segunda-feira, 4 de outubro de 2021

Tintin, um grande belga

Graças à ambição desmedida de Leopoldo II, que agiu a título individual, a pequena Bélgica acabou por se dotar, no final do século XIX, de um enorme império colonial, a atual República Democrática do Congo, também conhecida por ex-Zaire ou por antigo Congo Belga. E enquanto, até 1908, o território foi propriedade pessoal do monarca, sob o nome de Estado Livre do Congo, ganhou fama de exercer uma violência sobre as populações africanas que batia a de qualquer outra colónia detida por europeus. O lucro era o objetivo, e quase tudo valia para se maximizar esse lucro, como afirma o americano Robert Harms, autor do agora publicado em Portugal Terra de Lágrimas, uma história da colonização da África Equatorial, em grande medida o tal Estado Livre do Congo.

Entrevistei Harms na mesma semana em que em Lisboa aconteceu a inauguração de uma exposição dedicada a Tintin. Eternamente jovem, irreverente e corajoso, o jornalista criado por Hergé continua a convencer geração após geração: veja-se as vendas dos livros, o sucesso dos filmes e até mesmo a popularidade da memorabilia, comprada em Bruxelas ou mundo fora numa qualquer livraria especializada em BD. Ora, Tintin no Congo, segundo livro da série, já chegou a ser criticado por infantilizar os africanos, e Hergé foi acusado de ser racista, o que acabou por ser resolvido por um tribunal belga, que se pronunciou contra a proibição de reeditar o título e enquadrou o autor na sua época - 1931 foi o ano da primeira edição. Triunfou o bom senso, foi a conclusão então, de alívio, e felizmente Tintin pode continuar a ser apreciado em toda a sua genialidade. Que o diga a Gulbenkian, que tem já bilhetes esgotados para alguns dos próximos dias. Portugal, onde Tintin teve a primeira tradução, é um país rendido ao repórter de poupa loira.

Uma palavra para a pátria de Leopoldo II e de Tintin, perdão, de Hergé, essa Bélgica que por vezes parece tão frágil, ameaçada pelo secessionismo flamengo, mas que é um país pujante, seja pela economia, seja pela cultura, e que empresta à Europa a sua capital como capital também do continente. Com uma população semelhante à portuguesa, mas num terço do território, está hoje nas 25 maiores economias do mundo e dentro do grupo dos 15 países com maior índice de desenvolvimento humano, segundo as estatísticas das Nações Unidas.

Constituída por valões, de língua francesa, flamengos, que falam neerlandês, e ainda uma pequena comunidade de língua alemã, a Bélgica moderna nasceu na primeira metade do século XIX, mas a sua história é bem mais antiga, com os próprios romanos a identificarem os habitantes como diferentes dos gauleses, a sul. Por ironia, dois mil anos depois nem sempre essa diferença é percebida, a ponto de um grande nome da chamada chanson française ser Jacques Brel, belga nascido em Schaerbeek, na região de Bruxelas.

Hergé, de seu verdadeiro nome Georges Remi, conseguiu que Tintin fosse sempre reconhecido como belga. E ele próprio, de pai valão e mãe flamenga, encarna muito bem a belgicidade que seria uma pena acabasse vítima do nacionalismo dos ricos.

Um dia escrevi um artigo com o título "A rainha heroína dos belgas filha de uma portuguesa". Tratava da história de Isabel da Baviera, bisavó do atual rei Filipe, uma monarca que resistiu à invasão alemã na Primeira Guerra Mundial e salvou judeus na Segunda. O avô dela era D. Miguel, a mãe D. Maria José de Bragança. Hoje realço antes o marido de Isabel, o rei Alberto I, pelo que fez pelo seu país em 1914: recusou o ultimato alemão para deixar passar as tropas que invadiriam a França contornando as defesas gaulesas; depois de violada a neutralidade do seu país, encabeçou a resistência e permaneceu numa parcela de território nunca tomada pelo inimigo; figurou entre os vencedores quando a Primeira Guerra Mundial terminou, em 1918.

Alberto I era sobrinho de Leopoldo II e deu uma nova aura à coroa e à Bélgica. Morreu em 1934, ano da edição de Os Charutos do Faraó, o quarto álbum de Tintin, onde surge o nosso Oliveira da Figueira.

