sábado, 2 de outubro de 2021
Catálogo da Exposição Hergé em Portugal
No âmbito da exposição Hergé, a decorrer na Fundação Calouste Gulbenkian em Lisboa, foi editado a versão portuguesa do Catálogo da exposição, contendo uma surpreendente separata intitulada "Hergé em Portugal".
sexta-feira, 1 de outubro de 2021
quarta-feira, 29 de setembro de 2021
Tintin no país do fado
Tintin, Milou e Haddock são algumas das personagens com que o visitante da Gulbenkian se poderá cruzar a partir desta sexta-feira. A exposição "Hergé" trá-los na bagagem, à mistura com muitas surpresas (algumas bem controversas) sobre a vida e obra do ilustrador belga.
"Com mil milhões de demónios!", exclamaria o capitão Haddock se, por um destes dias, passasse à porta da Fundação Gulbenkian, em Lisboa. Isto porque a partir de sexta-feira, 1 de Outubro, e até 10 de Janeiro, o lugar onde estamos habituados a admirar grandes nomes da arte mundial dará a ver o trabalho do ilustrador e desenhador de banda desenhada Georges Prosper Rémi, vulgo Hergé, também conhecido como "o pai de Tintin".
Organizada em colaboração com o Museu Hergé da cidade belga de Louvain-la-Neuve, "Hergé" (que já esteve patente no Grand Palais, em Paris, no outono de 2016) traz ao conhecimento do público português uma importante selecção de materiais (pranchas originais, pinturas, fotografias e documentos de arquivo) e obras criadas pelo autor. Ao longo de nove núcleos, é-nos proporcionada uma visão poliédrica do trabalho de Hergé, mas também de toda a complexidade da sua biografia e dos tempos conturbados em que viveu (1907-1983). Tudo razões para que João Paulo Cotrim, editor da Abysmo e antigo diretor da Bedeteca de Lisboa, recomende uma visita atenta à exposição. "Faltar-lhe-á talvez um núcleo sobre a ligação de Tintin a Portugal, que é mais importante do que as pessoas pensam", salienta.
Hergé e Portugal
Recuemos a esses anos marcados pela estética modernista, em que novas artes, como o Cinema e a Banda Desenhada, serviam de laboratório à procura de linguagens mais adequadas ao mundo saído da Primeira Guerra Mundial. O Portugal de Almada Negreiros e Pessoa tornar-se-ia decisivo para a carreira internacional do jovem repórter de poupa à prova de hecatombes, sendo o primeiro país não francófono a publicar as suas aventuras. A estreia mundial dera-se a 10 de Janeiro de 1929, no suplemento infantil Le Petit Vingtième, do jornal belga Le Vingtième Siécle, e Portugal não tardaria a publicar essas primeiras tiras no jornal infantil O Papagaio, graças aos esforços do escritor e grande divulgador de literatura para crianças e jovens, Adolfo Simões Muller (1909-1989). João Paulo Cotrim nota, aliás, que essa ligação seria continuada no tempo já que, em plena Segunda Guerra Mundial, Muller, preocupado com a situação de Hergé e sua família na Bélgica ocupada pelos alemães, lhe há-de enviar uma considerável quantidade de latas de conserva. "Seria interessante saber onde pára a correspondência trocada entre ambos, sobretudo nesse período tão difícil", sugere.
Esses eram ainda os tempos das primeiras aventuras de Tintin e seu cão Milou no país dos sovietes (álbum de 1930) ou no Congo (um ano mais tarde), justamente aquelas que, nos últimos anos, têm vindo a ser mais questionadas pelo seu teor ideológico. Portugal publicou-as ("dando-lhes até cor, ainda de forma incipiente", diz João Paulo Cotrim), como publicaria outras, já do pós-Segunda Guerra Mundial, muito mais sofisticadas e maduras. Tintin seria, aliás, o título de uma popular revista de banda desenhada portuguesa: publicada entre 1968 e 1982, destinava-se, como se lia no cabeçalho a "jovens dos 7 aos 77 anos", teve como directores Dinis Machado e Vasco Granja e, para além de publicar aventuras do herói que lhe dava o título, incluía histórias de Spirou, Michel Vaillant ou Hugo Pratt.
