O acontecimento mediático da semana, o eclipse do sol, foi o pretexto - desnecessário - para regressar a uma das mais emblemáticas aventuras de Tintin, o díptico "As 7 bolas de cristal"/"O templo do sol", disponível em edição da ASA.
Sendo o realismo uma das notas distintivas da obra-prima de Hergé, aqui o ponto de partida é fantástico: regressados do Peru, onde descobriram o túmulo do soberano inca Rascar Capac, sete exploradores mergulham numa profunda letargia, de que só saem durante espantosas convulsões que os afeta todos os dias à mesma hora. Depois, entra em cena a aterradora múmia do inca, que tantos pesadelos causou a jovens leitores de Tintin.
Preparado o enredo, começa a aventura em estado puro: o rapto do professor Girassol por índios irá levar Tintin e Haddock num longo périplo até ao Peru, numa viagem recheada de peripécias e de perigos que ficaram na memória de muitos: o atentado no comboio que descarrila para um precipício, Milu levado por um condor, a avalanche de neve, a condenação à morte em sacrifício ao deus Sol dos incas... E sempre com o contraponto do humor para equilibrar as tensões, numa história construída com enorme mestria.
Veja-se logo na segunda prancha de "As 7 bolas de cristal", como o sentido de leitura acompanha o movimento do passeio de Tintin, ou como, no final de cada página ímpar há sempre uma cena de suspense, que impele o leitor a virar de imediato a página.
Numa série que é também profundamente humanista, distingue-se o elemento narrativo que Hergé introduziu para que a vida de Zorrino seja salva ou, acima de tudo, o que move Tintin e o capitão na sua busca: a amizade pelo distraído Girassol, que os leva a atravessar meio mundo e a enfrentar todos os perigos e adversidades.
E, numa narrativa em que coabitam o mistério, o suspense, o exótico e até o fantástico, veja-se como ao longo de mais de 30 páginas, Hergé prepara o desfecho, contrastando a aparente calma de Tintin face à morte que se aproxima, com o desespero crescente de Haddock, até à radiosa entrada em cena do astro-rei, rapidamente ofuscada pelo eclipse, que é o momento alto desta aventura e que vai culminar, de forma inesperada, superior e magnífica uma das mais brilhantes aventuras do repórter.
in Jornal de Notícias, 14.08.2026

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