quarta-feira, 30 de setembro de 2015

Até tu, Brutus!

O Governo perdeu a voz. E precisa urgentemente de pastilhas para a garganta. Entrou, vestido de Castafiore, aquela que nos livros de Tintin, quando cantava, fazia com que os vidros se quebrassem. Algumas corporações tremeram e taparam os ouvidos, paralisadas de medo.

Poucos meses depois tudo mudou. O Governo faz soar a sua voz mas ela perde-se no meio do ruído de todas as oposições possíveis. A oposição ao Governo que menos se ouve é a do PSD.

Pode ser uma táctica. Talvez Marques Mendes acredite que lhe poderá suceder o mesmo que a Sócrates. Que o Governo caia por cansaço, como aconteceu com o equilibrista Santana Lopes. Sem mexer um dedo Sócrates tornou-se o líder maioritário do executivo.

O chefe do PSD muito provavelmente acredita na mesma coisa. Sócrates, sem ter feito qualquer tirocínio como tribuno calejado da oposição, chegou a São Bento. Foi uma viagem à velocidade do TGV. As ideias soltas que tinha para governar ficaram nos apeadeiros onde não teve tempo para ficar.

Marques Mendes ainda precisa um pouco mais da poção da oposição. Mas, com o problema de voz, de transparência e de autoridade de grande parte do Governo, um dia destes Marques Mendes chega ao poder.

Já começam a haver muitos Brutus no círculo de Sócrates.


Comentários

Nunca tinha imaginado o Sócrates vestido de Castafiore. Bela metáfora ! Já agora, o Mendes de Pintadinho de Branco (Tournesol), Soares e Alegre de Zig e Zag (Dupont e Dupond) e Sampaio de Capitão Rosa (Haddock). A "peça" podia ser levada à cena no teatro Maria Matos. Consta que o director artistico, sr Diogo Infante, é um fã da Castafiore !!! 

Se Molière fosse vivo ! - Breogan

Começo a duvidar da qualidade do articulista. Pese embora o agradável e evidente manejo da escrita. Com as suas habituais figuras de estilo. Ou as construções retóricas, incluindo uma ironia quanto baste. O que, na minha humilde perspectiva, geralmente enobrece um texto. Só que, retirado o estilo, a forma é pobre. Ficam apenas as ideias de FS. Brutus de si mesmo? Enfim, isto para refutar duas destas ideias. 1º) Vai sendo cada vez mais óbvio que Sócrates tem mais que «ideias soltas». E já conhecemos algumas. Umas mais miseráveis (nomeações de boys) que outras (plano tecno, "apuramento" do investimento público). Há também "ideias" claramente estruturantes. O exemplo maior será o da normalização de alguns sistemas sociais públicos. Hoje mesmo saiu o modelo para a reestruturação do sector energético. Para já, parece-me bom. E até, nalguns aspectos, surpreendente. Pela inovação em privilegiar o mercado. 2º) Não sei se Marques Mendes chegará, ou não, ao poder. E se o fará tão rapidamente quanto FS, pelos vistos, desejaria. Duvido é que o faça contando «com o problema de voz, de transparência e de autoridade» de Sócrates. "Problemas" que, existindo, não são mais excessivos que o costume. Já com Brutus... talvez. Até porque já não andará de punhal em riste. Consta que o terá trocado por um teclado novo...

ATÉ TU, SOBRAL? - Marx

sexta-feira, 25 de setembro de 2015

A Capital da BD

Expresso

Outras Terras

A capital da BD

TINTIM, Lucky Luke, Gaston Lagaffe, Boule e Bill, Spirou, Fantasio e Marsupilami, Blake e Mortimer, Bob e Bobette, Quick e Flupke, Nero, os Schtroumpfs e tantos outros heróis da banda desenhada são nados e criados na Bélgica, um pequeno país com apenas 170 anos de existência e um terço da dimensão de Portugal. Não admira pois que a Bélgica seja o país com mais desenhadores e argumentistas por metro quadrado e maior número de álbuns vendidos por ano: 40 milhões, dos quais 30 milhões são exportados.

Só Tintim e Bob e Bobette, por exemplo, já venderam cada um mais de 80 milhões de exemplares. Quando Daniel De Bruycker, poeta e ex-crítico do diário «Le Soir», afirma: «Somos o único país que se interroga sobre se existe realmente», apetece pedir-lhe que «não se preocupe» porque é essa aparente não-existência da Bélgica que lhe dá a criatividade, sentido de humor e irreverência que faltam a muitos países que se arrogam de instituições sólidas e velhas tradições e que vivem à sombra de troféus passados.

