domingo, 23 de outubro de 2011

As aventuras digitais de Tintin

O Diário de Notícias de hoje dedica as suas centrais ao novo filme do Tintin com uma crónica do seu enviado especial, João Lopes, a Paris, onde assistiu ao lançamento na nova obra de Spielberg. Além desta reportagem, podemos ler duas críticas, uma do próprio João Lopes, e outra de Eurico de Barros.












Tintin não rima com Indiana Jones
Eurico de Barros, DN

 Há mais coisas a separar a banda desenhada e o cinema do que a aproximá-los, estética e tecnicamente. Imaginados para o papel, é muito difícil tirar de lá para a tela heróis como Astérix, Lucky Luke, Blueberry ou Tintin, quer se recorra à animação, quer à imagem real. Os filmes ficam sempre aquém do original. Em As Aventuras de Tintin: O Mistério do Licorne, Steven Spielberg dispôs da técnica de motion capture e do 3D, o que veio situar Tintin, pela primeira vez, numa zona cinematográfica a meio caminho entre a imagem real e a animação convencional. Mas o problema do filme não é o processo de animação escolhido nem mesmo o respeito pela identidade gráfica de Hergé (o genérico é muito bem achado). É o argumento, que combina elementos de dois álbuns (O Caranguejo das Tenazes de Ouro e O Segredo do Licorne) com a acção frenética à Indiana Jones (e à Piratas das Caraíbas, no caso da disparatada sequência do combate naval) totalmente alheia ao universo da personagem - e visualmente, à elegante e legível "linha clara" de Hergé. Tintin e Indiana Jones não rimam.

Este não é o meu corpo 
João Lopes, DN

Insólita e fascinante evolução dos poderes do cinema. Classicamente, o actor é aquele que se expõe perante uma câmara, num certo sentido ambicionando uma dimensão sagrada: "Este é o meu corpo." Agora, com as novas tecnologias, o actor já não está lá... Ou melhor, está, mas recoberto pelo tratamento digital que o transforma em personagem animada. Andy Serkis, intérprete do Capitão Haddock no novo Tintin, resume muito bem a nova ambiência: "Como sempre, é uma forma de maquilhagem; só que agora é maquilhagem digital." Será que As Aventuras de Tintin vai conseguir consolidar o (inseguro) boom do cinema a três dimensões? Talvez, mas a grande questão será outra: será que estamos a assistir ao nascimento de um nova linguagem cinematográfica, algures a meio caminho entre o "filmado" e o "desenhado"? Ninguém tem respostas definitivas, mas Spielberg vem garantir que o desejo de contar histórias não desapareceu. Acima de tudo, que os heróis nascem nas aventuras que vivem, não nos efeitos especiais.