quinta-feira, 27 de dezembro de 2007

Na sombra de Tintim

"Não faz ideia de quanto eu odeio Tintim...", confessou certo dia Hergé a Jacques Martin, autor de Alix e um dos seus mais próximos colaboradores. Mais ou menos na mesma altura, em meados dos anos 60, quando trabalhava na BD "Voo 714 para Sydney", Michael Turner, tradutor inglês das aventuras do jovem repórter, ouviu o artista desabafar: "Já não gosto de Tintim. De facto, nem o posso ver".
O contraste entre a fragilidade de Hergé e a força positiva de Tintim não podia ser mais gritante. Para quem foi habituado, através de aventuras sucessivas, a ver naquele herói da banda desenhada europeia um modelo de qualidades imutáveis, estes momentos de fraqueza pessoal são estranhos e, porventura, insuportáveis. Dizer que Tintim foi uma espécie de "alter-ego" superlativo e mesmo transcendente do desenhador - exprimindo, para todos os efeitos, o melhor do artista belga, mas sem estar sujeito às mesmas leis humanas que regeram a sua existência -, pouco ajuda a esclarecer este enigma fundamental: quem era Hergé e o que procurava ele exprimir através do seu herói?
Possivelmente, nenhum outro autor da BD mundial foi alvo de tantos estudos e análises académicas, ou de trabalhos jornalísticos. A reconstituição, ao longo dos anos, da história de vida do desenhador e argumentista belga parece não deixar espaço para zonas de sombra ou tempos de incerteza: sabe-se tudo sobre Hergé e nada se ignora sobre Tintim. E, contudo, continuam a surgir, com regularidade, livros centradas na obra e na vida do mestre belga. Um deles é este "As Aventuras de Hergé", com o qual o seu editor português decidiu assinalar, simultaneamente, os 20 anos da morte do autor (Março de 1983) e os 75 anos do aparecimento de Tintim, a celebrar no final de Janeiro do próximo ano.
O que singulariza este trabalho em relação aos demais é ser ele próprio uma banda desenhada, cujo protagonista, como o título sugere, é o próprio Hergé e não o seu personagem. Por outras palavras, os autores propuseram-se - e conseguiram-no plenamente, diga-se desde já - revisitar a vida do criador de Tintim numa sequência de quadros que traçam, de forma subjectiva e afectiva, o essencial do percurso do homem e do artista.
Vê-se claramente que Stanislas, Boucquet e Fromental estão afectiva e intelectualmente próximos de Hergé, que há uma aceitação e um esforço de demonstração da tremenda humanidade do artista, com as suas mais elevadas qualidades e mais densas fraquezas. Para quem pouco ou nada conhece do homem, esta é uma boa iniciação; para os outros, a leitura do livro permite estabelecer algumas cumplicidades em torno das diversas aventuras de Tintim, aqui e ali citadas ou apenas sugeridas. Para todos, esta excelente edição pode constituir um "aperitivo" à fruição dos álbuns que o PÚBLICO está a oferecer aos seus leitores.

As Aventuras de Hergé AUTORES Stanislas (desenho), Boucquet e Fromental (texto)
EDITOR Mais BD 64 págs., € 16,95