Quando o suíço Rodolphe Töpffer, professor num colégio interno, criou em 1827 a primeira série de histórias em imagens para distrair os seus alunos, estava longe de pensar-se que esta forma de expressão viria a ser considerada a nona arte e para muitos a mais universal de todas. Nem mesmo a Hergé passaria pela cabeça que as primeiras aventuras do repórter Tintim e do seu cão Milu, publicadas no «Petit Vingtième» em 1929, um suplemento infantil de um jornal diário de Bruxelas, dariam origem ao maior sucesso editorial de sempre de histórias aos quadradinhos, abrindo caminho a uma importante escola belga de banda desenhada. E se o facto de a Bélgica conviver com três línguas oficiais - francês, neerlandês e alemão - e um sistema político complexo, cria inegavelmente dificuldades de comunicação, tem a vantagem de estimular a imaginação e obrigar a formas de expressão alternativas. E a BD tem essa capacidade, única no mundo das artes, de saber superar, graças ao poder das imagens e à simplicidade dos textos, todas as barreiras: etárias, culturais, linguísticas ou geográficas.

O sucesso de tintim

 O êxito imediato de «Tintim no País dos Sovietes», levou Hergé a publicá-la em livro, um ano depois, nascendo assim o primeiro álbum de BD. Em 1938, Rob-Vel funda o jornal «Spirou», que começa por publicar autores americanos, mas a II Guerra Mundial interrompe a importação de histórias americanas e os criadores belgas entram em cena, dando origem à escola de Charleroi, caracterizada por um estilo mais humorístico e uma linguagem mais desbocada do que a escola de Hergé. Entre eles estão Jijé, que desenvolve a personagem Spirou e acrescenta Fantasio; André Franquin, que retoma estas personagens, acrescentando-lhes o Marsupilami, e que mais tarde cria o hilariante Gaston Lagaffe; Roba, o autor de Boule e Bill; Morris, que cria Lucky Luke, e Peyo, o pai dos Schtroumpfs. Do lado de Hergé, que em 1946 criou o Jornal «Tintim», inteiramente dedicado à divulgação de autores belgas, estão E.P. Jacobs (Blake e Mortimer), Paul Cuvelier (Corentin), Jacques Martin (Alix), Vandersteen (Bob e Bobette), Tibet (Ric Hochet), entre outros. Nos anos 70 surgiram novos movimentos, nomeadamente as bandas desenhadas para adultos - a revista «A Suivre» divulga muitos deles - mas nessa altura já os velhos heróis infantis tinham sido lidos e amados por várias gerações de crianças e estavam irremediavelmente entranhados no imaginário dos leitores.

Uma visita a Bruxelas tem muitos pontos de interesse, mas em nenhum caso e sob nenhum pretexto poderá ser esquecida a arte maior dos belgas - a BD - presente em todos os cantos da cidade: murais, livrarias, lojas de objectos BD e o Centro Belga da Banda Desenhada, ponto de partida ideal para iniciar o roteiro. Este museu abriu ao público em 1989, nos antigos armazéns Waucquez, uma casa «Arte Nova» desenhada por Victor Horta e salva «in extremis» da demolição e transformação em parque de estacionamento. O edifício foi fielmente restaurado e hoje integra a maior bedeteca do mundo, o museu do imaginário, que conta com 650 autores, o espaço Saint-Roch, onde são mostradas pranchas originais (o museu possui cerca de 1500), exposições permanentes e temporárias (está a decorrer uma retrospectiva da obra de Roba, o autor de Boule e Bill) e ainda uma videoteca, a livraria Slumberland e o restaurante Victor Horta.

Os murais foram uma ideia de um grupo de autores de BD, que no início dos anos 90 decidiram pintar uma série de empenas e fachadas de edifícios em mau estado, a fim de chamar a atenção do público para o estado de degradação do património arquitectónico da cidade. Desde então, este movimento não parou de crescer e hoje existe já um percurso oficial da banda desenhada. No centro, na zona da Grand Place, é possível observar alguns destes murais, que reproduzem cenas conhecidas da BD belga: Lucky Luke, Rue de la Buanderie, Quick e Flupke, Rue Haute, Victor Sackville, Le Passage e Broussaille, Rue du Marché au Charbon, são alguns exemplos. Quanto às livrarias especializadas, o problema é escolher; há-as de todas as tendências e para todas as bolsas. Como diria o capitão Haddock, o companheiro de Tintim, «Com mil milhões de macacos!!!»