Leonídio Paulo Ferreira in DN

sábado, 2 de outubro de 2021

Hergé no Expresso e Público

  


Público, Suplemento Ypsilon, 1 de Outubro de 2021


Expresso, Revista E, 1 de Outubro de 2021

Exposição Hergé na Fundação Calouste Gulbenkian

 



















Catálogo da Exposição Hergé em Portugal

 No âmbito da exposição Hergé, a decorrer na Fundação Calouste Gulbenkian em Lisboa, foi editado a  versão portuguesa do Catálogo da exposição, contendo uma surpreendente separata intitulada "Hergé em Portugal".



Hergé (Catálogo de exposição), Moulinsart/Fundação Calouste Gulbenkian, 48 + separata "Hergé em Portugal", cor, capa dura, 15€


quarta-feira, 29 de setembro de 2021

Tintin no país do fado

Tintin, Milou e Haddock são algumas das personagens com que o visitante da Gulbenkian se poderá cruzar a partir desta sexta-feira. A exposição "Hergé" trá-los na bagagem, à mistura com muitas surpresas (algumas bem controversas) sobre a vida e obra do ilustrador belga.


"Com mil milhões de demónios!", exclamaria o capitão Haddock se, por um destes dias, passasse à porta da Fundação Gulbenkian, em Lisboa. Isto porque a partir de sexta-feira, 1 de Outubro, e até 10 de Janeiro, o lugar onde estamos habituados a admirar grandes nomes da arte mundial dará a ver o trabalho do ilustrador e desenhador de banda desenhada Georges Prosper Rémi, vulgo Hergé, também conhecido como "o pai de Tintin".

Organizada em colaboração com o Museu Hergé da cidade belga de Louvain-la-Neuve, "Hergé" (que já esteve patente no Grand Palais, em Paris, no outono de 2016) traz ao conhecimento do público português uma importante selecção de materiais (pranchas originais, pinturas, fotografias e documentos de arquivo) e obras criadas pelo autor. Ao longo de nove núcleos, é-nos proporcionada uma visão poliédrica do trabalho de Hergé, mas também de toda a complexidade da sua biografia e dos tempos conturbados em que viveu (1907-1983). Tudo razões para que João Paulo Cotrim, editor da Abysmo e antigo diretor da Bedeteca de Lisboa, recomende uma visita atenta à exposição. "Faltar-lhe-á talvez um núcleo sobre a ligação de Tintin a Portugal, que é mais importante do que as pessoas pensam", salienta.

Hergé e Portugal

Recuemos a esses anos marcados pela estética modernista, em que novas artes, como o Cinema e a Banda Desenhada, serviam de laboratório à procura de linguagens mais adequadas ao mundo saído da Primeira Guerra Mundial. O Portugal de Almada Negreiros e Pessoa tornar-se-ia decisivo para a carreira internacional do jovem repórter de poupa à prova de hecatombes, sendo o primeiro país não francófono a publicar as suas aventuras. A estreia mundial dera-se a 10 de Janeiro de 1929, no suplemento infantil Le Petit Vingtième, do jornal belga Le Vingtième Siécle, e Portugal não tardaria a publicar essas primeiras tiras no jornal infantil O Papagaio, graças aos esforços do escritor e grande divulgador de literatura para crianças e jovens, Adolfo Simões Muller (1909-1989). João Paulo Cotrim nota, aliás, que essa ligação seria continuada no tempo já que, em plena Segunda Guerra Mundial, Muller, preocupado com a situação de Hergé e sua família na Bélgica ocupada pelos alemães, lhe há-de enviar uma considerável quantidade de latas de conserva. "Seria interessante saber onde pára a correspondência trocada entre ambos, sobretudo nesse período tão difícil", sugere.