© 2003 Público; Carlos Pessoa

quarta-feira, 26 de dezembro de 2007

Uma agitada aventura colonial

Depois da viagem de Tintim ao país dos sovietes, o sonho de Hergé é levar o seu herói até à América. Profundamente apaixonado pela cultura índia, seus costumes e mitos, começa de imediato a trabalhar nesse projecto. O padre Wallez, director do "Le Petit Vingtième" e mentor espiritual do desenhador, é que não está pelos ajustes: se há algum lugar onde levar Tintim é o Congo, na altura uma colónia belga, juntando o útil ao agradável - espalhar o espírito missionário e evangelizador, incrementando as vocações coloniais. Assim acontece e o resultado é "Tintim no Congo", hoje distribuído com o PÚBLICO.
Ao contrário da história anterior ("Tintim no País dos Sovietes", que é também a primeira da série), Tintim é acolhido em África como um herói internacional e uma figura quase lendária. Aliás, a glória precede-o nessa saga africana, pois os representantes da grande imprensa internacional - curiosamente, Hergé inclui também o deferente delegado do "Diário de Lisboa"... - disputam entre si o privilégio de publicar em exclusivo as reportagens do herói. Mas este permanecerá fiel ao "Vingtième", onde esta BD será publicada entre 5 de Junho de 1930 e 11 de Junho do ano seguinte.
De um modo geral, o traço de Hergé apresenta-se mais firme, mas sem perda de espontaneidade. Quanto ao desenho dos animais, é o próprio autor a confessar que pediu "ajuda" às gravuras de Benjamin Rabier. Perante uma multidão de "pretos" preguiçosos, estúpidos e infantis que se exprimem em mau francês, Tintim louva os méritos e grandezas da mãe-pátria. Milu também não está pelos ajustes: ele aceitou ir a África para caçar grandes feras, no que é imitado pelo seu dono, que não tem o menor problema em matar animais a torto e a direito, eliminando até um rinoceronte com dinamite... No entanto, o herói não chega a ter adversários locais verdadeiramente maus, pois os negros desta história são demasiado pueris para serem perigosos.
Tal como acontecera a propósito de "Tintim no País dos Sovietes", o padre Wallez decide organizar uma recepção ao herói quando este regressa a Bruxelas. Uma multidão impressionante acolhe um Tintim de carne e osso e um Milu pedido de empréstimo ao dono de um café da cidade, que quase é esmagado no boulevard du Jardin Botanique por centenas de miúdos que lhe querem dar torrões de açúcar...
A publicação de "Tintim no Congo" não levanta qualquer polémica na época, de tal modo a história está conforme ao espírito da mentalidade europeia daquele tempo - por outras palavras, ter territórios ultramarinos é atributo dos grandes países e sinónimo de poder no concerto das nações. Só mais tarde, quando a questão colonial entra na agenda política, é que a aventura africana de Tintim passará pelo crivo da análise político-ideológica.
Esta BD valerá a Hergé acusações de colonialismo e racismo, das quais este se defende invocando a mentalidade reinante na sociedade belga dos anos 30 do século XX. É verdade, mas não o é menos, nesta fase inicial da sua obra, a colagem do artista aos valores culturais e ideológicos dominantes. E não deixa de ser curioso que, ao realizar a reformulação gráfica e de diálogos desta história, em 1946, o artista belga a deixe praticamente intacta em termos narrativos.
Hergé nunca escondeu o seu desamor por "Tintim no Congo". No entanto, querelas ideológicas e filosóficas à parte, permanece como um excelente documento sobre a imagem estereotipada que os europeus tinham do continente africano.

O que disse Hergé sobre "Tintim no Congo"
 Hergé; Numa Sadoul

NUMA SADOUL:Foi dito e redito que era racista. Este é um bom momento para pôr as coisas a claro: que tem a dizer em sua defesa? Que responde quando o acusam de ser "racista"?
HERGÉ: - Respondo que todas as opiniões são livres, incluindo a de pretender que eu sou racista... Enfim, seja!... Há "Tintim no Congo", admito-o. Isso passou-se em 1930. Do país eu só conhecia aquilo que as pessoas diziam na altura: "Os negros são crianças grandes... Felizmente para eles, nós estamos lá!, etc..." E eu desenhei os africanos de acordo com esses critérios, no mais puro espírito paternalista que era o daquela época, na Bélgica. Mais tarde, pelo contrário, em "Carvão no Porão" - e isso, apesar de se falar na história em "pretoguês" - parece-me que Tintim dá provas sobejas do seu anti-racismo, não?... (...) Em "Tintim no Congo", tal como em "Tintim no País dos Sovietes", o que se verifica é que eu me alimentava com os preconceitos do meio burguês em que vivia. De facto, estas duas histórias foram pecados de juventude. Não é que eu os renegue. Mas, enfim, se tivesse que refazer as histórias, fá-las-ia de outra forma, isso é certo. Seja como for, todos os pecados têm redenção!...
Passemos então directamente a "Tintim no Congo".
- "Tintim no Congo"... Por que é que eu fiz "Tintim no Congo", e como é que o fiz?... Na realidade, depois do seu regresso da Rússia eu preferia ter enviado Tintim directamente para a América. Mas o padre Wallez persuadiu-me a começar pelo Congo: "É a nossa maravilhosa colónia, que tem tanta necessidade de nós, e além disso é necessário despertar vocações coloniais" e patati e patatá! Nada disso me inspirava muito, mas eu rendi-me a esses argumentos e pronto, lá fomos em força para o Congo! Como disse, fiz esta história na perspectiva da época, ou seja, de acordo com um espírito tipicamente paternalista... que era, posso afirmá-lo, o de toda a Bélgica. Passemos sem mais demora ao próximo álbum.
("Entretiens avec Hergé", de Numa Sadoul, Éditions Casterman).
© 2003 Público; Carlos Pessoa