Informações:

Centro Belga da BD

Rue des Sables, 20 - Tel. 2191980

Percurso da Banda Desenhada

Mapa e informações no TIB

(Turismo de Bruxelas) - Tel. 5138940

Festival do Desenho Animado

Passage 44 - De 29/02 a 11/03 de 2000

Livrarias especializadas

La Bande des Six Nez, a maior e a mais reputada de Bruxelas.

BD's novas e em segunda mão. Chaussée de Wavre, 179 http://www.labandedessixnez.com

Brüsel, bd. Anspach, 100

Sans Titre, Av. de Stalingrad, 8

Ziggourat, Rue Dejoncker, 34

The Skull, Chaussée Waterloo, 336

ISABEL MARGARIDA DE SOUSA, Expresso, 11/12/1999


quarta-feira, 16 de setembro de 2015

Quim e Filipe - Quick & Flupke

As travessuras de Quick et Flupke  iniciaram-se no «Le Petit Vingtième» em 23 de Janeiro de 1930.

Os protagonistas são dois garotos das ruas de Bruxelas, que adoram inventar toda a espécie de engenhocas.

Contudo, as suas travessuras só lhes criam problemas, metendo-se em grandes sarilhos com os seus pais e com as autoridades, particularmente com o agente nº 15.

As histórias são apresentadas numa prancha, inicialmente a preto e branco, mas após a Segunda Guerra Mundial foram coloridas e compiladas em álbuns. Os dois primeiros foram editados em Janeiro de 1949 e o 11º em Janeiro de 1969. 

Mais tarde, entre 1975 e 1982, foi feita uma nova edição das mesmas histórias, «Les exploits de Quick et Flupke», agora em seis volumes. 

Em 1984, a série foi adaptada ao cinema de animação, com 260 filmes de um minuto cada. 

Paralelamente, os álbuns foram retocados por Johan de Moor. A colecção foi publicada pela Casterman, em 12 volumes, entre 1985 e 1991.

A Difusão Verbo editou, entre 1982 e 1987, uma colecção de 12 álbuns com as aventuras já retocadas por Johan de Moor, baptizando-os de Quim e Filipe. As Aventuras de Quim e Filipe foram reeditadas no ano 2000.

Também o boletim «Correio Juvenil» da Verbo publicou nos anos 80 e 90 as histórias dos heróis, tendo o calendário de 1986 lhes sido dedicado.

(https://tintinofilo.weebly.com/as-revistas1.html)

Tropelias de Trovão e do Relâmpago - Diabrete (1941/1942)

Aventuras e desventuras de Quim e Filipe (1982-1987)



(duas capas onde nas paredes estão imagens de Tintim e Milou)

https://arquivo.pt/wayback/20090427133802/http://br.geocities.com/bdnostagia/Quick_Flupke.htm

ROL DE LIVROS: detalhe da recensão

Aventuras e desventuras de Quim e Filipe. 11

de Hergé

recenseador: Guilherme Castilho (Gulbenkian)


Rol de Livros é o nome pelo qual se designa o vasto conjunto de recensões críticas sobre o que de mais relevante entre nós se edita desde os anos 60 do passado século, quer se trate de originais portugueses, quer de traduções. Actualizada mensalmente, esta rubrica inclui apreciações feitas por quarenta e seis personalidades, cujos nomes poderá encontrar no campo Autor Recenseador, na pesquisa.

Ao efectuar a sua pesquisa, encontrará duas espécies de fichas na base de dados: no formato original; ou em texto digitalizado. Este procedimento resulta da preocupação sentida pela Fundação Calouste Gulbenkian em preservar a autenticidade de cada conteúdo, tendo sido digitalizadas somente as fichas susceptíveis de serem revistas pelos respectivos autores.

https://arquivo.pt/wayback/20070612133123/http://www.leitura.gulbenkian.pt/index.php?area=rol

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

Quem é quem. As personagens de Tintim da política portuguesa


Do extrovertido Serafim Lampião/Marcelo ao mordomo Nestor/Durão.