O impacto nas artes e na cultura
Sempre metidos em peripécias nos lugares mais inesperados, do Congo colonial à China, passando pela América e até mesmo pela Lua, Tintin, Milou, o capitão Haddock, o professor Tournesol, a cantora Castafiore ou os inefáveis detetives Dupond e Dupont constituem uma galeria de personagens com forte impacto no imaginário de várias gerações de leitores. Mais do que isso, tem sido objecto de tratamento e estudo por parte de artistas plásticos ou até de ensaístas como Roland Barthes. Mais recentemente, em 2006, o escritor britânico Tom McCarthy dedicou-lhe o livro Tintin and the Secret of Literature, em que, partindo da leitura de Barthes, relaciona a personagem com a biografia de Hergé e com vários clássicos do cânone literário europeu, nomeadamente na abordagem de temas de sempre como a luta entre o bem e o mal, a amizade e a traição. Mas se estas leituras, pela sua natureza, ficaram encerradas no debate académico, o mesmo não aconteceu com a biografia assinada pelo jornalista e escritor Pierre Assouline (autor de biografias de personagens muito marcantes da vida cultural francesa como o editor Gaston Gallimard ou o fotógrafo Cartier-Bresson) . Embora não se considerasse propriamente um tintinófilo (termo aplicados aos apaixonados pela personagem, que não são poucos), Assouline avançou para os arquivos mas cedo compreendeu que ia causar desgostos a esse público fiel.
Na verdade, o que o biógrafo nos mostra, nesse livro de 1996, é um Hergé politicamente muito incorreto, leia-se mesmo reacionário e preconceituoso. Numa entrevista concedida na época, o autor admitiria: "Há facetas difíceis de aceitar: o seu antissemitismo, o seu confesso desamor pelas crianças, o seu passado de colaborador com os nazis. Por volta de 1948, 1950, estava tão mal visto na Bélgica e França, que ofereceu os seus serviços a Walt Disney, que os recusou. Depois, chegou a encarar a ideia de se refugiar na Argentina, para onde partiam muitos nazis a contas com a justiça na Europa..."
Depois disso, as releituras de Hergé e do seu Tintin (sobretudo em tempos de cancel culture) têm-se revelado difíceis. Em foco estão sobretudo as primeiras aventuras, publicadas na década de 1930. Em 2007, a Biblioteca Pública de Brooklyn, Nova Iorque, retirou das estantes a segunda aventura de Tintin (Tintin no Congo), tornando-se a sua consulta sujeita a pedido expresso à direção, com justificação da escolha. No mesmo ano, um cidadão congolês interpôs em Bruxelas um processo com vista à interdição da venda da obra, alegando tratar-se de "uma justificação da colonização e da supremacia branca", mas em 2012 o tribunal acabou por rejeitar tal pretensão. Na Suécia e na Grã-Bretanha processos com o mesmo objectivo conheceriam idêntico desfecho, mas a incomodidade não desapareceu por decreto. O livro é recorrentemente encarado como um veículo do colonialismo europeu, com visões estereotipadas e ofensivas das populações africanas. De resto, acusações de reaccionarismo e preconceito são frequentemente extensivas ao primeiro álbum, Tintin no País dos Sovietes, em que, aos olhos de muitos, Hergé não se dá ao trabalho de esconder o mais primário anticomunismo.