Esses eram ainda os tempos das primeiras aventuras de Tintin e seu cão Milou no país dos sovietes (álbum de 1930) ou no Congo (um ano mais tarde), justamente aquelas que, nos últimos anos, têm vindo a ser mais questionadas pelo seu teor ideológico. Portugal publicou-as ("dando-lhes até cor, ainda de forma incipiente", diz João Paulo Cotrim), como publicaria outras, já do pós-Segunda Guerra Mundial, muito mais sofisticadas e maduras. Tintin seria, aliás, o título de uma popular revista de banda desenhada portuguesa: publicada entre 1968 e 1982, destinava-se, como se lia no cabeçalho a "jovens dos 7 aos 77 anos", teve como directores Dinis Machado e Vasco Granja e, para além de publicar aventuras do herói que lhe dava o título, incluía histórias de Spirou, Michel Vaillant ou Hugo Pratt.


O impacto nas artes e na cultura

Sempre metidos em peripécias nos lugares mais inesperados, do Congo colonial à China, passando pela América e até mesmo pela Lua, Tintin, Milou, o capitão Haddock, o professor Tournesol, a cantora Castafiore ou os inefáveis detetives Dupond e Dupont constituem uma galeria de personagens com forte impacto no imaginário de várias gerações de leitores. Mais do que isso, tem sido objecto de tratamento e estudo por parte de artistas plásticos ou até de ensaístas como Roland Barthes. Mais recentemente, em 2006, o escritor britânico Tom McCarthy dedicou-lhe o livro Tintin and the Secret of Literature, em que, partindo da leitura de Barthes, relaciona a personagem com a biografia de Hergé e com vários clássicos do cânone literário europeu, nomeadamente na abordagem de temas de sempre como a luta entre o bem e o mal, a amizade e a traição. Mas se estas leituras, pela sua natureza, ficaram encerradas no debate académico, o mesmo não aconteceu com a biografia assinada pelo jornalista e escritor Pierre Assouline (autor de biografias de personagens muito marcantes da vida cultural francesa como o editor Gaston Gallimard ou o fotógrafo Cartier-Bresson) . Embora não se considerasse propriamente um tintinófilo (termo aplicados aos apaixonados pela personagem, que não são poucos), Assouline avançou para os arquivos mas cedo compreendeu que ia causar desgostos a esse público fiel.

Na verdade, o que o biógrafo nos mostra, nesse livro de 1996, é um Hergé politicamente muito incorreto, leia-se mesmo reacionário e preconceituoso. Numa entrevista concedida na época, o autor admitiria: "Há facetas difíceis de aceitar: o seu antissemitismo, o seu confesso desamor pelas crianças, o seu passado de colaborador com os nazis. Por volta de 1948, 1950, estava tão mal visto na Bélgica e França, que ofereceu os seus serviços a Walt Disney, que os recusou. Depois, chegou a encarar a ideia de se refugiar na Argentina, para onde partiam muitos nazis a contas com a justiça na Europa..."


Depois disso, as releituras de Hergé e do seu Tintin (sobretudo em tempos de cancel culture) têm-se revelado difíceis. Em foco estão sobretudo as primeiras aventuras, publicadas na década de 1930. Em 2007, a Biblioteca Pública de Brooklyn, Nova Iorque, retirou das estantes a segunda aventura de Tintin (Tintin no Congo), tornando-se a sua consulta sujeita a pedido expresso à direção, com justificação da escolha. No mesmo ano, um cidadão congolês interpôs em Bruxelas um processo com vista à interdição da venda da obra, alegando tratar-se de "uma justificação da colonização e da supremacia branca", mas em 2012 o tribunal acabou por rejeitar tal pretensão. Na Suécia e na Grã-Bretanha processos com o mesmo objectivo conheceriam idêntico desfecho, mas a incomodidade não desapareceu por decreto. O livro é recorrentemente encarado como um veículo do colonialismo europeu, com visões estereotipadas e ofensivas das populações africanas. De resto, acusações de reaccionarismo e preconceito são frequentemente extensivas ao primeiro álbum, Tintin no País dos Sovietes, em que, aos olhos de muitos, Hergé não se dá ao trabalho de esconder o mais primário anticomunismo.