Portas diz-se Oliveira da Figueira. Mas a vida pública portuguesa tem outras pesonagens do Tintim.

Marinho e Pinto / Capitão Haddock

É o mais bruto dos políticos no activo, à imagem do capitão Haddock. Embora ninguém o tenha ouvido dizer “com mil milhões de mil macacos” nem chamar a nenhum adversário “ectoplasma”, andou lá perto. Haddock é corajoso (Marinho e Pinto também), mas contraditório (idem). Não vive no castelo de Moulinsart, mas não larga o conforto de Bruxelas. 

Passos Coelho e Paulo Portas / Dupont e Dupond 

Passos Coelho é primeiro-ministro e é o gémeo liderante da coligação. Durante muito tempo, principalmente nos primeiros dois anos e até à crise da demissão irrevogável de Portas, PSD e CDS distiguiram-se notoriamente, com o CDS a pedir crescimento e Vítor Gaspar a enfurecer os centristas. Mas as coisas mudaram: hoje Passos Coelho e Paulo Portas actuam como Dupont e Dupond. E assim será até 4 de Outubro. 

Paulo Portas / Dupond

Quem conhece Paulo Portas sabe que ele não gostaria de estar no papel em que está: no Dupond, que praticamente se limita a repetir as frases já utilizadas previamente pelo gémeo Dupont. Mas foi o que se passou nos últimos dois anos e agravou-se ainda mais nos últimos tempos, desde que PSD e CDS decidiram concorrer em coligação. Se houver derrota, Portas pode deixar a posição de Dupond – até pode ser libertador... 

Cavaco Silva / Professor Tornesol

O professor Tournesol é desastrado – como Cavaco Silva sempre foi – e muitas vezes diz coisas incompreensíveis. Mas, por muitas trapalhadas em que se tenha metido ao longo de todas as aventuras de Tintim (como Cavaco durante toda a sua vida política), todos lhe reconhecem sabedoria. Na realidade, não reconhecer sabedoria a Cavaco, que está no poder há mais de 30 anos, seria um erro de análise. Mas Tournesol poderia falar do sorriso das vacas nos Açores...

Ana Gomes / Bianca Castafiore

Bianca Castafiore, “o rouxinol milanês”, tem uma legião de admiradores em todo o lado por onde passa, mas aparece muitas vezes na hora errada e diz as coisas mais inconvenientes para o establishment do momento. Ana Gomes não é uma cantora lírica, mas muitos no PS olham-na como uma mulher excessivamente interventiva, que vem estragar os momentos consensuais.

Marcelo Rebelo de Sousa / Serafim Lampião 

Serafim Lampião é o mais extrovertido das personagens das aventuras de Tintim. Está sempre em casa, em qualquer lado onde esteja, exactamente como o professor e futuro candidato a Presidente da República. Serafim Lampião não é institucional: entra no Castelo de Moulinsart como se fosse a sua casa. É vendedor de seguros e vende-os em qualquer lado. Marcelo vende outras coisas com facilidade. 

Durão Barroso / Nestor

Quem pode ser o mordomo do Castelo de Moulinsart, residência do capitão Haddock nas aventuras de Tintim? Afinal foi Durão Barroso que teve o papel de receber os grandes líderes nos Açores antes de partirem no dia seguinte para a invasão do Iraque. Foi aí que ficou conhecido como o “mordomo” das Lajes, o que lhe permitiu o salto para Bruxelas, onde na realidade quem manda é a Alemanha e Angela Merkel. 

Ricardo Salgado / Rastapopoulos

É um dos vilões das aventuras de Tintim. Rastapopulos é um milionário que se envolve em negócios pouco claros. No momento em que se prepara a venda do Novo Banco – que ainda pode vir a custar muito dinheiro aos contribuintes –, é claro que a figura da vida pública portuguesa só pode ser Ricardo Salgado, o outrora dono disto tudo, que neste momento está preso em casa vigiado pela polícia. 