João Paulo Cotrim compreende a perturbação, não a menoriza, mas não considera que tal seja razão para "cancelar" Hergé ou Tintin: "Não há que esconder os aspetos polémicos. Eu percebo a incomodidade, mas não me parece que a censura seja aceitável. Vamos lá discutir isto e pôr em contexto". Hergé, frisa, não é sempre o mesmo, evoluiu, como homem da sua época: " Na década de 1930, como tantos europeus ocidentais, ele era desconfiado face à revolução bolchevique e é racista num certo sentido, mesmo colonialista, como tantos dos seus concidadãos. Mas, ao longo do tempo, isto foi sendo apurado e limpo da obra. Se virmos Tintin na América com atenção encontramos uma denúncia do capitalismo e se lermos Tintin no Tibete vemos um elogio extraordinário à amizade. Se tivermos de fazer um equilíbrio, o que vale a pena ganha de longe ao que é mais lamentável." Quando fala em méritos, Cotrim não hesita em falar de qualidade literária e gráfica, já que Hergé, é sabido, era um perfeccionista: "O escritor Mário de Carvalho costuma dizer, com muita graça e talvez com algum exagero, que foi com o Tintim que aprendeu tudo sobre a construção da narrativa. E, na verdade, todas as personagens são muito bem desenhadas, completamente tridimensionais, com mecanismos narrativos muito bem equilibrados."
Consciente de que as leituras contemporâneas de Tintin não são uma brincadeira de crianças, a Gulbenkian preparou uma série de iniciativas paralelas sobre a receção, também política e ideológica de Tintin, em Portugal e não só. Entre elas, um ciclo de conferências intitulado "Hergé no Mundo Contemporâneo". A primeira, que se realizará a 12 de Novembro, tratará o tema (talvez inesperado para alguns) "Hergé e o Portugal do Estado Novo".
in DN
domingo, 26 de setembro de 2021
Originais de Tintin mostrados pela primeira vez em Portugal
Natural de Etterbeek, na Bélgica, onde nasceu a 22 de maio de 1907, Georges Prosper Remi ficou mais conhecido pelo pseudónimo de Hergé, obtido com a inversão das iniciais do seu nome, um R e um G. Foi com ele que, a partir de 10 de janeiro de 1929, assinou uma das séries de banda desenhada mais famosas de sempre: "As aventuras de Tintin". Protagonizadas por um repórter que raramente foi visto a escrever para jornais, até 3 de março de 1983, data de falecimento do autor, contabilizaram 23 álbuns, mais um incompleto. Graças ao talento narrativo de Hergé, um verdadeiro romancista em banda desenhada, à extrema legibilidade do seu estilo, designado por "linha clara", aos valores da amizade e da entreajuda que sempre defendeu, à aventura em estado puro que predomina nos álbuns, à magnífica galeria de personagens e à diversidade dos relatos, que fizeram Tintin percorrer quase todo o planeta e chegar mesmo à Lua, mais de duas décadas antes de Neil Armstrong, os álbuns de Tintin fizeram sonhar sucessivas gerações, um pouco por todo o mundo.
A partir de dia 1 de outubro, numa colaboração com o Museu Hergé, em Louvain-la-Neuve, em França, será possível visitar em Lisboa, na Fundação Calouste Gulbenkian, uma exposição que revela as diversas facetas do autor, da ilustração à banda desenhada, passando pela publicidade, a imprensa, o desenho de moda e as artes plásticas.
Será a primeira vez que pranchas originais de Hergé poderão ser vistas no nosso país, bem algumas das suas pinturas e diversa documentação do arquivo que utilizava como base para a criação dos livros.
A mostra está dividida em nove núcleos: "Grandeza da arte menor", "Hergé, o amante de arte", "O romancista da imagem", "O êxito e a tormenta", "Uma família de papel", "Hergé e a revista 'Coeurs Vaillants'", "A arte do reclame", "A lição do Oriente" e "O nascimento de um mito".
Através deles, o visitante será guiado não só pela obra do mestre dos quadradinhos, mas também pelas suas influências externas, da pintura à arte moderna, passando pelo importante encontro com Tchang Tchong-Jen que mudou a sua forma de encarar a produção. Neles, será igualmente possível revisitar uma parte da História do século XX, através das aventuras de Tintin, do seu nascimento em "Le Petir Vingtième" ao período conturbado da ocupação da França pelos nazis, da passagem dos álbuns a preto e branco para os coloridos ou da criação da revista com o seu nome.