João Paulo Cotrim compreende a perturbação, não a menoriza, mas não considera que tal seja razão para "cancelar" Hergé ou Tintin: "Não há que esconder os aspetos polémicos. Eu percebo a incomodidade, mas não me parece que a censura seja aceitável. Vamos lá discutir isto e pôr em contexto". Hergé, frisa, não é sempre o mesmo, evoluiu, como homem da sua época: " Na década de 1930, como tantos europeus ocidentais, ele era desconfiado face à revolução bolchevique e é racista num certo sentido, mesmo colonialista, como tantos dos seus concidadãos. Mas, ao longo do tempo, isto foi sendo apurado e limpo da obra. Se virmos Tintin na América com atenção encontramos uma denúncia do capitalismo e se lermos Tintin no Tibete vemos um elogio extraordinário à amizade. Se tivermos de fazer um equilíbrio, o que vale a pena ganha de longe ao que é mais lamentável." Quando fala em méritos, Cotrim não hesita em falar de qualidade literária e gráfica, já que Hergé, é sabido, era um perfeccionista: "O escritor Mário de Carvalho costuma dizer, com muita graça e talvez com algum exagero, que foi com o Tintim que aprendeu tudo sobre a construção da narrativa. E, na verdade, todas as personagens são muito bem desenhadas, completamente tridimensionais, com mecanismos narrativos muito bem equilibrados."

Consciente de que as leituras contemporâneas de Tintin não são uma brincadeira de crianças, a Gulbenkian preparou uma série de iniciativas paralelas sobre a receção, também política e ideológica de Tintin, em Portugal e não só. Entre elas, um ciclo de conferências intitulado "Hergé no Mundo Contemporâneo". A primeira, que se realizará a 12 de Novembro, tratará o tema (talvez inesperado para alguns) "Hergé e o Portugal do Estado Novo".

in DN

domingo, 26 de setembro de 2021

Originais de Tintin mostrados pela primeira vez em Portugal

A Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, vai acolher, a partir de dia 1 de outubro, uma exposição dedicada ao criador de Tintin, intitulada "Hergé".

Natural de Etterbeek, na Bélgica, onde nasceu a 22 de maio de 1907, Georges Prosper Remi ficou mais conhecido pelo pseudónimo de Hergé, obtido com a inversão das iniciais do seu nome, um R e um G. Foi com ele que, a partir de 10 de janeiro de 1929, assinou uma das séries de banda desenhada mais famosas de sempre: "As aventuras de Tintin". Protagonizadas por um repórter que raramente foi visto a escrever para jornais, até 3 de março de 1983, data de falecimento do autor, contabilizaram 23 álbuns, mais um incompleto. Graças ao talento narrativo de Hergé, um verdadeiro romancista em banda desenhada, à extrema legibilidade do seu estilo, designado por "linha clara", aos valores da amizade e da entreajuda que sempre defendeu, à aventura em estado puro que predomina nos álbuns, à magnífica galeria de personagens e à diversidade dos relatos, que fizeram Tintin percorrer quase todo o planeta e chegar mesmo à Lua, mais de duas décadas antes de Neil Armstrong, os álbuns de Tintin fizeram sonhar sucessivas gerações, um pouco por todo o mundo.

A partir de dia 1 de outubro, numa colaboração com o Museu Hergé, em Louvain-la-Neuve, em França, será possível visitar em Lisboa, na Fundação Calouste Gulbenkian, uma exposição que revela as diversas facetas do autor, da ilustração à banda desenhada, passando pela publicidade, a imprensa, o desenho de moda e as artes plásticas.

Será a primeira vez que pranchas originais de Hergé poderão ser vistas no nosso país, bem algumas das suas pinturas e diversa documentação do arquivo que utilizava como base para a criação dos livros.

A mostra está dividida em nove núcleos: "Grandeza da arte menor", "Hergé, o amante de arte", "O romancista da imagem", "O êxito e a tormenta", "Uma família de papel", "Hergé e a revista 'Coeurs Vaillants'", "A arte do reclame", "A lição do Oriente" e "O nascimento de um mito".

Através deles, o visitante será guiado não só pela obra do mestre dos quadradinhos, mas também pelas suas influências externas, da pintura à arte moderna, passando pelo importante encontro com Tchang Tchong-Jen que mudou a sua forma de encarar a produção. Neles, será igualmente possível revisitar uma parte da História do século XX, através das aventuras de Tintin, do seu nascimento em "Le Petir Vingtième" ao período conturbado da ocupação da França pelos nazis, da passagem dos álbuns a preto e branco para os coloridos ou da criação da revista com o seu nome.