Ana Sá Lopes, Jornal I, 02/09/2015

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

A propósito de Oliveira da Figueira


O vice-primeiro-ministro Paulo Portas comparou-se recentemente ao personagem das aventuras de Tintin, Oliveira da Figueira, como aquele homem, simpático, capaz de vender seja o que for, mesmo as maiores inutilidades. Portas achou piada à imagem e não hesitou em apresentar-se publicamente como um exemplo do moderno Oliveira da Figueira. Acontece que o líder do CDS fez uma leitura redutora da importância da personagem portuguesa inventada por Hergé.
O vice-primeiro-ministro não pode “vender” Portugal de uma forma básica. Falta-lhe cultura para perceber o que realmente representou Oliveira da Figueira nas aventuras de Tintin e, em última análise, na vida pessoal do próprio Hergé. Se soubesse, Portas poderia ir muito mais longe. Portugal poderia ir muito mais longe.
É essa pequenez de espírito que nos reduz e faz ser cada vez mais pobres. Vamos então tentar educar os nossos atuais governantes. É que a frase é mesmo esta: educar. E a melhor forma de o fazer é mostrar factos que eles parecem ignorar, mas estão lá para quem os quiser e souber ler.
Oliveira da Figueira surgiu pela primeira vez nas aventuras de TintinOs Cigarros do Faraó”. É uma obra editada originalmente entre 8 de Dezembro de 1932 e 8 de Fevereiro de 1934. Se formos a ver, o português mais famoso nessa altura era o ditador que, em 1933, criou o Estado Novo: António de Oliveira Salazar. Chamar a um português “Oliveira da Figueira” era então um jogo de palavras com o nome de duas árvores – uma indicação também de um judeu convertido a novo-cristão – e o nome do ditador.
Aliás, anos mais tarde, quando Hergé cria a figura do ditador sul-americano Alcazar, tal soa também ao nome do ditador Salazar. Não sei ainda se Paulo Portas sabe que Portugal foi o primeiro país do mundo a traduzir para outra língua as aventuras de Tintin. Adolfo Simões Muller, que tem um busto no Jardim das Amoreiras, foi o responsável pela introdução das aventuras de Tintin em Portugal. Durante a Segunda Guerra Mundial, quando o irmão de Hergé esteve preso num campo de prisioneiros, o autor de Tintin foi pago por Simões Muller com o envio de latas de sardinha para o irmão. Um segundo detalhe sobre a importância de Oliveira da Figueira e que Paulo Portas, caso tenha a coleção completa de Tintin lá em casa, pode confirmar. Na aventura “Tintin no País do Ouro Negro”, obra publicada originalmente entre 1939 e 1940, o personagem Oliveira da Figueira volta a surgir. Só que, desta vez, tem um protagonismo que vai muito mais além do simples vendedor de banha da cobra, com o qual Portas se quer hoje comparar. Nessa aventura, Tintin tem de se infiltrar na casa do Dr. Muller – mais um nome com ligação a Portugal, pois era o do editor português. Então, o repórter assume uma falsa identidade e muda o seu nome. Passa a ser um sobrinho órfão de Oliveira da Figueira, que chegou de Lisboa. E Tintin chama-se Álvaro, um nome português – será que Hergé já tinha ouvido falar de Álvaro Cunhal? Pois bem, graças à cumplicidade do comerciante português, o belga consegue resgatar o pequeno Abdallah, o filho traquina do Emir Kalish Ezab. Oliveira da Figueira desempenha assim, na aventura “No País do Ouro Negro” uma importância que supera o simples vendedor. E revela-se essencial para o triunfo do herói.
Ora, enquanto tivermos políticos que não conseguem revelar-se essenciais para o triunfo das ideias e dos valores que defendemos, ficamos reduzidos à imagem de um estereótipo. É isso que Paulo Portas quer? Eu acho que ele quer o mesmo que eu, mas a diferença é que eu conheço melhor as aventuras de Tintin do que ele.

Frederico Duarte Carvalho

Jornalista e escritor

In Oje

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Quem é quem? As personagens de Tintim da política portuguesa!

Marinho e Pinto
Capitão Haddock

É o mais bruto dos políticos no activo, à imagem do capitão Haddock. Embora ninguém o tenha ouvido dizer “com mil milhões de mil macacos” nem chamar a nenhum adversário “ectoplasma”, andou lá perto. Haddock é corajoso (Marinho e Pinto também), mas contraditório (idem). Não vive no castelo de Moulinsart, mas não larga o conforto de Bruxelas.

Cavaco Silva
Professor Tornesol 
O professor Tournesol é desastrado – como Cavaco Silva sempre foi – e muitas vezes diz coisas incompreensíveis. Mas, por muitas trapalhadas em que se tenha metido ao longo de todas as aventuras de Tintim (como Cavaco durante toda a sua vida política), todos lhe reconhecem sabedoria. Na realidade, não reconhecer sabedoria a Cavaco, que está no poder há mais de 30 anos, seria um erro de análise. Mas Tournesol poderia falar do sorriso das vacas nos Açores...