O olhar de Hergé sobre a forma como as suas bandas desenhadas eram reproduzidas noutros países - e Portugal foi o primeiro a publicar Tintin a cores, no "Papagaio" -, a família de papel que ele criou e as suas facetas menos conhecidas de publicista e desenhador de moda poderão também ser apreciadas nesta mostra que ficará patente até dia 10 de janeiro de 2022.
No dia 1 de outubro, aquando da inauguração, terá lugar a conferência "O futuro de Tintin", com a presença de Nick Rodwell, marido da viúva do desenhador, diretor dos Studios Hergé e responsável pela gestão do seu legado, que poderá esclarecer o que está previsto para o preservar e manter vivo, sabendo-se que Hergé recusou que os seus heróis fossem retomados por outros após a sua morte.
sábado, 25 de setembro de 2021
Tintin Entre Os Bárbaros
Em 1959, Tintin partiu para os Himalaias em busca do seu amigo Tchang, dado como morto num acidente aéreo mas que o repórter pressentia estar vivo e em dificuldades. Guiado somente por um sonho, a intuição e a amizade ao jovem chinês, Tintin no Tibete é a sua 20.ª aventura e a preferida do criador belga Hergé. Trata-se, a todos os níveis, de uma história notável e é indiscutivelmente uma obra-prima da arte em qualquer dos seus domínios. O enredo, de uma pungência, simplicidade e delicadeza extremas, entrelaça alguns dos mais edificantes valores humanos, personificados desde sempre por Tintin mas aqui condensados e postos ao serviço de um drama mais profundo e essencial. A cada página, os sentimentos são postos à prova, questionados, revolvidos; as fraquezas e os paradoxos das personagens vão-se sucedendo, revelando as contradições com que todos nós, afinal, nos cruzamos amiúde pela vida fora; os diálogos com o leitor sobrepõem-se tira a tira, alimentando a dúvida, a curiosidade, o desespero, a comoção, a esperança, suportados por uma tenaz força de carácter.
A viagem com Tintin ao Tibete revelou um Hergé mais sensível e, até certo ponto, mais exposto. As imensas paisagens de neve retratadas com minúcia e rigor transmitem, mais do que a candura do branco, a transparência das qualidades que ele ainda deposita no ser humano. É a sua “ode à amizade”, como lhe chama o artista, mas vai além disso. O amor entre dois rapazes (fraternal ou nem por isso – Hergé era demasiado pudico para clarificá-lo) deveria servir de exemplo a muitos dos activistas actuais. O respeito pelas minorias e o desprezo, irónico mas cru, pelo civilizador e colonizador homem branco (a cor dominante neste livro) dão quilómetros de avanço aos alegados defensores dos direitos humanos deste século, numa altura em que mal se falava no assunto e em que abordá-lo quase valia a proscrição. O apego à justiça social, a busca pela verdade a todo o custo, a intransigente defesa da liberdade individual e da autodeterminação dos povos e o insistente erguer de diálogos e pontes transformam Tintin num marco intemporal merecedor de integrar, por exemplo, os programas escolares de Cidadania. Nesta perspectiva, Tintin é, de facto, subversivo.
Foi precisamente essa sua capacidade de subverter o sistema, minando-o de dentro para fora, que o transformou em herói de muitas gerações. A coragem com que enfrentava o poder, desmascarava os corruptos, defendia os mais fracos e reparava as injustiças, grandes e pequenas, faziam dele o exemplo a seguir. A sua verticalidade sempre se mostrou inabalável, servindo de farol condutor pelos escolhos e espinhos ao longo da vida. Nunca os seus leitores puderam invocá-lo para justificar os próprios erros, as decisões mal formadas, os desvios. É claro que nem tudo são rosas nos 23 álbuns protagonizados pelo jovem repórter. Hervé cometeu lapsos de que se foi penitenciando com o passar dos anos, que se tornaram mais evidentes com o crescimento, a evolução e o aperfeiçoamento das narrativas posteriores e que só lhe foram assacados pela cada vez maior precisão e perfeição da sua obra. Mas até nisso Tintin subverte o cânone e fura o establishment.
