terça-feira, 26 de julho de 2022

Tintim no Século XXI

A imagem apresenta três [das várias] homenagens incluídas no fanzine Efeméride nº 4 (2009) e apresentadas depois na exposição "Novas Aventuras de Tintim no Século XXI Criadas por Autores Portugueses" que esteve patente de 25 de Janeiro a 25 de Março de 2014 no Espaço Tintin - Av. de Roma, 39A - Lisboa.

11. Augusto Trigo colabora no fanzine Efeméride no nº4, Janeiro de 2009, dedicado ao tema "Tintim no Século XXI", a criar integralmente um bem imaginado episódio, O Exemplar Único, metendo-se a ele e ao seu amigo faneditor GL, outra vez como personagens.

12. Hercê (Carlos Rico), Uma Aventura Ilegal

13.  Antero Valério - no episódio de bd curta, de prancha única, intitulado "A Mala Azul", que faz parte da obra de BD colectiva "Tintim no Século XXI", publicada no fanzine Efeméride, editado em Janeiro de 2009

ESTA imagem foi publicada em 10/01/2019 no site da TSF no artigo "Parabéns, Tintin: 90 anos de aventuras, mas também polémicas" assinado por Carolina Rico. Noventa anos depois da sua primeira aparição, leitores de todas as idades continuam a ler as aventuras de Tintin.

Fotos Orlando Almeida/Global Imagens

https://www.tsf.pt/cultura/parabens-tintin-90-anos-de-aventuras-mas-tambem-polemicas-10414539.html

EXPOSIÇÃO

NOTÍCIA NO BLOG "BD NO SOTÃO" DE ANDRÉ AZEVEDO

"Novas Aventuras de Tintim no Século XXI Criadas por Autores Portugueses" é o título da exposição de BD que está patente no Espaço Tintin (Av. de Roma, 39A – Lisboa) até 25 de Março de 2014.

A exposição é organizada pelo incansável Geraldes Lino e tem como base o seu fanzine Efeméride onde autores nacionais reinventam algumas das personagens clássicas da BD no séc. XXI como é o caso da célebre personagem criada por Hergé.

http://agaragem2014.blogspot.pt/2014/02/tintim-no-seculo-xxi-por-autores.html

Comentários a esse blog:

Caro Amigo André Azevedo

Muito grato pelas suas palavras elogiosas a meu respeito. Também lhe endereço uma palavra de admiração pelo facto de estar tão atento a tudo quanto mexe na BD, que até se apercebe de pequenos eventos como é a exposição que organizei com as pranchas da obra colectiva "Tintin no Século XXI", publicada no meu fanzine Efeméride.

Grande abraço,

GL

Geraldes Lino, 27 de fevereiro de 2014 às 01:01

Meu caro amigo,

Eu é que agradeço a atenção que sempre deu e continua a dar aqui ao BD no Sótão. Para mim significa muito e é algo de que me orgulho!

Quanto à exposição é pena que não possa vir até ao Porto...

…ou será que pode?

André Azevedo,28 de fevereiro de 2014 às 10:34

Porque não? É tudo uma questão de se conjugarem três factores: 1) Haver espaço para a exposição; 2) Marcar uma data não coincidente com outros eventos bedéfilos; 3) Não colidir com compromissos meus.

Geraldes Lino,1 de março de 2014 às 01:21

(temos ideia de que as imagens acabaram por ir ficando no Espaço Tintin que depois fechou )


Efeméride, fanzine editado por Geraldes Lino, dedicou o seu nº 4 ao Tintin, com o título Tintin no século XXI

Nº 4 - Tintin no Século XXI - Data da edição: Janeiro de 2009

https://tintinofilo.weebly.com/pastiches.html

Editor - Geraldes Lino

http://divulgandobd.blogspot.com

http://fanzinesdebandadesenhada.blogspot.com

http://geraldeslino.interdinamica.pt

*


quinta-feira, 14 de julho de 2022

Amadeu Lopes Sabino

Um escritor português em Moulinsart

 «Eu cheguei ao universo de Hergé antes de nascer. Vou tentar explicar este contrassenso. Comecei a ler cedo, aprendendo, com a ajuda de familiares, a juntar letras e sílabas. Em tempos sem televisão, iniciei-me na leitura pelas histórias aos quadradinhos. Um amigo do meu avô materno, um pintor de domingo com a paixão pelas bandas desenhadas, mantinha infindáveis coleções de revistas juvenis, que eu ia recebendo de empréstimo. Entre estas, vários números de "O Papagaio", que, em 1939, publicou "Tim-Tim em Angola", adaptação de "Tintin au Congo". Quando, pelos seis anos de idade, soletrando laboriosamente uma vintena de números da revista, consegui decifrar a aventura, pareceu-me evidente que Tintin era português. “Vou falar-vos da nossa querida Pátria, Portugal”, dizia ele a uma classe de jovens negros.