sábado, 22 de dezembro de 2007

Tintin ou a simplicidade

Mas eu gostava mesmo era das aventuras de Tintin. Sem medo e sem mácula, o frágil e combativo repórter belga, tufo de cabelo levantado e calças de golfe, é uma espécie de eterno adolescente. Virtuoso, casto, decente. Um verdadeiro escuteiro. No princípio da adolescência, lia Hergé exactamente como lia Júlio Verne. Era com eles que eu viajava, com um coração aventuroso que aliás nunca tive. Em Tintin na América (1932) vivi na perigosa Chicago de Al Capone. Sempre identifiquei os Balcãs com a Sildávia e a Bordúria de Tintin e o Ceptro de Ottokar (1939). E conheci o "terceiro-mundismo" com Tintin e os Pícaros (1976), muito antes de ter ouvido falar em Guevara ou Debray. Tal como os heróis de Verne, Tintin embarcava em jornadas a sítios que eu não conhecia e que apareciam ali documentados e fascinantes, às vezes mesmo em expedições mais ou menos "de antecipação", num batíscafo ou num foguetão. Só muitos anos depois percebi que Tintin atravessou as mesmas longínquas paragens que alguns célebres jornalistas franceses, como Albert Londres ou Joseph Kessel, e que foi à China como Malraux e ao Congo como Gide.

A galeria de personagens de Tintin povoou o meu mundo mental durante uma década. Nunca apreciei o cão céptico e irritante, mas delirava com os chapéus de coco dos idênticos Dupond e Dupont; achava todos os intelectuais lunáticos como o professor Girassol; via as matronas implicativas como versões maçadoras de Bianca Castafiore. As personagens dos manuais eram para mim tão históricas como Rastapopoulos, Mitsuhirato, o marechal Plekszy-Gladz ou o nosso Oliveira da Figueira. E havia, claro, o capitão Haddock, a primeira personagem antipática que me cativou, porque desconhecia a falsidade e se movia apenas pelas suas paixões imprevisíveis. Além disso, tinha como nenhuma outra o génio verbal, neste caso o génio da imprecação: "trogloditas", "ectoplasmas", "emplastros".

O que me agradava então e agrada ainda em Tintin é a clareza. E não é apenas a famosa "linha clara" franco-belga. Tudo em Tintin é elegante, legível, pontuado pelo suspense e pelos gags cosmopolitas. Com excepção de um álbum fracturado e delirante, o genial As Jóias de Castafiore (1963), os livros de Tintin lêem-se de facto dos 7 aos 77. Noutra idade, e com outra educação, podia ter gostado (e gosto hoje) das aventuras mais cínicas e sensuais do "esquerdista" Corto Maltese; mas quando me apaixonei por Tintin tinha ainda uma visão ingénua e dicotómica. O mais extraordinário é que continue fã de Tintin agora que já não me posso dar a esse luxo. Talvez Tintin seja famoso em todo o mundo precisamente porque pensa como uma criança. Ele vê todas as dificuldades como simples aventuras. E a ideia de aventura é exaltante e feliz.

