quinta-feira, 6 de agosto de 2026

Entrevista no Jornal de Letras (1987)


Entrevista a Adolfo Simões Müller. No JL de 16.3.1987

Adolfo Simões Müller: "Paguei a Hergé em latas de sardinhas"

Raul Correia, Cardoso Lopes, José de Oliveira Cosme, Baptista Rosa, Roussado Pinto... Homens, todos eles já desaparecidos, que devotaram, integralmente ou em grande parte, a sua actividade pública à divulgação editorial da banda desenhada. Adolfo Simões Müller, cujas declarações aqui registamos, é a voz de uma geração entusiasticamente empenhada na divulgação dessa forma de arte. Aos 76 anos, aquele que foi sucessivamente director de «O Papagaio», «Diabrete», «Cavaleiro Andante», «Foguetão» e «Zorro» defende com calor as histórias ilustradas dos ataques dos seus detractores.

Jornal de Letras — Como principiou o seu interesse pelos «quadradinhos»?

Adolfo Simões Müller — Claro, principiei por ser apenas um leitor do que, na matéria, então se fazia por cá: havia os suplementos do «Diário de Notícias» e de «O Século», um deles creio que dirigido pelo Cottinelli Telmo...

P. — E o passo seguinte, a entrada activa na sua produção e divulgação?

R. — Vamos por partes. Por altura dos meus 18 anos, estava eu a estudar Medicina, vi-me forçado a começar a trabalhar, dando aulas, porque as posses da minha família não eram grandes. Tornei-me professor nas Oficinas de S. José, onde me lembrei de inventar processos de entreter os alunos. Um deles consistiu em dividir a turma em dois grupos de futebol, com onze de cada lado, perfeitamente definidos como avançados, halves, backs, keeper e tal. A bola ia progredindo até ao golo, através de perguntas que se iam formulando sobre a matéria (neste caso, Ciências Naturais). Quando era golo havia uma algazarra! Este processo era óptimo porque os rapazes tinham sempre a matéria na ponta da língua, para tramarem o parceiro. Um dia, quando uma das equipas marcou golo, foi tal a barulheira que apareceu o director acompanhado de umas senhoras muito bem vestidas. Fiquei atrapalhado, mas lá expliquei em que consistia o jogo. Pois a verdade é que o «público» ficou para assistir e, no final, aplaudiu... Também ensinava a História de Portugal recorrendo à narração de episódios como se fossem histórias maravilhosas e os alunos aderiam entusiasmados. Assim começou, digamos, a exprimir-se a minha vocação para o contacto com a gente nova...

«Uma técnica própria de leitura»

P. — E daí aos jornais de histórias aos quadradinhos?

R. — Bom, teria eu cerca de 30 anos, «pescaram-me» para as «Novidades», onde passei a trabalhar como redactor. Por volta de 1935, o director da Renascença, Lopes da Cruz, lembrando-se da minha vocação para lidar com jovens (e eu, entretanto, tinha já publicado um livro infantil) convidou-me para fazer um jornal — e assim nasceu «O Papagaio». Escolhi alguns colaboradores já meus conhecidos — o Tom, o José de Lemos, etc. — e, além de textos, decidi incluir também banda desenhada. As pessoas diziam muito mal, que afastava os jovens da leitura, e por aí adiante, mas eu acho que não: o que tem é uma técnica própria de leitura. Aliás, quando se tratava de adaptações de obras literárias eu tinha sempre o cuidado de chamar a atenção para esse facto e de convidar à leitura do original, sublinhando que a adaptação não era mais do que um aperitivo para ela.

P. — Havia fortes concorrentes na altura...

R. — Sim. Os mais importantes eram o «Tic-Tac», «O Mosquito» e «O Senhor Doutor». Todos tinham histórias em banda desenhada.

P. — «O Mosquito» e «O Senhor Doutor», nos primeiros tempos, poucas ou nenhumas histórias ilustradas de origem portuguesa publicavam. N'«O Papagaio», creio, não se passavam assim as coisas...

