chamar-se Tintim na África.

Tintim e a tecnologia

Hergé foi ganhando uma obsessão perfeccionista com os adereços das suas aventuras. Carros, barcos, aviões, armas, máquinas e mesmo foguetões obedeciam a padrões reais ou muito verosímeis

E sobretudo a partir de O Lótus Azul (1936) que o espírito meticuloso de Hergé se acentua. Aliás, esta é unanimemente considerada a sua primeira obra-prima. Depois dos maldosos bolcheviques, dos africanos tontos, dos americanos gangsters, temia-se que os preconceitos de Hergé se estendessem ao Extremo Oriente. Nada mais errado. Tintim escapa à armadilha dos estereótipos, graças à cuidadosa documentação de Hergé, em busca da realidade. Torna-se um pesquisador compulsivo, num arquivador metódico de todo o tipo de documentos: fotos de países exóticos, postais ilustrados, recortes de imprensa, catálogos, artigos da National Geographic e do Paris-Match. É de um perfeccionismo extremo, tudo tem de ser de uma exactidão rigorosa. Detém-se na importância de um pormenor, no realismo dos detalhes. E na veracidade da tecnologia. Todos os automóveis são modelos reais, o desenho das armas e das máquinas fotográficas retirado de catálogos, os motores e lanchas de informações recolhidas em eventos náuticos... Mais tarde, quando fundou os Estúdios Hergé, tinha especialistas para cada área, inclusive um para aeronáutica que controlava todos os pormenores dos engenhos voadores. A investigação preparatória delongava-se e Hergé obrigava a vários esboços até ver o seu rigor perfeccionista satisfeito.

Às vezes, mostrava um prodigioso sentido de antecipação, tal como outrora Júlio Verne. Os primeiros passos na Lua foram dados por Tintim, 16 anos antes de Neil Armstrong. O astronauta disse: «Um pequeno passo para o Homem, um grande salto para a Humanidade.» Antes, Tintim, pisando o satélite, já tinha dito: «Sem dúvida pela primeira vez na História da Humanidade alguém caminhou na Lua!»

A semelhança, quase profética, entre ficção e realidade – as consequências da ausência de gravidade, os beliches ortopédicos do interior da nave, os sapatos de sola magnética, os fatos e os carros espaciais, o sistema de alunagem – não foi mera coincidência: Hergé chegou a mandar fabricar uma maqueta do célebre foguetão vermelho e branco para controlar melhor a reprodução dos pormenores. Foi extenuante, confirmou Hergé.

A partir daí, Tintim, partirá em aventuras mais terrestres. Pela primeira vez, em finais de 1954, Hergé parte em viagem de reconhecimento à Suíça e aos locais onde iria enviar o seu herói, munido de máquina fotográfica e bloco de desenhos. O Caso Girassol, uma aventura muito cinematográfica, é considerada umas das mais bem conseguidas. Também aqui a tecnologia está presente, num aparelho de ultra-sons parabólico verídico. Na obra-prima humorística As Jóias de Castafiore antecipam-se progressos tecnológicos: Girassol inventa uma imperfeita e encadeante televisão a cores.

Tintim e a família de papel

Entre amigos e vilões, Tintim congrega à sua volta uma peculiar galeria de personagens. Que outro herói de BD junta ao seu lado uma cantora de ópera, um cão e um irascível marinheiro alcoólico?

O álbum é o Voo 714 para Sydney. Depois do desvio do avião, e da aterragem numa pista descartável sobre uma ilha, Tintim ouve um grito. «Esta voz!?!», pergunta-se. E depois exclama: «Rastapopoulos!» A confirmação troveja como um tiro: «O próprio, meu caro.» Mais do que os desonestos antiquários irmãos Pardal, ou que o adorável e endiabrado Abdallah, que oferece cigarros explosivos, ou que Al Capone e o seu gang, ou que o doutor Krollspell, que injecta soro da verdade, ou que o milionário e batoteiro Sr. Carreidas, «o homem que nunca ri», ou que Peggy, a antipática mulher de Alcazar que a trata por «pombinha», ou que o ambivalente Wolff, traidor arrependido, ou que Boris, o coronel de monóculo... – Rastapopuolos (e seu assistente Allan) é personagem ainda mais abominável que o dito homem das neves, em Tintim no Tibete. Ele é o inimigo número um do repórter e comparece para lhe assombrar a existência em diversas aventuras, seja enquanto cineasta, traficante, negreiro, raptor, pirata do ar...