Existem inúmeros ensaios eruditos sobre Tintin, interpretações lacanianas e narratológicas e o mais que se invente. Hergé nunca aceitou essa sofisticação. Em 1959, quando a Gallimard publicou o estudo Le Monde de Tintin, de Pol Vandromme, o truculento Roger Nimier escreveu um prefácio entusiástico, que invocava Homero, Cervantes e Stendhal. Hergé achou que ia cair no ridículo e recusou terminantemente o prefácio. Ele sempre reclamou a simplicidade da sua criação. Não porque fosse pouco ambicioso, mas porque a simplicidade é que garantia a universalidade.

Quando lemos biografias de Hergé percebemos que o homem civil era obviamente mais complicado que o artista. Cortês e discreto e afável, viveu também torturado pela culpabilidade e pela amargura. Colaborou na imprensa fascizante mesmo durante a Ocupação e foi atacadíssimo depois de 1945. Era estéril, foi infiel, perdeu a fé já a mais de meio da vida. Como diz o notável biógrafo Pierre Assouline: Tintin salvou Hergé. Foi a simplicidade de Tintin que permitiu que Hergé atravessasse quase incólume as águas turvas da sua época e da sua existência.

Georges Remi, que assinava Hergé, nasceu em 1907, há um século, e morreu em 1983. Tintin nasceu em 1929. Ainda é vivo.

Pedro Mexia, Público, 15/12/2007


terça-feira, 18 de dezembro de 2007

Sexto!


A 22 de Maio de 1907, nasceu em Bruxelas o criador de Tintim cuja criação, em 1929, estabeleceu uma forte ligação entre Hergé, o desenhador, e o jovem repórter aventureiro, a personagem: «Tintim sou eu.», disse Hergé.

Tintim é até hoje a mais famosa personagem da banda desenhada europeia.

Já no ano de 1930, Hergé tinha criado as Aventuras de Quim e Filipe, publicadas em Portugal, aventuras essas que reflectem a Bruxelas dos anos 30. Em 1935, desenhou Joana, João e o macaco Simão, série de ficção científica também editada em Portugal. As aventuras de Tintim a cores foram editadas em Portugal no jornal O Papagaio, em 1936.

Hergé morre aos 76 anos, deixando expresso que ninguém poderia continuar a sua obra.

A Bélgica comemora o centenário do nascimento de Hergé, assinalando-o com a colocação da primeira pedra do futuro Museu

Hergé, em Louvain-la-Neuve, cidade onde o cartoonista faleceu.

Em Portugal, a Editorial Verbo e o Festival de Banda Desenhada de Almada assinalam este centenário com uma exposição em parceria com a Fundação Hergé. E, para 2009, está planeada uma exposição retrospectiva, a mesma que o Centro Georges Pompidou acolheu até ao passado mês de Fevereiro.

Professora Maria de Lurdes Goulão, Jornal Toque de Saída, 2007 (Externato de Benedita)

https://arquivo.pt/wayback/20091219135818/http://www.externatobenedita.net/jornal/6_numero/pdf/n6_final.pdf

FÓRUM


Sexto!

A Castafiore é um pequeno detalhe tintinesco, muito saboroso.

Evocá-la em acção num espaço confinado, a proposíto do centenário de Hergé é muito bem lembrado!

Aliás, a tira evoca muito bem Hergé e Tintim: os espaços abertos, a natureza como palco das acções humanas, o herói e as personagens próximas mas inquietantes que o rodeiam, os cálculos mentais rápidos...

Como as cerejas, outra diva me ocorre a propósito da transitoriedade e da, que contracena com Fernando Trueba em Belle Époque...

Obrigada pela tira online.