Entretanto, no Canadá, em 2021, grupos de activistas (dos direitos humanos?) promovem autos-de-fé para queimar livros que classificam de reaccionários, racistas ou colonialistas. Entre centenas de títulos estão o Asterix, o Lucky Luke, a Pocahontas e, claro, o Tintin. Ao mesmo tempo, bibliotecas públicas e escolares decidiram também banir esses volumes das suas prateleiras. Mais grave ainda é a complacência – ou seja, a cumplicidade – do primeiro-ministro, Justin Trudeau, em todo este processo. E não é de admirar. Trudeau é um dos icónicos representantes da classe política contemporânea: sem ideias, sem visão, sem horizontes, sobeja-lhe a ambição e a vaidade, que alimenta abraçando as causas de grupos onde espera angariar simpatizantes e, por conseguinte, votos. A nível interno, adquiriu tiques autoritários, tão comuns em estadistas medíocres; a nível externo, vai submetendo o Canadá às vontades dos poderosos, retocando a pintura com discursos de vitórias e vantagens que existem apenas na sua cabeça. Mandou agora, quase secretamente, construir centros de internamento (compulsivo, presume-se) para vítimas de fenómenos pandémicos, mas a arquitectura escolhida, a lembrar Auschwitz, não augura nada que fuja à sua pequenez mental. Um exemplo de como “o fraco rei faz fraca a forte gente” (Camões).
E por falar em Camões… Em Portugal, também já se anunciam autos-de-fé. E até já se começaram a fazer listas de nomes. O autor d’ Os Lusíadas, claro, mas também António Vieira, Eça de Queiroz ou Fernando Pessoa. De repente, voltamos a ser um país de Dantas. Em cem anos, não progredimos um dia. Estamos nisto. Um país que não sabe ler, não quer ler, não gosta de ler e odeia aqueles que lêem. Um país em que muitos professores mal sabem escrever, poucos lêem e o que lêem são incapazes de interpretar. Um país de políticos carreiristas e formalmente iletrados. Um país de bárbaros. Um mundo de bárbaros. E destes já nem o Tintin nos consegue salvar.
Victor Alves, Ponta Delgada, 19/09/2021
[PUBLICAÇÃO AO ABRIGO DO N.º 1 DO ARTIGO 37.° DA C.R.P.]
quinta-feira, 23 de setembro de 2021
Lisboa vai receber uma exposição gigante sobre o autor de “Tintin”
Pela primeira vez, Portugal vai receber uma grande retrospectiva sobre Georges Remi, o artista conhecido como Hergé, que é mais conhecido por ser o autor da banda desenhada de “Tintin”. A exposição vai ser inaugurada a 1 de Outubro no Museu Calouste Gulbenkian, em Lisboa, e por lá fica até 10 de Janeiro de 2022.
A mostra é organizada em colaboração com o Museu Hergé de Louvain-la-Neuve e reúne uma seleção de documentos, desenhos originais e várias obras, que podem ir da BD à publicidade, passando pelo desenho de moda, artes plásticas ou trabalhos para a imprensa.
“O que torna a arte de Hergé única e a distingue da de muitos outros autores de banda desenhada é a sua extraordinária capacidade de representar a realidade por um lado, de uma forma inventiva, mas por outro, tão familiar que o leitor pode facilmente projetar-se neste universo criado a partir do zero. Com linhas simples de uma impressionante precisão, sob o estandarte da inimitável ‘linha clara’, Hergé dá origem a personagens emblemáticas que encarnam os grandes valores da sociedade”, descreve a Gulbenkian sobre o foco da exposição.
Vai poder ser visitada segunda-feira, quarta-feira, quinta-feira, sábado e domingo, das 10 às 18 horas. À sexta o museu fica aberto até mais tarde, por volta das 21 horas, e à terça-feira encerra mesmo. Os bilhetes vão custar 5€, sendo que os portadores de cartão de estudante terão entrada gratuita às sextas-feiras, entre as 18 e as 21 horas. No site oficial de “Tintin”, é relatada a história da ligação da saga a Portugal.