A aventura portuguesa do repórter Tintin começara cedo, facilitada pelo conhecimento pessoal do Padre Abel Varzim, que estudou em Lovaina, com o Padre Norbert Wallez, o diretor de Georges Remi, o futuro Hergé, em "Le Vingtième Siècle", quotidiano católico e radicalmente tradicionalista. Quando o desenhador se emancipa de Wallez e funda o seu próprio ateliê, trata diretamente com as revistas infantis e juvenis portuguesas. A partir dos meus nove ou dez anos, tornei-me leitor fiel de uma delas, o "Cavaleiro Andante" (saía aos sábados e era sempre uma descoberta), e achei-me membro honorário da confraria tácita dos companheiros de Tintin.

O universo eurocêntrico, colonialista e casto do repórter e dos seus companheiros inseria-se, como uma luva de textos e imagens, na cultura do Estado Novo, cujos serviços de censura à imprensa juvenil impunham a eliminação das cenas de violência excessiva e de lascívia e mandavam aportuguesar os nomes dos personagens. O nacionalismo do salazarismo era, bem vistas as coisas, comum aos valores da Belgique à papa, acerrimamente defendida por Wallez, personificada na ambiguidade política de Léopold III e colorida pelo talento de Hergé.

Às portas da adolescência, eu já tinha lido todas a aventuras de Tintin (exceto um álbum indisponível: "Tintin au Pays des Soviets") e, em paralelo, as de Blake e Mortimer, personagens criados por E. P. Jacobs, outro belga deslumbrante e inesquecível, companheiro de ofício e de oficina de Georges Remi. 

Se ambas as sagas estimulavam os meus devaneios de evasão, devo ao repórter de "Le Vingtième Siècle" o apreço pelo jornalismo, que foi uma das minhas profissões, e situo-o, por essa via, na proto-história da minha vocação de escritor.

Só li "Tintin au Pays des Soviets" no primeiro volume de "L’Oeuvre Intégrale d’Hergé", publicada pela Casterman a partir de 1981.

Já então residia em Bruxelas. Vivi 26 anos na capital da Bélgica, da Flandres, da Europa e, às vezes, do mundo, e contam-se pelos dedos das mãos os sábados em que não percorri a feira da ladra, o marché aux puces do Jeu de Balle, em busca de tesouros da qualidade de La Licorne. Depressa me considerei um bruxellois de adoção, qualidade que conservo.

Nesses anos antiquíssimos sem internet, ouvia atentamente a rádio e a televisão locais sempre que Portugal era notícia. Em 1986, no Journal télévisé das 19h30 da RTBF, a jornalista Françoise Van De Moortel anunciou a vitória de Mário Soares na eleição presidencial portuguesa e recordou, a propósito, a ditadura deposta em 1974, referindo-se ao seu chefe como le général Salazar, numa clara associação com Alcazar, o general sul-americano dos álbuns de Tintin. Portugal era ainda confundido com uma republiqueta sul-americana. No entanto, esse país singular regressara ao retângulo europeu e aderira, no ano anterior, às Comunidades Europeias.

Funcionário europeu, eu vivia na rue des Atrébates, a dois passos da casa onde Léopold Trepper instalou a sociedade comercial que serviu de cobertura à maior rede de espionagem da Segunda Guerra Mundial. Trepper, herói dúbio, folhetinesco, mereceria, para que fosse compreensível, participar numa aventura de Tintin. Li a biografia do espião aplicando os ensinamentos de Dupond e Dupont. Inconclusiva, faltava-lhe o traço de Hergé.

A minha filha Catarina tinha uma fox terrier, Cocas de nome próprio. Todos em casa nos dirigíamos em português ou francês à astuta Cocas, e ela, digna parente de Milou, dava-nos, em qualquer das línguas, respostas mais sensatas do que as nossas perguntas. O meu filho Lourenço nasceu em 1989 e, quando a irmã partiu para Lisboa, herdou a Cocas.