Quando é que há jornal?

por Ana Luisa Q - Quarta, 28 Novembro 2007, 15:59

Responder

Ainda bem que gostaste da Castafiore. Eu tinha escolhido os Dupond & Dupont; a Castafiore foi ideia do Samuel, e uma excelente ideia, como viste! A arte de ajustamento ao confinado espaço foi do Paulo. E a produção do artigo, da Milú (da nossa). Trabalho colaborativo, né? sorriso

Gostaríamos de ter o jornal amanhã, embora a previsão fosse 2ª feira. Mas dava mesmo muito jeito tê-lo amahã  "nas bancas". No entanto a gráfica está cheia de trabalho. Vamos ver.

por Soledade Santos - Quarta, 28 Novembro 2007, 20:03

https://arquivo.pt/wayback/20081022134918/http://ecb-m.ccems.pt/mod/forum/discuss.php?d=1660



sábado, 27 de outubro de 2007

Artigo


O Boletim nº 121 do Clube Português  de Banda Desenhada, com data de Setembro de 2007, publicou um artigo bastante ilustrado  da autoria do Ami de Hergé Fernando Cardoso dedicado ao centenário do nascimento do criador de Tintin.  O boletim é restrito aos sócios do CPBD.

https://tintinofilo.over-blog.com/article-12848532.html

sábado, 20 de outubro de 2007

Cem Livros do Século

100 LIVROS DO SÉCULO uma exposição - Centro Cultural de Belém, de 7 de Março a 21 de Maio de 1998, todos os dias das 11h às 20h.

ciclo de debates Centro Cultural de Belém - 6 de Março a 4 de Junho de 1998 às 18.30h na Sala Polivalente do Centro de Exposições

Comissário da exposição - Fernando Pinto do Amaral

Moderador dos debates - Eduardo Prado Coelho

Ninguém poderá dizer quais foram os melhores livros do século XX. Contudo talvez nos seja possível indicar alguns daqueles que, por motivos muito diversos, transformaram o modo de pensar, de sentir e de viver do século XX. É sobre esses livros que mudaram o mundo que vale a pena conversar. (Eduardo Prado Coelho)

15 colóquios para 15 livros

Com base nos quinze destaques pensados para a exposição "Cem Livros do Século", o Instituto Português do Livro e das Bibliotecas organiza, entre 6 de Março e 4 de Junho, uma série de debates no Centro Cultural de Belém, em Lisboa, moderados por Eduardo Prado Coelho. São quinze obras que emergiram de conversas entre o comissário da exposição, Fernando Pinto do Amaral, e os dois arquitectos que conceberam a montagem, Manuel Graça Dias e Egas José Vieira, do atelier Contemporânea. Escolhas a que o organizador dos debates, Eduardo Prado Coelho, não quis sobrepor outras: "Agarrámos os destaques que já tinham sido feitos por razões específicas à própria exposição - os livros que aí eram encenados."

À excepção de hoje, de forma a coincidir com a inauguração da exposição, os debates terão lugar todas as quintas-feiras, às 18h30, na sala polivalente do Centro de Exposições do Centro Cultural de Belém.

Hoje, será o livro "Em Busca do Tempo Perdido", de Marcel Proust, num debate com Maria Alzira Seixo e Augusto Abelaira. No dia 12 de Março, "O Processo", de Franz Kafka, com Luísa Costa Gomes e Jorge Listopad. No dia 19 de Março, "A Interpretação dos Sonhos", de Sigmund Freud, com José Gabriel Pereira Bastos e Linda Santos Costa. No dia 26 de Março, "O Amante", de Marguerite Duras, com Lídia Jorge e Maria Velho da Costa. No dia 2 de Abril, "África Minha", de Karen Blixen, com Agustina Bessa-Luís e José Eduardo Agualusa. A 9 de Abril, "Citações do presidente Mao Zedong (O Livro Vermelho)", com Francisco Louçã e Saldanha Sanches. No dia 16 de Abril, "À Espera de Godot", de Samuel Beckett, com José Gil e António Pinto Ribeiro. No dia 23 de Abril, "Ficções", de Jorge Luís Borges, com António Mega Ferreira, António Alçada Baptista e Carlos da Veiga Ferreira. No dia 30 de Abril, "Ensaios Críticos", de Roland Barthes, com Manuel Gusmão e Fernando Pinto do Amaral. No dia 7 de Maio, "Livro do Desassossego", de Fernando Pessoa, com Eduardo Lourenço e Vasco Graça Moura. No dia 14 de Maio, é o dia da banda desenhada, com "O Pequeno Nemo", de Winsor McCay, e "Tintin no País dos Sovietes", de Hergé, com João Paulo Cotrim e Rui Zink. No dia 21 de Maio, "O Nome da Rosa", de Umberto Eco, com Abel Barros Baptista e Rui Rocha. No dia 28 de Maio, "Toda a Internet: Guia do Utilizador e Catálogo", de Ed Krol, com José Afonso Furtado e Victor Constâncio. Por último, a 4 de Junho, "Breve História do Tempo", de Stephen Hawking, com José Vitor Malheiros e Carlos Fiolhais.