Passos Coelho/Paulo Portas
Dupont/Dupond 
Passos Coelho é primeiro-ministro e é o gémeo liderante da coligação. Durante muito tempo, principalmente nos primeiros dois anos e até à crise da demissão irrevogável de Portas, PSD e CDS distiguiram-se notoriamente, com o CDS a pedir crescimento e Vítor Gaspar a enfurecer os centristas. Mas as coisas mudaram: hoje Passos Coelho e Paulo Portas actuam como Dupont e Dupond. E assim será até 4 de Outubro. 

Paulo Portas
Dupond 
Quem conhece Paulo Portas sabe que ele não gostaria de estar no papel em que está: no Dupond, que praticamente se limita a repetir as frases já utilizadas previamente pelo gémeo Dupont. Mas foi o que se passou nos últimos dois anos e agravou-se ainda mais nos últimos tempos, desde que PSD e CDS decidiram concorrer em coligação. Se houver derrota, Portas pode deixar a posição de Dupond – até pode ser libertador... 

Durão Barroso
Nestor 
Quem pode ser o mordomo do Castelo de Moulinsart, residência do capitão Haddock nas aventuras de Tintim? Afinal foi Durão Barroso que teve o papel de receber os grandes líderes nos Açores antes de partirem no dia seguinte para a invasão do Iraque. Foi aí que ficou conhecido como o “mordomo” das Lajes, o que lhe permitiu o salto para Bruxelas, onde na realidade quem manda é a Alemanha e Angela Merkel

Ricardo Salgado
Rastapopoulos 
É um dos vilões das aventuras de Tintim. Rastapopulos é um milionário que se envolve em negócios pouco claros. No momento em que se prepara a venda do Novo Banco – que ainda pode vir a custar muito dinheiro aos contribuintes –, é claro que a figura da vida pública portuguesa só pode ser Ricardo Salgado, o outrora dono disto tudo, que neste momento está preso em casa vigiado pela polícia. 

Ana Gomes
Bianca Castafiore 
Bianca Castafiore, “o rouxinol milanês”, tem uma legião de admiradores em todo o lado por onde passa, mas aparece muitas vezes na hora errada e diz as coisas mais inconvenientes para o establishment do momento. Ana Gomes não é uma cantora lírica, mas muitos no PS olham-na como uma mulher excessivamente interventiva, que vem estragar os momentos consensuais.

segunda-feira, 31 de agosto de 2015

Paulo Portas compara-se a personagem portuguesa de Tintim que vendia tudo

O vice-primeiro-ministro, Paulo Portas, comparou-se a Oliveira da Figueira, o personagem português criado por Hergé na série Tintim, que se tornou célebre por vender qualquer coisa em pleno deserto através da persuasão.


"Senti-me uma espécie de Oliveira da Figueira. Lembram-se de uma personagem do Tintim que vendia tudo nos mercados externos, tinha uma pasta e vendia uma série de produtos? Eu lembro-me do azeite português", afirmou Portas esta segunda-feira, durante a inauguração da Feira Internacional de Maputo (Facim), quando se referia, em declarações aos jornalistas, à sua assiduidade em eventos deste género.

quarta-feira, 19 de agosto de 2015

Spirou & Tintin

Referências: Excelentes Spirou sob o fantasma de Tintin

Blake & Mortimer vive ainda, enquanto uma espécie de criatura de Frankenstein em BD, suspensa no tempo. Porque é que o mesmo não se pode dizer de Spirou & Fantasio? Porque Spirou nunca foi de ninguém. Quer dizer, o melhor Spirou é o de André Franquin, ponto. Mas a personagem sempre teve vários autores que, ao contrário daquilo que sucede no actual exercício necrófilo em torno das personagens de Jacobs, tentaram trazer coisas novas ao universo, não repetir acordes. Parece incrível, mas (alguma) liberdade criativa acaba por dar bons resultados... Não é estranho?