Nos anos 90, a Europa percorria caminhos vertiginosos. O Lourenço assistia aos noticiários e perguntava. Eu socorria-me da banda desenhada para o introduzir no mundo e no tempo que os deuses nos tinham destinado. Tintin era o herói da família, o Lourenço era umas vezes Tintin, outras Tournesol (em Portugal, o professor Girassol). Quando me encolerizava, eu era o capitão Haddock. A Castafiore era uma vizinha que gritava destemperadamente. Os papéis antipáticos, distribuíamo-los pelos vilões que íamos conhecendo, no quotidiano, na história e na política contemporânea. Aos fins de semana, fazíamos equitação num picadeiro para os lados de Dilbeek.

Uma vez, enganámo-nos na estrada e passámos por um palacete em que identificámos Moulinsart. No regresso do picadeiro, não resistimos à tentação de aproveitar o portão aberto para entrar na propriedade. Fomos parados por um cavalheiro empertigado, seguramente Nestor. Cocas, que nos acompanhava nas atividades equestres, saltou do carro e ladrou ao importuno. Duas silhuetas apareceram na escadaria: um jovem e um homem mais velho. Desculpei-me com um aceno e fiz marcha-atrás.

– É o Tintin, pai! – exclamou o Lourenço, dividido entre o júbilo e a apreensão. – E o capitão Haddock! Eles existem mesmo, pai! Eles existem!

Eu confirmei:

– Claro que existem. Mas não os podemos incomodar. Um dia hão de nos convidar a entrar.

– Um dia... – suspirou o Lourenço. – Um dia...»

Amadeu Lopes Sabino, 20/10/2021

No âmbito da primeira exposição em Portugal (Fundação Calouste Gulbenkian) dedicada ao autor de Tintin,  organizada em colaboração com o Museu Hergé de Louvain-la-Neuve, foi editado entre nós um catálogo com o encarte «Hergé em Portugal» com várias colaborações, entre elas a de Amadeu Lopes Sabino.

domingo, 10 de julho de 2022

Tom


(...)

Tom, Thomaz de Mello (Rio de Janeiro, 1906-Lisboa, 1990), iniciou-se na literatura infantil com o "Tiroliro", suplemento infantil de "A Voz", também de inspiração católica. No "Papagaio" foi um verdadeiro faz-tudo, responsável pelo grafismo inicial, ilustrações e histórias aos quadradinhos, com destaque para a série de aventuras do azarado inventor Sabichão em calças pardas. As suas capas para os primeiros números foram uma das faces mais criativas do Modernismo português, com os seus palhaços, crianças e papagaios em composições bidimensionais de cores primárias, fundos planos e cabeçalhos mutantes que acolitavam graficamente a ilustração. Ao número 303, Adolfo Simões Müller abandonou a revista para começar uma nova aventura ao leme de nova revista infantil, o "Diabrete".

A saída de Müller ditou o lento declínio d’ "O Papagaio", que se extinguiu ao número 722, corria o ano de 1949. A miudagem preferia claramente os atraentes quadradinhos das coboiadas d’ "O Mosquito".

(...)

O Capitão Tom era um destemido pirata brasileiro que empreendeu a aventurosa travessia do Atlântico em 1926, e arrasou a capital lusa com uma aclamada exposição de caricaturas em 1928, tornando-se um dos mais fascinantes personagens das artes gráficas portuguesas. 

Jorge Silva, 18/12/2011


Outras ligações:

https://abysmo.pt/2021/01/20/thomaz-de-mello-designer-total/

https://www.lambiek.net/artists/t/tom_de_melo.htm

https://casa-design.pt/pt/exhibitions/tom-todo-o-desenho-possivel

https://www.publico.pt/2021/04/09/p3/fotogaleria/casa-desing-recorda-todo-design-possivel-tom-referencia-design-portugues-405873#

http://www.tipografos.net/portugal/tomaz-mello.html

https://pt.wikipedia.org/wiki/Thomaz_de_Mello


segunda-feira, 4 de julho de 2022

quinta-feira, 30 de junho de 2022

quarta-feira, 22 de junho de 2022

Tintin nas galés


Parece que Tintin, meu amigo de infância, vai ser julgado num tribunal belga por um alegado crime de "racismo" praticado em 1931 com a publicação das suas aventuras no Congo, narradas e desenhadas por um tal George Prosper Remi, a.k.a Hergè.