I.S. Público, 03/03/1998

Quinta-feira 14 de Maio

Winsor McCay, Hergé

O Pequeno Nemo, Tintim e outros heróis... com João Paulo Cotrim e Rui Zink

O Pequeno Nemo na Terra dos Sonhos e Tintim no País dos Sovietes são exemplos, entre "100 Livros do Século", de uma forma literária que mudou a maneira de ler no século XX: a Banda Desenhada.

Livros esgotados e não traduzidos na exposição "Cem Livros do Século"

Cem livros menos 25

A lista de livros apresentada pela exposição "Cem Livros do Século" serve para comparar a nossa escolha com a do comissário. Mas uma outra leitura possível é confrontar o mercado livreiro com as ausências - 25 por cento não estão disponíveis. Nunca traduzidos ou sempre esgotados. A culpa, dizem os editores, é de quem não os compra.

Chegar a uma livraria e comprar os títulos escolhidos para a exposição "Cem Livros do Século", ou apenas aqueles que faltam na estante, revela-se uma tarefa árdua e quase impossível para os leitores portugueses.

Das 100 obras escolhidas para esta exposição, que estará no Centro Cultural de Belém até 21 de Maio, não estão disponíveis no mercado livreiro 25 títulos, ou seja, um em cada quatro dos autores seleccionados pelo comissário Fernando Pinto do Amaral.

Dos 25 títulos, nove estão esgotados nas editoras, o que, para o comissário responsável pela escolha dos cem títulos, é à partida positivo, pois "mostra o interesse das pessoas em ler". Mas "não haver reedições revela a falta de espírito comercial das editoras", acusa também Fernando Pinto do Amaral.

As editoras argumentam que a falta de interesse é do mercado que não absorve estas obras. A Editorial Bertrand é detentora de três dos títulos esgotados, sendo que dois deles são obras de referência do feminismo - "O Segundo Sexo" de Simone de Beauvoir e o "Relatório Hite" de Shere Hite (esgotado na editora mas ainda à venda em algumas livrarias) -, e vão voltar a ser reeditados na próxima semana. Quanto ao "Arquipélago de Gulag", de Alexandre I. Solzhenitsin, "não se justifica, porque são três volumes para um mercado que não existe", afirmou Maria Piedade Ferreira, directora editorial.

"Um Estudo de História" de Arnold J. Toynbee, foi há muito editado pela Ulisseia e, segundo o director comercial, José Luís da Fonseca, trata-se de "um livro muito antigo que já esgotou há cerca de 20 anos". Entretanto a editora perdeu os direitos de autor e está a tentar renegociá-los, "para voltar a publicar essa obra, agora inserida na nossa colecção de história".

À lógica desapiedosa do mercado obedecem os títulos de teatro. Ao todo são quatro os clássicos ausentes dos escaparates das livrarias: "Seis Personagens à Procura de Autor" de Pirandello, "Esperando por Godot" de Beckett, "Mãe Coragem e seus Filhos" de Brecht e "A Cantora Careca" de Ionesco. Tudo peças já encenadas por companhias portuguesas, mas que estão esgotadas há já alguns anos no circuito livreiro.

"A razão é óbvia: o teatro não vende e leva muitos anos a esgotar - explicou Fernanda Barros, das Edições Cotovia, uma das editoras que teima em publicar teatro. "Quando esgota não interessa voltar a reeditar, a menos que haja uma exigência do público, o que não existe".