Os dois mais interessantes álbuns deste género que li são Le Groom vert-de-gris de Olivier Schwartz (desenho) e Yann (argumento) e sobretudo Le Journal d'un ingénu de Émile Bravo. Porquê? Porque são excelentes livros, que calharam ser em banda desenhada e protagonizados por Spirou e Fantasio. Claro que esse último facto lhes dá outro poder evocativo, o que não sucederia não fossem os heróis versões de conhecidas personagens da BD infanto-juvenil. E em ambos os casos a presença do humor físico (o bom velho "slapstick" dos filmes mudos) e a essência das personagens para além da caracterização gráfica (o sério Spirou, o trapalhão Fantasio) asseguram que o leitor não se esquece disso. Mas ambos os livros podem ser lidos por quem não conhece muito de Spirou, ou aprecia o género de BD que tende a simbolizar.

O interesse passa pelos Grandes Temas que servem aqui de mote, e pelo modo inteligente como os autores os referem de um modo realista sem perder de vista a essência da BD de aventuras juvenil que Spirou & Fantasio representa. Sem perder de vista, mas não se coibindo de a desafiar. Em Le Groom vert-de-gris o fulcro é a obscura relação entre o Colaboracionismo e a Resistência na Bélgica ocupada da Segunda Grande Guerra. Melhor: entres os vários tipos de Colaboracionismo (genuíno, interesseiro, politicamente motivado ou como arma de espionagem), e os vários tipos de Resistência, por vezes antagónicos (comunista, anti-comunista). Um tema que, após décadas de ausência, se vai tornando um pouco menos sensível na Europa, abordado criticamente na sua complexidade, e já não com o maniqueísmo que apenas reconhece heróis e traidores. Em BD podem citar-se as interessantes obras do argumentista francês Philippe Richelle (Amours Fragiles ou Opération Vent Printanier). Já no cinema há outros excelentes exemplos, como o holandês Zwartboek/O Caderno Negro (2006, o filme que "resgatou" Paul Verhoeven), o francês Un Secret (2007, de Claude Miller), ou o dinamarquês Flammen & Citronen (2008, de Ole Christian Madsen).

Em Le Journal d'un ingénu, temporalmente anterior, discutem-se as tensões pré-Guerra que levariam ao estado de coisas retratado em Le Groom vert-de-gris. Mas a obra de Émile Bravo é um livro superior na sua complexidade e subtileza, misturando a geopolítica global, política nacional, e a oposição entre o jornalismo político e o jornalismo cor-de-rosa, sem nunca perder o humor característico da série "normal". Le Journal d'un ingénu usa ainda o esquilo Spip (uma espécie de consciência-Grilo Falante da série) de um maneira muito inteligente, e com um toque de sarcasmo negro notável. Tudo surge no fluir da história, nada é forçado, e variam-se os mecanismo narrativos. As movimentações de políticos Nazis e Polacos na véspera da ocupação da Polónia e início "oficial" do conflito, ou a discussão em torno dos comunistas internacionalistas "ingénuos" e dos estalinistas "duros" são explícitas. Já a questão judaica surge indirectamente através das acções de duas personagens secundárias. E a oposição entre o partido proto-fascista Rexista  e os comunistas na Bélgica, ou a importância da Guerra Civil Espanhola, aparecem em diálogos de miúdos que jogam à bola num descampado, profeticamente arbitrados por Spirou.

Por outro lado, o que falta ainda como Grande Tema em ambas as histórias é também claro: para além do colonialismo ausente está a identidade esquizofrénica da Bélgica Multicefálica Flamengo-Valonico-Bruxelense. Pelos vistos este é uma tema ainda mais difícil de abordar....

Há também nestes livros a homenagem à influência maior que é claramente Tintin, até talvez com um rumor de orfandade. Blake & Mortimer continua, Spirou & Fantasio também, constrangimentos legais limitam até as representações-homenagens à personagem de Hergé. O que não impede que em Le Groom vert-de-gris haja inúmeras citações a livros de Tintin ou que nele surjam sorrateiramente Hergé, Tintin, Milou ou Quick & Flupke, outras personagens do autor. Ou Edgar Pierre Jacobs e a sua personagem Francis Blake. Ou inúmeras outras pessoas, personagens e referências (mal) escondidas nos cenários. Só por isso este livro é uma delícia para os aficionados da BD franco-belga, quer para os fãs da mais realista linha-clara de Hergé e Jacobs, quer para os da mais caricatural Escola de Marcinelle, que têm Spirou como referência. Este manancial de "fan-geek" só não se torna limitativo porque a história não cede no realismo que se atribuiu, embora mesmo nas cenas mais violentas, como o ataque falhado da Resistência na estação de comboios, os autores usem vários "gags" visuais, condicionando um pouco o alcance da narrativa. Por entre os Grandes Temas Schwartz e Yann nunca resistem à tentação de acrescentar mais um toque humorístico mesmo que despropositado, parecem uns miúdos.