Acusa-o, apoiado pelas ruidosas tropas do politicamente correcto, um tal Bienvenu Mbutu Mondondo, nascido 40 anos depois de "Tintin no Congo" ser publicado, que acha a obra "atentatória da sua imagem" porque, nela, "os congoleses" (e não as personagens do livro) são apresentados como "preguiçosos" e "estúpidos". 

Ora ele é congolês, portanto... Exige, por isso, que a venda do livro seja condicionada (a sua primeira exigência foi a proibição pura e simples, mas entretanto terá ouvido falar de "liberdade de expressão e concluído que talvez estivesse a ter mais olhos que barriga). A seguir virá algum grego "ofendido" pela imagem de Rastapopoulos, algum oficial da Marinha pela imagem de bêbedo do Capitão Haddock , alguma cantora lírica pela imagem da Castafiore, algum vendedor de seguros pela imagem de Séraphin Lampion, algum polícia pela imagem de Dupond e Dupont, algum "gangster" pela imagem dos "gangsters" em "Tintin na América"...

Seguir-se-á Astérix (há-de aparecer algum romano a sentir-se "ofendido") e, por um motivo ou por outro, toda a literatura e arte. Finalmente, como previu Heine, depois dos livros, chegará de novo o momento de se queimarem homens.

MANUEL ANTÓNIO PINA/JN, 19/04/2011

Publicado no anterior blog em 20/04/2011

https://www.bd2u.net/artigos/albuns/281-o-julgamento-de-tintin-no-congo.html

E X T R A

Tintin e os outros […] chegaram à minha vida na infância como o Cavaleiro Andante e, como na canção de Maria Bethânia, instalaram-se para sempre feitos posseiros dentro do meu coração. Com eles fui à Lua e viajei  por todos os mares do mundo, subi aos Himalaias e desci aos negros porões da alma humana […] defendi os fracos e enfrentei opressores e ricaços sem escrúpulos […] convivi com guerrilheiros, com tiranos, com comerciantes, com sábios, com iluminados… 

Se algo de essencial aprendi […] das minhas aventuras com Tintin foi o desprezo da infâmia e a “linha clara” da coragem e da justiça.»

Manuel António Pina, JN, 24/05/2007 [Crónica, Saudade da Literatura]

Anunciou a televisão estatal (na verdade, "a" televisão) norte-coreana que o líder supremo do Partido, do Estado e do Exército, "Kim Jong-un, tem um plano grandioso para fazer uma mudança considerável no campo de literatura e artes".

A primeira etapa de tal "plano grandioso" (na Coreia do Norte, os planos e ideias do supremo líder são sempre "grandiosos") foi um grandioso "show" realizado sexta-feira na capital do país, Pyongyang, em que, entusiasticamente aplaudidos de pé, actores dançaram para as cúpulas do regime, incluindo o próprio Kim Jong-un, vestidos de personagens da Disney: Mickey, Minnie, Winnie-the-Pooh, Branca de Neve, Dumbo, etc.. Alguém devia ter informado Kim Jong-un que Mickey é agente da CIA...

Alguns media ocidentais vibraram com tal sinal de "abertura", embora os EUA, pela voz do Tio Patinhas, tenham lamentado que os norte-coreanos não tivessem pago os direitos de autor.

"Abertura" seria um "show" em Pyongyang com as personagens, já não digo de Crumb, Shelton ou até de Al Capp, mas, ao menos, os de "L'affaire Tournesol", de Hergé, em que Tintin conhece um país, a Bordúria, que, mais estrela menos bigode na bandeira, é decerto familiar do povo norte-coreano: um partido único, um líder supremo com estátuas por todo o lado, uma tenebrosa polícia política, um Estado militarizado e uma sociedade infantilizada cantando hinos de louvor aos seus carcereiros.

Manuel António Pina, A Bordúria "abre-se" JN, 12/07/2012


184. Até Tintin, ao fim de tantos anos, me parece cansado e céptico (em contrapartida os negócios escuros de Rastapopoulos vão vão de vento em popa…)

Manuel António Pina, «Heróis», Visão, 04/12/2003


98. Enquanto os outros liam a vida de S. João Bosco e os manuais de Filosofia do prof. Bonifácio («O mundo é a casa dos rapazes e a casa é o mundo das raparigas», ele é que sabia…), andava eu pela Lua com Tintin e com os Dupond…

Manuel António Pina, «Onde o cronista se deita no divã», Jornal de Notícias, 13/11/1991


domingo, 12 de junho de 2022

Louvação de Oliveira de Figueira


«Em pleno quinto centenário dos Descobrimentos, talvez seja a altura de trazer ao lume (brando, brando...) da crónica o inesquecível señor (com ñ) Oliveira de Figueira. 