Já para Jaime Salazar Sampaio, dramaturgo, é "extremamente importante voltar a reeditar estas obras, que são fundamentais e que ajudaram a mudar o mundo". No entanto, compreende que não sejam publicadas porque "é incómodo ler teatro já que é feito não para ser lido, mas para ser representado", e propõe a reedição com introduções didáctico-pedagógicas para uma melhor compreensão das peças.

Faltam 16 traduções

Além das nove edições esgotadas, existem 16 autores que ainda não foram traduzidos nem publicados por editoras nacionais, mas que podem ser adquiridos em livrarias portuguesas.

Na opinião do comissário da exposição "Cem Livros do Século", a falta de 16 obras "é crítica, apesar de haver alguns títulos para os quais não haja público ou que não são comercialmente interessantes". Fernando Pinto do Amaral cita alguns exemplos como o "Tratado de Radioactividade" de Marie Curie, "Negritude e Humanismo" de Leopold Senghor, a "Trilogia do Cairo" de Mahfouz Nagib e "A Escrita e a Diferença" de Jacques Derrida: "são obras marcantes para um público restrito", admitiu.

Para o comissário, é "estranho e revelador do pouco interesse por parte das editoras" títulos como "Ser e Tempo" de Heidegger e "Uma Teoria Geral do Emprego, da Moeda e do Juro" de Keynes não estarem ainda editados: "são livros centrais da Filosofia e da Economia que só podem ser lidos em inglês ou francês".

Entretanto, sugere que as editoras traduzam e editem títulos como "Ofício de Viver", um diário "belíssimo" de Pavese, "A Região mais Transparente" de Carlos Fuentes, uma análise da sociedade latino-americana que "merecia ser traduzida", e "A Política do Êxtase" de Timothy Leary, sobre a liberalização das drogas, "um tema tão actual que não percebo porque é que ainda não pegaram nisso..."

O único título que "não interessa" traduzir é "Toda a Internet: Guia de Utilização e Catálogo", um guia dedicado ao público norte-americano, escolhido "apenas" porque se trata do primeiro guia da Internet, um tema já muito editado em Portugal.

Dos três autores brasileiros escolhidos, apenas Jorge Amado está editado em Portugal. "Grande Sertão: Veredas" de Guimarães Rosa e "Sentimento do Mundo" de Carlos Drummond de Andrade continuam disponíveis apenas em edições brasileiras.

O número de 25 títulos ausentes do mercado livreiro português vai diminuir ainda este ano. Além dos títulos reeditados pela Bertrand, a Verbo vai lançar a versão original do primeiro álbum de Hergé, "Tintin no País dos Sovietes", com as tiras a preto e branco tal como surgiram nos jornais franceses (?), em 1929. Uma boa novidade para os amantes da BD.

Bárbara Wong / Público, 21/03/1998


quinta-feira, 11 de outubro de 2007

Pedro Zamith


desenho de Pedro Zamith

EXPOSIÇÃO COLECTIVA - 08.2007

"O MISTÉRIO DA CULTURA"

Evolução, tradição, expeculação, trabalho de equipa, narcisismos, modas, dons perdidos,

meios infinitos, simplicidade nativa...

Com a imaginação como único limite, 14 artistas aceitaram o desafio de apresentar

9 trabalhos para desvendar "O Mistério da Cultura".

segunda-feira, 8 de outubro de 2007

Exposições 100 Anos de Hergé


A Rede de Bibliotecas de Cascais vai assinalar o centenário do nascimento de Hergé.

A partir de hoje, dia 10 de Setembro, a Rede de Bibliotecas de Cascais, assinala o centenário do nascimento, de Georges Remi (Hergé), criador da personagem de banda desenhada, Tintim.