Em contrapartida Tintim tem alguns aliados.

A começar por Milu, o fox-terrier, com um apreço muito mais moderado do que o dono pela aventura, mas que o salva, às vezes com hesitações, no último instante. Tanto o cão como o capitão Haddock, ambos com uma certa indiferença em relação a valores de carácter e de justiça, desempenham a função dramática de contrapeso ao virtuosismo extremo de Tintim. O Capitão só se torna verdadeiro actor secundário em A Estrela Misteriosa. A figura cresce, a sua caracterização adensa-se, torna-se até mais complexa que Tintim. O profundo amor à bebida e os nomes inolvidáveis (já se contaram 169 diferentes, ao longo dos álbuns) com que costuma insultar bandidos, lamas, ou papagaios tornaram-no numa personagem antológica da BD mundial. O professor Girassol é o sábio distraído e surdo que nem uma porta, lunático mas inventor de ponta, secretamente sentimental, repentinamente colérico. Tchang é o amigo chinês, adorado por Tintim, que o faz partir em sua busca, para os gélidos Himalaias. Castafiore, o Rouxinol milanês, a diva adulada no mundo inteiro, por quem Haddock sente uma verdadeira alergia – partilhada, ao que parece, por Hergé, que falava do enfado dos serões de ópera a que a mulher o obrigava. Lampião é o protótipo do belga, o profundamente maçador e insistente vendedor de seguros – sempre com bonomia, ele importuna em todo o seu esplendor. Depois ainda há os sincronizados e muito redundantes detectives Dupont e Dupond, inspirados no pai e irmão gémeo de Hergé, que visitam a «família Tintim» com assiduidade. E dir-se-ia mais: com grande mais-valia humorística para as histórias. 

Tintim, o mundo e mais além

Uma boa parte do fascínio das aventuras de Tintim vem das suas grandes viagens. O planeta Terra não chegava para Hergé: inventou a Sildávia e a Bordúria, e levou o seu alter ego até à Lua...

Se Hergé era um viajante de pantufas, Tintim é um globetrotter impenitente. Da direita para a esquerda do planisfério, estes são os lugares onde famoso repórter deixou pegadas. Na Oceania – em O Voo 714 para Sydney (1968), em que Tintim e o capitão passam por Jacarta, na Indonésia, conhecem a embirrante personagem do Sr. Carreidas e até contactam com extraterrestres. Na China – onde Tintim conhece o amigo Tchang, em O Lótus Azul (1936). Nos Himalaias – onde se conta uma pura história de amizade: Tintim procura resgatar Tchang de um acidente de viação e das garras do Yeti, em Tintim
no Tibete (1960). Em Moscovo – no álbum inaugural, Tintim no País dos Sovietes (1930). Nos Países Árabes – onde Tintim intercepta o odioso tráfico humano, em Carvão no Porão (1958), ou se perde no Sara em O Caranguejo das Tenazes de Ouro (1950), ou, ainda, onde segue o rasto dos narcotraficantes nos desertos do Egipto, em Os Charutos do Faraó (1934). Na África subsariana – nos tempos algo racistas da Bélgica colonial, em Tintim no Congo (1931). Nos países de Leste – em Praga e na imaginária Sildávia e Bordúria, onde Tintim salva o reino de um golpe de estado fascista, em O Ceptro de Ottokar (1939). Também os preparativos da expedição lunar se fazem no inventado solo sildavo, em Rumo à Lua (1954), e por estes territórios da Guerra Fria se procura o distraído professor, em O Caso Girassol (1956). Bélgica – os tempos mais sedentários de Tintim são passados no palácio de Moulinsart, na não-aventura, cheia de quiproquós e mal-entendidos de As Jóias de Castafiore (1936), e também aí (e nas profundezas do oceano Atlântico) se passa O Segredo de Licorne (1943) e O Tesouro de Rackham, o Terrível (1944). Na Bretanha – onde Tintim enfrenta um bando de falsários e um monstro, afinal, mais dócil do que os donos, em A Ilha Negra (1938). Em França – em As Sete Bolas de Cristal (1948), novamente em busca de Girassol. No oceano Árctico – Tintim integra uma expedição em busca de um aerólito, em A Estrela Misteriosa (1942). Nos Estados Unidos – onde Tintim conhece um vilão de carne e osso, Al Capone, e os índios nas reservas, em Tintim na América (1932). Na América Latina – no Peru, onde, de facto, Tintim, Haddock e Milu reencontram o professor, prisioneiro de uns sobreviventes dos Incas, só salvos da fogueira graças a um eclipse do Sol, em O Templo do Sol (1949); algures na selva, entre a Bolívia e o Paraguai, atrás de uma estatueta quebrada, por entre o tiroteio das convulsões revolucionárias, em A Orelha Quebrada (1937). Na sua última aventura publicada, Tintim e os Pícaros (1976), entre os guerrilheiros barbudos, vagamente inspirados nos castristas de Cuba, mas com o inevitável Alcazar na liderança. E depois de tantos pioneses no planisfério, só faltava mesmo ir à Lua... e voltar, em Explorando a Lua (1954). 