Os leitores de Tintin conhecem-no bem de Os charutos do faraó e de outros episódios da epopeia de Hergé. Juntamente com Pedro João Santos, físico famoso e professor da Universidade de Coimbra que, em A estrela misteriosa, acompanha o repórter do Le petit vingtième na expedição ao meteorito que, afinal, não destruiu a boa e velha Terra.

Oliveira de Figueira representa-nos generosamente a todos no díspar painel de personagens que o lápis e o coração do belga legaram aos outros homens. E podemos gabar-nos de que ambos pertençam à galeria dos bons. O mesmo, por exemplo, não podem fazer os gregos (o mais tenebroso inimigo de Tintin é um grego, o ricalhaço Rastopopoulos), nem os ingleses, nem os americanos, nem os franceses, nem os indianos, nem os japoneses, nem mesmo os incas, que têm gente de um lado e do outro... 

Como Tintin, o cronista tem encontrado Oliveira de Figueira um pouco por toda a parte onde os acasos do jornalismo e da vida o têm levado. (O que prova que Hergé sabia mais de nós e da nossa errante natureza do que poderia fazer supor o facto de, para ele ou, ao menos, para a sua obra, não haver portugueses maus). Hoje, com o que sei de Oliveira de Figueira e da sua vocação de cidadão do mundo, surpreende-me que o bíblico Adão não tenha dado de caras com ele no seu primeiro passeio solitário pelo Éden... Em Tóquio encontrei-o à frente de um restaurante chamado Nazaré; no Alasca atrás de um aspirador, a trabalhar na limpeza do aeroporto de Anchorage; em Seul na cozinha de um escuso bar cheio de fumo e de filipinos; em Reykyavik numa loja de roupas... indianas; em Berlim num infantário; em Oslo ao volante de um táxi; em Kyoto ensinando Português numa universidade. Em Salvador da Baía e no Rio, como por todo o Brasil, Oliveira de Figueira aparece ao virar de cada esquina; em Paris, e por toda a Europa, como por toda a África, é o que se sabe: é mais fácil encontra-lo do que a um algarvio no Algarve! O homem das Arábias que, no último instante, em pleno deserto, surge, bonacheirão e cordial, em salvação de Tintin e o esconde da ira dos maus no seu impenetrável labirinto de bugigangas, tem também salvo o cronista do pecado da saudade em tudo quanto é sítio. Ao jornalista, por outro lado, Oliveira de Figueira salva-o todos os dias da rotina das notícias das agências internacionais. Há um choque de comboios em Paris? Oliveira de Figueira está, pelo menos, entre os feridos. 

Um atentado na África do Sul? Oliveira de Figueira ia a passar. Um assalto a um paquete no Mar Egeu? Oliveira de Figueira ia no cruzeiro com a família e viu tudo e, com um pouco de sorte, até tirou fotografias! 

Mesmo quando já partiu, e mesmo que já tenha partido há muitos séculos, Oliveira de Figueira deixou um rasto de simpatia e de História que protege o viajante que o segue como o escudo invisível do dentífrico.

Uma vez, em Nagasaki, entrei numa loja para comprar uma garrafa de saké e um serviço de louça em que o ministrar mais tarde, em casa, com a exigível propriedade, às visitas mais requintadas. O lojista não tinha que ser especialmente perspicaz para descobrir que eu não era japonês; só teve que ser um pouco curioso para me perguntar, num inglês ainda pior do que o meu, donde era eu from. Quando soube que eu era from Portugal, os seus olhos e as suas palavras ficaram subitamente em festa: falou-me, então, da chegada dos portugueses àquelas costas muitos séculos atrás, em estranhos barcos à vela, da forma como por lá se foram ficando e de como venderam às gentes da terra, o famoso bazar de Oliveira de Figueira!, coisas dispersas e ideias tão singulares como fabricar pão, espingardas, vitrais coloridos ou fazer chá. E, num arroubo de reconhecimento e cordialidade (nunca um português lhe tinha entrado pela loja, e até a família fora chamar lá dentro para me ver!) ofereceu-me tudo o que eu lhe queria comprar e embrulhou-mo num chamejante papel de seda amarelo.