O olhar de Hergé sobre a forma como as suas bandas desenhadas eram reproduzidas noutros países - e Portugal foi o primeiro a publicar Tintin a cores, no "Papagaio" -, a família de papel que ele criou e as suas facetas menos conhecidas de publicista e desenhador de moda poderão também ser apreciadas nesta mostra que ficará patente até dia 10 de janeiro de 2022.

No dia 1 de outubro, aquando da inauguração, terá lugar a conferência "O futuro de Tintin", com a presença de Nick Rodwell, marido da viúva do desenhador, diretor dos Studios Hergé e responsável pela gestão do seu legado, que poderá esclarecer o que está previsto para o preservar e manter vivo, sabendo-se que Hergé recusou que os seus heróis fossem retomados por outros após a sua morte.

in Jornal de Notícias

sábado, 25 de setembro de 2021

Tintin Entre Os Bárbaros

     


Em 1959, Tintin partiu para os Himalaias em busca do seu amigo Tchang, dado como morto num acidente aéreo mas que o repórter pressentia estar vivo e em dificuldades. Guiado somente por um sonho, a intuição e a amizade ao jovem chinês, Tintin no Tibete é a sua 20.ª aventura e a preferida do criador belga Hergé. Trata-se, a todos os níveis, de uma história notável e é indiscutivelmente uma obra-prima da arte em qualquer dos seus domínios. O enredo, de uma pungência, simplicidade e delicadeza extremas, entrelaça alguns dos mais edificantes valores humanos, personificados desde sempre por Tintin mas aqui condensados e postos ao serviço de um drama mais profundo e essencial. A cada página, os sentimentos são postos à prova, questionados, revolvidos; as fraquezas e os paradoxos das personagens vão-se sucedendo, revelando as contradições com que todos nós, afinal, nos cruzamos amiúde pela vida fora; os diálogos com o leitor sobrepõem-se tira a tira, alimentando a dúvida, a curiosidade, o desespero, a comoção, a esperança, suportados por uma tenaz força de carácter.

     A viagem com Tintin ao Tibete revelou um Hergé mais sensível e, até certo ponto, mais exposto. As imensas paisagens de neve retratadas com minúcia e rigor transmitem, mais do que a candura do branco, a transparência das qualidades que ele ainda deposita no ser humano. É a sua “ode à amizade”, como lhe chama o artista, mas vai além disso. O amor entre dois rapazes (fraternal ou nem por isso – Hergé era demasiado pudico para clarificá-lo) deveria servir de exemplo a muitos dos activistas actuais. O respeito pelas minorias e o desprezo, irónico mas cru, pelo civilizador e colonizador homem branco (a cor dominante neste livro) dão quilómetros de avanço aos alegados defensores dos direitos humanos deste século, numa altura em que mal se falava no assunto e em que abordá-lo quase valia a proscrição. O apego à justiça social, a busca pela verdade a todo o custo, a intransigente defesa da liberdade individual e da autodeterminação dos povos e o insistente erguer de diálogos e pontes transformam Tintin num marco intemporal merecedor de integrar, por exemplo, os programas escolares de Cidadania. Nesta perspectiva, Tintin é, de facto, subversivo.

     Foi precisamente essa sua capacidade de subverter o sistema, minando-o de dentro para fora, que o transformou em herói de muitas gerações. A coragem com que enfrentava o poder, desmascarava os corruptos, defendia os mais fracos e reparava as injustiças, grandes e pequenas, faziam dele o exemplo a seguir. A sua verticalidade sempre se mostrou inabalável, servindo de farol condutor pelos escolhos e espinhos ao longo da vida. Nunca os seus leitores puderam invocá-lo para justificar os próprios erros, as decisões mal formadas, os desvios. É claro que nem tudo são rosas nos 23 álbuns protagonizados pelo jovem repórter. Hervé cometeu lapsos de que se foi penitenciando com o passar dos anos, que se tornaram mais evidentes com o crescimento, a evolução e o aperfeiçoamento das narrativas posteriores e que só lhe foram assacados pela cada vez maior precisão e perfeição da sua obra. Mas até nisso Tintin subverte o cânone e fura o establishment.