In NiT
sexta-feira, 17 de setembro de 2021
Exposição Tintin na Gulbenkian
Após ser inaugurada em Paris e passar por Quebec, Odense e Seúl, a exposição 'HERGÉ' fixa-se Lisboa, nas instalações da Fundação Calouste Gulbenkian.
domingo, 12 de setembro de 2021
Momentos na Vida de Um Leitor de BD
Momentos Marcantes na Vida de Um Leitor de Banda Desenhada
Aqueles que têm a minha idade, ou cuja idade se aproxime da minha, lembram-se de como "banda desenhada" (um francesismo, já a demonstrar, só por si, alguma coisa) ou, melhor ainda, "BD" (acrónimo que, na esteira de Edmond Baudoin, me recuso a utilizar) era quase sinónimo, em Portugal, de banda desenhada comercial franco-belga. Repito o que já escrevi num destes posts: toda a banda desenhada é comercial, mas, tal como um aforismo célebre sublinha, se todos são iguais, uns são mais iguais do que outros e, portanto, se todas as banda desenhadas são comerciais, há bandas desenhadas bem mais comerciais do que outras. (...)
Voltando ao princípio: se recuarmos umas décadas encontramos João Paiva Boléo, no jornal Expresso, e Carlos Pessoa, no jornal Público, para quem Lucky Luke, Astérix e o inevitável Tintin eram quase tudo o que, com origem nos nortes europeus, merecia ser divulgado. Como se não bastasse, no "quase" acima só cabia o que as fábricas de bestsellers em França e na Bélgica iam debitando no mercado.
Nestas "Memórias de Um Desmemoriado" estou, mais uma vez, à mercê da dedução porque, claro, não me lembro de todo de como consegui ultrapassar a propaganda monopolista da comunicação social, leia-se, jornais, porque, para o resto, leia-se, televisão, a banda desenhada não existe. (...)
DOMINGOS ISABELINHO, 10/12/2020
Comentários ao post por Daniel e pelo autor (DI):
O João Paiva Boléo não escrevia apenas sobre o que estava nas prateleiras. Na verdade, o pouco que ia sendo editado em Portugal era até sistematicamente ignorado em favor de edições estrangeiras (franco-belgas) que dificilmente poderiam chegar às mãos dos leitores, dados os preços proibitivos que a Destarte praticava, a falta de poder económico da maioria dos leitores e a falta de de informação de qualidade na imprensa. Como tal, nunca percebi o que andava o dito «crítico» a fazer no Expresso. Contudo, não há dúvida de que o decréscimo de qualidade em relação a Paulo Pereira foi evidente. Ainda assim, e se a memória não me atraiçoa (já me livrei desses recortes de jornal há bem mais de uma década) foi pela pena de João Paiva Boléo que tive conhecimento da existência de Baudoin. Mas também me recordo de que as suas sugestões para as leituras de Verão eram uma parada de horrores capazes de chocar até um ignorante como eu.
A minha primeira verdadeira abertura de horizontes deu-se com a requisição do catálogo da exposição «A Arquitectura na Banda Desenhada», da Gulbenkian, na biblioteca municipal de Coimbra.
A segunda deu-se com a descoberta do programa de João Miguel Lameiras e João Ramalho Santos na Rádio Universidade de Coimbra. Achei estranho o quão curto era o tempo de antena dedicado à BD europeia que ia aparecendo nas livrarias. Só então percebi que a BD americana não era apenas super-heróis e que os quiosques eram um circuito de distribuição que eu nunca deveria ter ignorado. Por outro lado, o técnico do programa, Amândio Duarte, que na altura trabalhava na Livraria Finisterra, teve a sensibilidade (além da paciência, disponibilidade, simpatia e uma excelente rede de contactos) para perceber que aquele chato que ia lá regularmente, mas raramente comprava livros, procurava na verdade algo de diferente. Foi ele que me pôs na mão o primeiro exemplar do Quadrado, e convenceu-mo a comprá-lo com a absoluta convicção de que aquele seria o meu ponto de partida.