Mas o episódio não acaba aqui. Quando, no hotel, contei o sucedido aos outros portugueses que comigo viajavam, a expedita alma comerciante de Oliveira de Figueira acordou alvoroçadamente neles, vinda do fundo dos tempos. Todos queriam ir também à loja (eu é que lhes não disse onde era!) onde os portugueses eram very welcome para terem saké e jarrinhas de porcelana de borla...  

Infelizmente, a imprevisível Comissão dos Descobrimentos, que para aí gere milhões com a falta de bom senso que se sabe, deve ser mais leitora de La Salade do que de Hergé. Por isso Oliveira de Figueira não terá a homenagem que merece. Nenhum banco se lembrará de cunhar em moeda os seus dalinianos bigodes, nenhum conferencista lhe dedicará uma palestra, nenhum estudante pedirá uma bolsa à Gulbenkian para lhe seguir o rasto através dos continentes, nenhuma Câmara lhe porá o nome numa rua, nem a estátua numa praça. A homenagem da crónica, em letra impressa, não ressalvará o resto; que, ao menos, sirva de efémera memória da sua passagem generosa e corajosa pelos perplexos mundos da nossa infância e do nosso coração».

Manuel António Pina, Jornal de Notícias, 23/07/1988.

In Manuel António Pina, "Crónica, Saudade da Literatura. Antologia, 1984-2012", selecção de Sousa Dias, Assírio Alvim, Porto, 2013, ISBN 978-972-37-1684-9.

https://montalvoeascinciasdonossotempo.blogspot.com/2015/11/saudade-da-literatura-cronica-antologia_68.html

http://www.aterceiranoite.org/2013/10/10/um-eterno-oliveira-de-figueira

ENTREVISTA A Manuel António Pina: (Ciberkiosk nº 9) Março de 2000

Ciberkiosk - Cesariny dava a sensação de se mover com muito desembaraço e humor por entre as formas e consistências da portugalidade e da cultura portuguesa. Simultaneamente longe e perto. A julgar pelo Anacronista, o seu humor nestas matérias parece desenvolver ou ficcionar uma afinidade com o que nessa cultura (em sentido antropológico) seria simpática e irremediavelmente chocho. O ser português é a Saudade e o Senhor Figueira de Oliveira?

MAP: «A saudade não sei o que seja, mas o Señor (com ñ) Oliveira de Figueira é certamente uma expressão autêntica e expedita do ser português, ou do que dele vai penosamente sobrevivendo à voracidade globalizadora. A simpatia que as minhas crónicas de jornal nutrem pelo Señor Oliveira de Figueira, e por outros espécimes congéneres que continuam a habitar as cada vez mais escassas franjas da economia de mercado e da cultura de massas, está, no entanto, ferida do pecado da distância e da soberba. Temo, de facto, que as minhas crónicas se lhes dediquem apenas com a mesma amável e enternecida curiosidade do patologista debruçado sobre uma lamela de dispersa bicharada afadigadamente entregue à enormidade da existência...» / «A outra face dessa simpatia é o desprezo por outra expressão, igualmente expedita, do ser português: o "sabido", em especial nas versões "político" e "empreendedor". E igual desprezo pela imensa e informe caterva de economistas e aparentados, fabricados nos sórdidos lugares universitários onde se estuda e ensina a usura, e de lá saindo convictos de que compreenderam o mundo (meu Deus, e se calhar até compreenderam!). E pela malta da "sociedade da informação", da gestão cultural e coisas semelhantes. É certo que "tudo isto é Portugal, tudo isto é fado". Mas não vejo Tintin, que é um coração puro, a dar-se de amizades com gente desta.»

Manuel António Pina, (Ciberkiosk)

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Recentemente foi lançado em França um livro sobre Oliveira de Figueira. O livro "Le Sr Oliveira Da Figueira & Les Aventures De Hergé Et Tim-Tim au Portugal" é da autoria de Albert Algoud e tem desenhos de Philippe Dumas. 

Uma conversa com Dumas, sobre o seu trabalho neste livro, foi colocada recentemente no youtube.

https://tintinemportugal.blogspot.com/search?q=dumas


quarta-feira, 1 de junho de 2022

Les Aventures de Mário Tintin

O episódio do "Contra Informação" (RTP-1) de 1 de junho de 2007 foi um episódio especial dedicado ao dia da criança. Ao longo do programa foi apresentada uma história com as aventuras de Mário Tintim (Mário Soares), com a companhia de Haddock (Manuel Alegre) e de outras personagens.


Incluiu também brincadeiras com alguns programas infantis como Bob o construtor, Noddy e até Marques Mendes a fazer de bébé Lilly.