Tintim e os portugueses

Portugal foi o primeiro país a ler Tintim em quadradinhos coloridos. Os portugueses seriam perpetuados na obra de Hergé com a personagem de Oliveira da Figueira, comerciante lisboeta

Hergé nunca esteve em Portugal, mas privilegiou o nosso país no seu imaginário. Oliveira da Figueira, comerciante lisboeta capaz de vender uma gaiola a quem não tem canário, é uma das mais importantes figuras secundárias da saga tintinesca. Pouco importa que tenha bigodaça grega, roupas levantinas e beba vinho italiano: ele é português porque Hergé o quis e porque o seu nome de cristão-novo o atesta. O próprio Tintim vestiu pele de luso no episódio do Ouro Negro, quando Figueira o fez passar pelo sobrinho Álvaro. Por outro lado, um dos cientistas da expedição que procura a Estrela Misteriosa era um professor de Coimbra (embora para isto haja uma explicação: nesses anos de ocupação alemã da Bélgica, Hergé publicava no jornal colaboracionista Le Soir, e os «bons» tinham de ser oriundos de países aliados de Hitler ou neutrais). E à partida para o Congo, Tintim é entrevistado por vários jornalistas, entre os quais um do Diário de Lisboa.

Hergé tinha razões para gostar de Portugal: o nosso foi o primeiro país não-francófono a publicar as histórias de Tintim, e o primeiro do mundo (Bélgica incluída) a fazê-lo a cores. Foi a partir de 1936, no semanário infantil O Papagaio. O nome do herói, apresentado como português, escrevia-se Tim-Tim, e o seu cão era Rom-Rom. Nesse jornalinho, dirigido por Adolfo Simões Müller (1909-1989), saíram nove histórias de Tintim, a começar por Tim-Tim na América do Norte. A aventura do Congo chamou-se, naturalmente, Tim-Tim em Angola. Conforme confidenciou ao autor destas linhas , o director do Papagaio , que conhecera o material de Tintim através do padre Abel Varzim, que estudara em Lovaina e conhecera pessoalmente Hergé, pagava as pranchas em latas de conserva, que o desenhador fazia seguir para o lag alemão onde o seu irmão se encontrava preso.

Quando O Papagaio deixou de voar, Tim-Tim transitou para o Diabrete, também dirigido por Müller. Ali saíram, de 1949 a 1951, mais três aventuras. Ao Diabrete sucedeu o Cavaleiro Andante, ainda dirigido por Müller, onde, na década 1952-1962, foram dados à estampa sete novas histórias, começando com O Templo do Sol e terminando com Tim-Tim no Tibete (iniciada no efémero Foguetão). O Zorro, sucessor do Cavaleiro, publicou em 1963-64 As Jóias da Prima-Dona.
Finalmente, em 1968 começaria a publicar-se a versão portuguesa da revista Tintin, onde, até 1982, sairia a totalidade das aventuras do herói. Tim-Tim no Tibete e O Caranguejo... saíram ainda, em 1972, em rodapés do Diário de Notícias.

Se, em Portugal, a publicação de Tintim foi precoce na imprensa periódica, em álbum não pode dizer-se o mesmo. Como os direitos para a nossa língua eram detidos por editoras brasileiras (primeiro a Flamboyant e depois a Record), só em 1988 arrancaria a publicação regular da série, a cargo da Verbo. Mas também o semanário O Independente, o Círculo de Leitores e o jornal Público lançaram, total ou parcialmente, os álbuns de Tintim. 

Por Luís Almeida Martins,Visão