R. — As histórias eram então quase todas de importação inglesa ou americana. Ora, independentemente dos méritos dos seus autores, não me agradava aquilo, pois não se adaptavam bem à nossa sensibilidade. Antes de passar a incluir n'«O Papagaio» produção portuguesa tive, porém, a sorte de poder contar com a inserção de histórias de Hergé. Foi o padre Abel Varzim, que estudara em Lovaina e que lá na Bélgica tivera a oportunidade de conhecer pessoalmente [ nb: apenas conheceu a Obra e não ao autor ] o então ainda jovem e não muito famoso autor de Tintin, quem me falou dele. A coisa interessou-me, ele próprio se encarregou dos contactos e assim passámos a publicar em Portugal, pela primeira vez, o Tintin, o «Tim-Tim no Congo»... O Hergé, para mim, é a maior figura da banda desenhada. E fiquei sempre, n'«O Papagaio» e nos jornais que se lhe seguiram, com o exclusivo do Tintin. E sempre com o maior êxito!

P. — Os direitos de publicação de histórias do Hergé eram dispendiosos?

R. — Nem por isso... E vou contar-lhe um episódio curioso. Nós pagávamos em dólares, ou francos, ou lá o que era (já não me lembro) mas veio a guerra e aquilo para nós era uma ninharia. Eles lá é que estavam pobres... Ora, um belo dia, o Hergé escreveu-me a pedir-me, se possível, o pagamento dos direitos, não em dinheiro, mas em latas de sardinhas, que se destinariam a um irmão dele que estava prisioneiro dos alemães, num campo de concentração... Assim fiz: lá ia a minha mulher comprar as conservas, enviávamos-lhas e elas em seguida iam para o campo, via Cruz Vermelha... Posteriormente visitei o Hergé, encetámos uma relação pessoal e eu sempre fiquei «cliente» das produções franco-belgas, de grande qualidade.

P. — As traduções eram mesmo da sua responsabilidade?

R. — Sim, e no caso do Tintin até adaptei os nomes das personagens. Como se sabe, o Capitão Haddock tornou-se Capitão Rosa, o Professor Tournesol ficou Professor Pintadinho, e por aí adiante. Um caso engraçado é o do cão do Tintin, que no original, como é conhecido, se chama Milou; ora, acontece que na altura estava muito em voga a actriz e cançonetista Milu, a «Menina da Rádio», [ nb:«Em 1935, com nove anos de idade, Milú já cantava nos programas infantis da Rádio Graça e era conhecida como “a menina da Rádio”. Milú Almeida ou simplesmente Milú, como ficou conhecida pelas suas participações nos filmes “O Costa do Castelo”, “O Leão da Estrela” e “O Grande Elias” (mas não em “A Menina da Rádio”, que foi protagonizado por Maria Eugénia, a Geninha).» (Azevmen) ] e eu achei (achámos todos) que era aborrecido chamar Milu ao cão, parecia que era de propósito, até porque entre nós aquilo não é nome de cão. Então, por onomatopeia, ficou Rom-Rom. Tim-Tim e Rom-Rom, soava bem. Num álbum recente, dedicado à obra de Hergé, vem um quadro com as traduções dos nomes das personagens em muitas línguas — e lá vêm os nomes que eu lhes pus...

P. — Quanto às traduções propriamente ditas, as que se fazem agora são muito más, até do ponto de vista estilístico. Não é dessa opinião?

R. — Não leio, não tenho conhecimento. Mas sei que há uma grande invasão de publicações feitas no Brasil, o que é péssimo. E os miúdos consomem muito daquilo. É pena... Eu sempre me preocupei por adaptar com o maior escrúpulo os textos ao português correcto e coloquial, com os nossos provérbios, as nossas frases feitas... Ah, mas ainda a propósito da transposição dos nomes, aqui vai outra história engraçada. A páginas tantas deparei, numa história do Tintin, com um pirata qualquer chamado Müller. Como é natural (risos) eu não achei nada próprio que o vilão tivesse o mesmo nome que o director do jornal. E, assim, chamei-lhe outra coisa qualquer...

P. — Que tiragem tinha então «O Papagaio»?

R. — Não sei já bem, mas uns dez mil, para aí...

P. — Como (e porquê) acabou «O Papagaio»?

R. — Bom, a certa altura, o Lopes da Cruz (que era uma pessoa muito delicada) começou a queixar-se, a dizer que «aguentava a publicação por causa do Müller», e por aí fora. Claro, eu disse-lhe que estivesse à vontade mas ele ia mantendo o jornal, que não era rentável.