Na Biblioteca Municipal, Casa da Horta da Quinta de Santa Clara, em Cascais, vai estar patente a exposição, «Hergé, vida e obra do Pai de Tintim», constituída por objectos da colecção de Ricardo Leite, com miniaturas dos personagens, publicações raras e censuradas, réplicas de automóveis e de um barco.

in http://www.guiadacidade.pt/portugal/?G=artigos.index&artid=16164&distritoid=11

https://arquivo.pt/wayback/20091001055244/http://tintinofilo.over-blog.com/article-12279025.html

Zetantan, 10/09/2007


terça-feira, 11 de setembro de 2007

Sócrates no país dos Sovietes

Socrates-no-pais-dos-sovietes.jpg
Carlos Sêco, um tintinófilo português Amis de Hergé, já nos habituou a belos cartoons onde aparecem os heróis de Hergé. Aproveitando a ida do primeiro-ministro português à Rússia, Carlos Sêco evoca essa viagem fazendo uma «pastiche» da capa Tintin no País dos Sovietes.

segunda-feira, 27 de agosto de 2007

Tintin, Meu Herói

DA MEMÓRIA …JOSÉ LANÇA-COELHO

TINTIN, MEU HERÓI

Hergé, o ‘pai’ de Tintin, punha o seu filho, e o seu inseparável cão Milú, em aventuras extraordinárias, que eram complementadas com os impagáveis gémeos Dupont, as estrambólicas invenções do Professor Tournesol, que mais tarde o compararia com o meu mestre Jules Verne – ambos foram à Lua - , e, o carismático capitão Hadock, e que eram vistas, não lidas, por mim, pelo meu irmão e por todos os amigos que faziam parte do saudoso clube de futebol, lá da rua.

Andava eu pelos nove anos e os outros pelos sete. Nenhum de nós aprendera ainda a língua de Voltaire. Então, como não percebíamos uma palavra de francês, abríamos o livro mais recente do nosso herói – cada um de nós comprava o seu que depois compartilhávamos – e punhamo-nos a adivinhar o que cada um dos personagens dizia no primeiro quadradinho (só muitos anos mais tarde vim a saber que os quadradinhos na Banda Desenhada tinham o nome científico de vinheta)

A partir dos bonecos, inventávamos uma história que, na nossa imaginação, podia não coincidir com as palavras dos personagens de Hergé, mas, quando chegávamos às partes cómicas, a hilaridade que Hergé pretendia transmitir aos seus leitores, eram compartilhadas por um grupo de crianças, totalmente reduzidas à força das imagens e das expressivas onomatopeias que, não deixavam qualquer dúvida, sobre o que estava a acontecer.

O segundo irmão Dupont a repetir o que o primeiro dissera, mas precedido das palavras, “Eu diria mais”.

A impulsividade do capitão Haddock, quando estava furioso, - e não eram poucas as vezes -, ‘com os mil raios’, representados por montes de estrelas, que lhe saíam da boca, onde estava um cachimbo, cujo combustível consumido ainda não era proscrito como actualmente, pois a ciência ainda não descobrira os verdadeiros malefícios do tabaco.

Tintin e Milú, na sua simplicidade encarnada por um rapaz um pouco mais velho que nós, com quem nos identificávamos em todas as aventuras, e um cão que era igualzinho ao da Aninhas, a rapariga do prédio da frente, que já andava no Liceu – e sabia francês - e por quem todos nós estávamos apaixonados.

Mais tarde, quando descobri a poesia e, dentro desta, “os meus maiores”, mal sabia que, um deles, Miguel Torga,  nascera no mesmo ano do criador do meu herói preferido na Banda Desenhada.

Na verdade, o poeta português, cujo nome é Adolfo Correia da Rocha, pseudónimo Miguel Torga, nasceu a 12 de Agosto de 1907, em S. Martinho de Anta, enquanto Hergé, pseudónimo de Georges Prosper Remi, viu a luz do dia a 22 de Maio de 1907, em Bruxelas, cidade belga onde veio a falecer, a 3 de Março de 1983.

Os livros de Hergé/Tintin estão traduzidos em mais de 40 línguas.

https://arquivo.pt/wayback/20070717121244/http://cempalavras.blogs.sapo.pt/2007/06/25/

publicado por cempalavras às 23:57