     Entretanto, no Canadá, em 2021, grupos de activistas (dos direitos humanos?) promovem autos-de-fé para queimar livros que classificam de reaccionários, racistas ou colonialistas. Entre centenas de títulos estão o Asterix, o Lucky Luke, a Pocahontas e, claro, o Tintin. Ao mesmo tempo, bibliotecas públicas e escolares decidiram também banir esses volumes das suas prateleiras. Mais grave ainda é a complacência – ou seja, a cumplicidade – do primeiro-ministro, Justin Trudeau, em todo este processo. E não é de admirar. Trudeau é um dos icónicos representantes da classe política contemporânea: sem ideias, sem visão, sem horizontes, sobeja-lhe a ambição e a vaidade, que alimenta abraçando as causas de grupos onde espera angariar simpatizantes e, por conseguinte, votos. A nível interno, adquiriu tiques autoritários, tão comuns em estadistas medíocres; a nível externo, vai submetendo o Canadá às vontades dos poderosos, retocando a pintura com discursos de vitórias e vantagens que existem apenas na sua cabeça. Mandou agora, quase secretamente, construir centros de internamento (compulsivo, presume-se) para vítimas de fenómenos pandémicos, mas a arquitectura escolhida, a lembrar Auschwitz, não augura nada que fuja à sua pequenez mental. Um exemplo de como “o fraco rei faz fraca a forte gente” (Camões).

     E por falar em Camões… Em Portugal, também já se anunciam autos-de-fé. E até já se começaram a fazer listas de nomes. O autor d’ Os Lusíadas, claro, mas também António Vieira, Eça de Queiroz ou Fernando Pessoa. De repente, voltamos a ser um país de Dantas. Em cem anos, não progredimos um dia. Estamos nisto. Um país que não sabe ler, não quer ler, não gosta de ler e odeia aqueles que lêem. Um país em que muitos professores mal sabem escrever, poucos lêem e o que lêem são incapazes de interpretar. Um país de políticos carreiristas e formalmente iletrados. Um país de bárbaros. Um mundo de bárbaros. E destes já nem o Tintin nos consegue salvar.

Victor Alves, Ponta Delgada, 19/09/2021

[PUBLICAÇÃO AO ABRIGO DO N.º 1 DO ARTIGO 37.° DA C.R.P.]

quinta-feira, 23 de setembro de 2021

Lisboa vai receber uma exposição gigante sobre o autor de “Tintin”

Pela primeira vez, Portugal vai receber uma grande retrospectiva sobre Georges Remi, o artista conhecido como Hergé, que é mais conhecido por ser o autor da banda desenhada de “Tintin”. A exposição vai ser inaugurada a 1 de Outubro no Museu Calouste Gulbenkian, em Lisboa, e por lá fica até 10 de Janeiro de 2022.

A mostra é organizada em colaboração com o Museu Hergé de Louvain-la-Neuve e reúne uma seleção de documentos, desenhos originais e várias obras, que podem ir da BD à publicidade, passando pelo desenho de moda, artes plásticas ou trabalhos para a imprensa.

O que torna a arte de Hergé única e a distingue da de muitos outros autores de banda desenhada é a sua extraordinária capacidade de representar a realidade por um lado, de uma forma inventiva, mas por outro, tão familiar que o leitor pode facilmente projetar-se neste universo criado a partir do zero. Com linhas simples de uma impressionante precisão, sob o estandarte da inimitável ‘linha clara’, Hergé dá origem a personagens emblemáticas que encarnam os grandes valores da sociedade”, descreve a Gulbenkian sobre o foco da exposição.

Vai poder ser visitada segunda-feira, quarta-feira, quinta-feira, sábado e domingo, das 10 às 18 horas. À sexta o museu fica aberto até mais tarde, por volta das 21 horas, e à terça-feira encerra mesmo. Os bilhetes vão custar 5€, sendo que os portadores de cartão de estudante terão entrada gratuita às sextas-feiras, entre as 18 e as 21 horas. No site oficial de “Tintin”, é relatada a história da ligação da saga a Portugal.

In NiT

sexta-feira, 17 de setembro de 2021

Exposição Tintin na Gulbenkian

Após ser inaugurada em Paris e passar por Quebec, Odense e Seúl, a exposição 'HERGÉ' fixa-se Lisboa, nas instalações da Fundação Calouste Gulbenkian.