Daniel, 13/12/2020
Obrigado pelo testemunho, Daniel! As nossas experiências são pessoais e intransmissíveis e essas são as suas.
Na verdade, como escrevi num dos primeiros posts desta série, fiquei a dever a João Paiva Boléo ter conhecido Manuel Caldas. Acho que ele é bem capaz de ter sido o responsável indirecto pela minha carreira de crítico. Fica aqui uma lista dos textos de J.P. Boléo sobre banda desenhada franco-belga entre 1989 e meados de 1993 (devia avançar pelo menos até 1997 para corresponder à time frame do post, e talvez o faça, mas, de momento é o que tenho): Hergé, 60 Anos (7/1/89), Hergé (16/6/89), Astérix (20/10/89), E. P. Jacobs (22/9/90), Brüsel (7/8/93). Como se vê, não foge ao infanto-juvenil franco-belga e tudo isto se podia encontrar facilmente em edições portuguesas.
Domingos Isabelinho, 13/12/2020
Creio que os exemplos que deu são artigos na Revista e tenho memória deles (e de mais alguns, incluindo um sobre banda desenhada japonesa, que foi a primeira coisa que li sobre o assunto).
Mas acho que me fiz entender mal. Concordo que a divulgação de João Paiva Boléo era quase sempre de banda desenhada comercial (e às vezes era mesmo da mais rasteira). O que afirmei em relação ao que ele escrevia sobre a banda desenhada estrangeira era uma ironia. As edições estrangeiras que divulgava eram, regra geral, tão fraquinhas como as portuguesas. Como tal, não havia qualquer motivo lógico para o fazer. E tenho em conta que raramente escrevia, a opção por edições que só meia dúzia de pessoas conhecia era, no mínimo, insólita. Pouco li o Público, mas pareceu-me que o Carlos Pessoa, cujos gostos seguiam a mesma veia, pelo menos tinha um plano de trabalho.
Daniel, 13/12/2020
+
"Aristophane was a better artist than Jack Kirby, obviously. Joost Swarte is better than Hergé. (Domingos Isabelinho)
Nothing is obvious, ever, but, in this case, even less so. That is why I want to explain myself.
First of all I mean "artists" not "craftsmen." This is an important distinction and I bet that my scarce readers, enlightened as they are, misunderstood me. Anyway, what, in my humble opinion, did Aristophane and Joost Swarte do so well and what did Jack Kirby and Hergé do so poorly?
(...)
Georges Remi (Hergé), "Tintin au Congo" [Tintin in the Congo], le petit "Vingtième," November 20, 1930. A racist blackface minstrel character.
Georges Remi (Hergé), "Tintin en Amérique" [Tintin in America], le petit "Vingtième," September 29, 1932. Racist "yellow peril" characters.
Georges Remi (Hergé), "Le Lotus Bleu" [The Blue Lotus], le petit "Vingtième," December 6, 1934. A racist buck teeth, pig-nosed, Japanese character.
Georges Remi (Hergé), "L'étoile mystérieuse" [The Shooting Star], Le Soir [a Nazi newspaper in occupied Belgium!], November 19, 1941. Racist Anti-semitic characters while Jews were chased all over Europe.
Apart from these racist representations Hergé's world is Manichean and misogynous. In time he got fedup with these simplistic representations of the world and tried to be a gallery painter. Unfortunately for him, he also failed in the intent. He did not fail, however, in creating an industry and becoming a very wealthy man. That is the ultimate success story in our value free, anything goes to make a buck, Western World...
In spite of all this I have some fondness for his bourgeois play (theatre de boulevard), Les bijoux de la Castafiore (The Castafiore Emerald) and for some of his clever formal devices, but that's about it...