P. — E veio «O Diabrete»...

R. — Por essa altura, um dos administradores do «Diário de Notícias» perguntou-me se eu não quereria dirigir «O Diabrete», surgido uns meses antes, e que até então fora dirigido por um engenheiro agrónomo cujo nome, sem menosprezo, não recordo, mas que à data já era muito idoso [nb: A. Urbano de Castro] e se encontrava pouco capaz de ter ideias novas. Eu falei com o Lopes da Cruz, expus-lhe o caso, ele aceitou a minha posição — mas não gostou. E o que é certo é que fez sair «O Papagaio» por mais dois anos, apesar das dificuldades económicas com que se debatia. [ nb: «Como revista terminou no n.º 722, em 10 de Fevereiro de 1949, mas continuou, sendo secção da revista Flama, até 9 de Fevereiro de 1951.» (Azevmen) ]

P. — Dificuldades que não tinha «O Diabrete»?

R. — Era um jornal novo e menos dispendioso. Aí contei com a colaboração próxima do Fernando Bento, um grande desenhador, que ainda continua a trabalhar, apesar da idade (que é mais ou menos a minha).

P. — Mas já «O Papagaio» tivera grandes desenhadores...

R. — Sim. Olhe, um deles — pouca gente sabe isto — foi o grande pintor Júlio Resende, talvez hoje o maior pintor português. É verdade, o Júlio Resende, que com o irmão, fazia banda desenhada para nós. Um dia vieram do Porto de propósito para colaborarem numa festa de «O Papagaio», no Politeama. Faziam uma parelha de palhaços, o Júlio era o faz-tudo e o outro tocava harmónio.

P. — Era frequente nesse tempo a colaboração de artistas plásticos em jornais infantis...

R. — Pois era. O Stuart Carvalhaes também desenhou histórias a meu pedido. O Stuart já fizera muito antes bandas desenhadas com as personagens «Quim e Manecas», que ressuscitou já nos anos 50, quando lho solicitei. Sabe que nunca guardei os originais? Perdi tudo, nunca tive preocupações de coleccionismo. Hoje lamento-o profundamente.

P. — Não possui as colecções dos jornais infantis e juvenis que dirigiu?

R. — Não, nunca me preocupei com isso. Às vezes há coleccionadores que me procuram, que dizem que me dão não sei quantos contos por isto ou por aquilo. «Homem, venda-mos você a mim», respondo eu. (Risos).

P. — Mas voltemos a «O Diabrete»...

R. — Foi uma fase muito grata para mim os dez ou onze anos que durou. Mas comecei a imaginar uma coisa maior e melhor e assim nasceu o «Cavaleiro Andante», no princípio dos anos 50. Antes contara com trabalhos de grandes artistas portugueses e espanhóis (e entre estes últimos cabe destacar o Jesus Blasco, um grande pintor), ao passo que o «Cavaleiro» passou a estar voltado praticamente para quanto se fazia de melhor na Europa. Publicámos, além de produções de outras origens, o melhor da banda desenhada francesa e belga. O Professor Mortimer, de E. P. Jacobs, o Astérix, o Lucky Luke, tudo isso, que foi assim pela primeira vez divulgado em Portugal. E o Hergé continuava. O Fernando Bento acompanhou-me sempre e aquilo serviu de escola a outros mais novos, como o José Ruy ou o José Garcês, o que para mim foi muito grato.

«Eu fazia os guiões, o Bento recriava-os»

P. — As histórias não eram, então, assinadas. Como nasciam as que fazia com o Fernando Bento? De quem partia a iniciativa?

R. — Era um trabalho dos dois. Em regra, eu fazia um guião indicando as situações e os diálogos e ele recriava-os. É um grande artista, a quem nunca foi prestada a homenagem que merece.

P. — Pode considerar-se o «Cavaleiro Andante» o jornal de maior êxito de entre os que dirigiu?

R. — Sim, foi um sucesso desde que principiou. Tirávamos trinta ou quarenta mil exemplares e o número um teve de ser reimpresso. Tínhamos, também, uma série de publicações adjacentes: o «Álbum do Cavaleiro Andante», mensal, os «Números Especiais» (os do Natal eram encadernados, com um certo luxo, e custavam 10 «paus»), a «Colecção Oásis», o «João Ratão», a «Colecção Alvo», as «Obras-Primas Ilustradas»... Por fim imaginei o jornal mais giro de todos, mas esse não teve êxito... Foi o «Foguetão», de que se publicaram apenas treze números. Era um jornal grande, tipo «adulto», magnífico, com artigos, contos, histórias ilustradas, grandes diaporamas, tudo a cores e em bom papel. Sabe a que se ficou a dever o falhanço? Eu fiz uma «sondagem» (como se diria hoje) junto dos vendedores e apurei o seguinte: que não se vendia por ser grande de mais. É que os rapazes queriam jornais que pudessem, na escola, meter debaixo dos livros, enganando assim o professor... Foi uma pena. Olhe, é o único jornal que dirigi de que possuo a colecção completa: são apenas treze números.