Mais uma vez em Le Journal d'un ingénu Émile Bravo tinha trunfado o tema da homenagem com a sua subtil "transformação" de Spirou em "Tintin". Uma transformação momentânea, como que a respeitar os limites das personagens e o fulcro da história. Porque há de facto limites que Le Groom vert-de-gris de certo modo transgride ao representar Spirou e Fantasio como claros intervenientes directos que escolheram um lado até às últimas consequências. E, numa boa solução do argumento, cada um ignora as convicções do outro. No anterior Le Journal d'un ingénu os protagonistas ainda não perceberam que há lados e que é crucial escolher um, sabe-lo-ão no final. Até lá mantêm a ingenuidade, a vida dentro de uma redoma que seria a da maioria dos seus concidadãos da época, preocupados com o pessoal, alheados do mundo. Esta é de resto a atitude mais comum na BD/literatura/cinema infanto-juvenil (e não só) de aventuras (e não só), que tende a isolar uma crise/variável, mantendo o resto constante e inquestionado. Usando referências de um género de banda desenhada (sem violência explícita, ou psicologias baratas) Bravo usa-as para contar uma excelente história que o transcende, mas não se coíbe de discorrer sobre as suas limitações. A par das séries de arqueologia mitológica anglo-saxónica como League of Extraordinary Gentlemen de Alan Moore e Kevin O'Neil e sobretudo Planetary de Warren Ellis e John Cassaday esta é uma das mais impressionantes Meta-BDs que tive oportunidade de ler, precisamente porque, ao contrário de outras tentativas (as de Trondheim, por exemplo) não tenta constantemente provar o quão arguto é o autor.

Na aparência Le Groom vert-de-gris parece mais revolucionário, precisamente porque desafia as espectativas do género; apesar do humor inusitado e das citações constantes define-se como um livro "adulto". Ao manter-se dentro das fronteiras Le Journal d'un ingénu encontrou o melhor modo de as tornar irrelevantes.

Spirou et Fantasio: Le Journal d'un ingénu por Émile Bravo. Dupuis, 2008 (19/20).


Spirou et Fantasio: Le Groom vert-de-gris por Olivier Schwartz (desenho) e Yann (argumento). Dupuis, 2010 (17/20).

João Ramalho-Santos, Jornal de Letras, 06/07/2011

Ler mais: http://aeiou.visao.pt/referencias-excelentes-spirou-sob-o-fantasma-de-tintin=f611336#ixzz1X7ThGoge

LE GROOM...

Spirou é um dos heróis mais famosos da banda desenhada belga. Apesar de ter sido criado por Rob-Vel, o seu grande desenhador foi, sem dúvida, Franquin, que lhe deu consistência e uma dimensão acima da média. Depois de muitos outros autores, os quais foram conduzindo Spirou a patamares inferiores, surgiu agora uma nova aventura, Le Groom Vert-de-Gris da autoria de Schwartz (desenhos) e Yann (argumento). Uma nova e imensa lufada de ar fesco surge neste livro, passado em Bruxelas no tempo da ocupação nazi.

Para além da trama e dos excelentes desenhos, esta dupla de autores resolveu prestar homenagem a alguns monstros sagrados da BD belga.

De entres os vários homenageados destaco o incontornável Hergé, o mestre.

Vejamos alguns exemplos:

Quick e Flupke, les gamins de Bruxelles


Le Jeu de Balle, le marché aux puces, a feira da ladra bruxelense, onde podemos ver Hergé tomando notas e, logo atrás, Aristides Filoselle tentando dar uso à sua arte.

Finalmente podemos ver Raymond Leblanc, grande responsável pela criação do Journal Tintin, quando estava preso pelos nazis e demonstrava, já, a sua paixão pelas Aventuras de Tintin!

Uma excelente história, um bom exercício de memórias, uma homenagem merecida a todos aqueles para quem um álbum de banda desenhada, é muito mais que apenas um livro!

Publicada por Pan, 03/07/2009


sexta-feira, 3 de julho de 2015