P. — Como eram feitos os contactos com os fornecedores de material estrangeiro e como chegava este às suas mãos?

R. — Havia agências distribuidoras, mas eu preferia o contacto directo com editoras ou publicações europeias, como a Casterman, as Éditions du Lombard, o jornal «Tintin», a Dupuis, o semanário italiano «Il Vittorioso»...

«Não violentar os jovens»

P. — Nunca lhe «disseram» muito as produções americanas, não é verdade?

R. — Há grandes desenhadores americanos, grandes artistas mas aquilo, realmente, nunca me pareceu muito adaptável à nossa maneira de ser nem muito adequado a ser lido por jovens.

P. — No entanto, o «Mundo de Aventuras» e as restantes publicações da Agência Portuguesa de Revistas abasteciam-se quase exclusivamente nesse mercado...

R. — Pois era, mas que quer? Eu era «estúpido» e não gostava daquilo...

P. — É verdade que os quadradinhos americanos não são dirigidos a jovens, mas a adultos. Em contrapartida, a própria designação «banda desenhada para adultos», que apareceu há uns vinte anos na Europa, indicia claramente que a que por cá se fazia antes era infantil. Mas o que pensa da actual produção para jovens?

R. — Hoje é tudo muito diferente, há uma grande carga de violência, os valores são outros. Eu preocupava-me em não violentar os jovens, em não os chocar, em não os excitar. E fui criticado por isso.

P. — Como?

R. — Pertenci a uma comissão de leitura, que não era de censura e se limitava a aconselhar. Eu próprio recebi conselhos da comissão de que fazia parte. Era sobretudo o tom: para quê escrever que «Fulano foi arremessado para uma fria masmorra» em vez de que «Fulano foi encarcerado», ou assim?

P. — Relações com o poder (com os poderes). Teve?

R. — Nunca tive. Vi o Salazar uma vez, mas nunca falei com ele. O Marcelo Caetano foi o único governante que manifestou algum interesse pela minha obra: quando ocorreu o quarto centenário da publicação de «Os Lusíadas» deu instruções no sentido de uma reedição estatal do meu livro «As Aventuras do Trinca-Fortes». Pois sabe quantos exemplares se venderam? Como diria o Jô Soares: zero! (Risos). Aquilo nunca foi avante. Agora, recentemente, a dr.ª Maria Barroso esteve presente no lançamento do meu livro «A Torre de D. Ramires». E foi tudo.

P. — Porque a sua obra não cabe apenas, convém lembrar, no campo das publicações periódicas...

R. — Não. Tenho publicados cerca de quarenta livros, designadamente biografias de pessoas célebres. Era a colecção «Gente Grande para Gente Pequena». Escrevia à média de um por ano. E também trabalhava na Emissora, onde colaborei estreitamente com o Francisco Mata, que, como sabe, já morreu, está um pouco esquecido e é outro homem a quem nunca foi feita a justiça que merecia. E ainda fiz publicidade. Foi uma vida cheia, a minha.

P. — Voltando às publicações juvenis: o «Foguetão» e o «Zorro» foram as últimas que dirigiu?

R. — Depois disso ainda fiz a «Nau Catrineta», que era um suplemento do «Diário de Notícias» e, mais tarde, pediram-me para ir a «A Capital» dirigir os «Quadradinhos».

P. — Pensa que um jornalismo nesses moldes ainda teria actualmente, saída? O que há agora é diferente...

R. — Praticamente não há nada. Eu ainda pensei em fazer um jornal em moldes novos, que seria a minha despedida: um jornal juvenil para os filhos dos emigrantes, que lhes permitisse manterem-se ligados a Portugal. Mas a coisa não foi por diante. Mas agora os interesses dos jovens são outros: é a música, é a televisão, é o cinema. Quase não lêem...

Entrevista de Luís Almeida Martins / Jornal de Letras, 16/03/1987

(entrevista obtida no blog Porta da Loja onde se pode ver a digitalização da mesma)

https://portadaloja.blogspot.com/2021/10/tintin-e-as-aventuras-dos-desenhos-sem.html

https://portadaloja.blogspot.com/2020/09/mais-de-cima-da-mesa-em-setembro.html

https://portadaloja.blogspot.com/2016/11/as-tretas-das-letras-ii.html


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