segunda-feira, 16 de agosto de 2021

Sérgio Luiz



Sérgio Luís Henriques de Almeida Fernandes, seu nome completo, nasceu a 20 de Setembro de 1921, na Praia da Granja, perto do Porto, por «acidente», já que toda a sua família é natural de Leiria. Desde muito novo mostrou a tendência para o desenho, aliás o que não era de admirar, pois seu pai era o famoso escultor e também professor de desenho, Luís Fernandes Carvalho e Reis.

Com 2/3 anos de idade já se mostrava interessado pelas revistas, recortando toda a qualidade de figuras que nelas via retratadas. Isto serviu-lhe de ajuda futuramente, pois que recortando as silhuetas que se lhe ofereciam aos seus olhos, permitiram, em pouco tempo e ao longo da sua curta vida, poder executar os seus trabalhos de desenho, já com uma certa qualidade estética.

Aos 4 anos de idade pintava aguarelas, que a sua mãe, hoje com 80 anos, conserva preciosamente. Notam-se nelas um certo movimento e a concepção da cor é notável para a idade. O tema é a pesca na Nazaré, numa altura em que seus pais passaram umas férias naquela praia.

Em Leiria onde residiam, Sérgio iniciou os seus estudos normais até à 4.ª classe e mais tarde o liceu. Aos 13 anos adoece, com uma doença que só mais tarde se detectou como tuberculose renal. Naquele tempo a medicina não possuía os recursos de hoje, pelo que foi uma vida de sofrimento que o esperava. Embora doente, conseguiu fazer o 6.º ano do liceu (naquele tempo só havia em Leiria o 6.º), com a média de 16 valores. Era o melhor aluno do liceu. Ir para engenharia era o seu sonho.

No liceu chegou a fazer conferências sobre a Arte, a convite dos professores e nelas deu já mostras da sua excelente qualidade de escritor, além de desenhador, pois elas eram acompanhadas de ilustrações que executava num quadro, para completa elucidação dos presentes.

Na altura em que acabou o liceu em Leiria, tinha 16 anos de idade e a sua saúde não era a melhor. A doença continuava a miná-lo. Teve que aguardar que seu irmão mais novo, o Guy, na altura no 5.º ano do liceu, acabasse os seus estudos, para que então toda a família pudesse vir para Lisboa. O Sérgio para continuar o seu tratamento, já que o médico o tinha proibido de prosseguir seus estudos e o Guy, precisamente para acabar o 7.º ano do Liceu.

Ainda em Leiria, lê um anúncio na revista infantil «O Papagaio», em que era solicitada a colaboração dos leitores. Sérgio mandou uns desenhos para Adolfo Simões Müller, director da revista, que rapidamente aceitou e pediu que enviasse mais.

Seu pai ajudou-o bastante, pois proporcionou-lhe todos os meios necessários para executar o que a sua capacidade criativa lhe ditasse. No entanto, Sérgio Luís não deixava de executar primeiro o trabalho do liceu e só depois se dedicava à sua actividade artística. E era, acima de tudo, extremamente metódico.

Sua colaboração para «O Papagaio» é na verdade razoável, pelo menos enquanto lhe permite a pouca saúde que dispõe.

Suas histórias mais famosas, isto já sem contar com a sua colaboração para «O Engenhocas» e para o «Pim-Pam-Pum», é a série «Aventuras de um Boneco Rebelde», que rapidamente alcança sucesso nos leitores da época.

Embora ainda jovem, suas concepções de prancha, ideias e temas das suas histórias, eram na verdade excepcionais, isto já sem salientar o seu arranjo gráfico.

Em Agosto de 1938, com 17 anos, vem para Lisboa com a família e cumpre os 18 anos, um mês depois.

Durante o resto da sua vida, distribuiu a sua actividade pela Banda Desenhada e dedica-se às actividades que mais lhe agradam, principalmente a música, de que gostava imenso. Não que se interessasse pela sua execução, unicamente lhe interessavam os artistas, os compositores e as árias de ópera ou sinfonias que conhecia de ouvido. Era um erudito em música, embora adolescente.

Monta um telescópio na sua casa, deliciando-se com a visão dos astros, a que se dedicava assiduamente.

Também monta um microscópio e mais tarde faz dois filmes de desenhos animados, sobre o Boneco Rebelde.

Um deles é projectado no cinema Europa, durante o intervalo. Trata-se de uma sequência de desenhos que serviram para a sua execução. Neles o «Boneco Rebelde» puxa da sua algibeira de um relógio que vai aumentando sistematicamente até que a personagem acaba por ficar para trás, enquanto os ponteiros vão surgindo e marcam o tempo que durará o intervalo. Para a elaboração destes filmes, criou um estúdio na dispensa da sua casa. Tudo foi organizado por si.

Durante este período poucas vezes sai de casa. Uma vez por outra ia ao cinema Europa ou ao Jardim da Parada, que ficava perto da casa que habitava em Campo de Ourique.

Tudo servia para o entreter e o seu saber, aliado a uma fecunda imaginação, permitiam-lhe mais facilmente suportar a doença que o afligia, sem que a sua irmã, a professora Lia Fernandes ou sua mãe, ouvissem da sua boca um queixume que fosse.

Infelizmente a doença encontrava-se já no seu desenlace fatal e enquanto ainda lhe restavam forças, montava um sistema de morse e dedicava-se às construções eléctricas, mas a 24 de Janeiro de 1943 morre com 21 anos de idade.

As últimas pranchas de uma das histórias do «Boneco Rebelde», que a revista «O Papagaio» apresentava naquela altura ao público leitor, foram publicadas postumamente até Maio daquele ano.

Carlos Gonçalves / CORREIO da BANDA DESENHADA, 01/03/1981

+ Coordenada pelo Clube Português de Banda Desenhada

domingo, 8 de agosto de 2021

O Egiptólogo


"O Boneco Rebelde" de Sérgio Luiz era quase uma versão portuguesa de Tim-Tim. O herói belga aparecera apenas três anos antes em "O Papagaio" e entra mesmo nas três folhas iniciais da primeira aventura do Boneco Rebelde.

Isso já era conhecido mas ao consultar o blog https://largodoscorreios.wordpress.com/2021/05/05/a-bd-vista-por-carlos-goncalves-115/ deparamos com um artigo sobre Sérgio Luiz e na imagem "A história do Egipto" percebe-se algumas ligações à obra de Hergé.

Aparece a personagem ainda sem nome (e que só a partir da versão colorida de 1955 passará a ser Philemon Siclone) e o símbolo da organização.

Foi a primeira prancha de Sérgio Luiz publicada em Dezembro de 1938.

Trata-se de uma história publicada pelo autor, onde assinava ainda Sérgio Fernandes, no Papagaio nº 190 de 1 de Dezembro de 1938. "O Papagaio" tinha publicado "Os Charutos do Faraó entre 24/06/1937 e 12/05/1938.

https://biblioteca.cm-amadora.pt/uploads/9f134daf72e4acc05acdef85c51286a2.pdf

Tintin visto por Sérgio e pelo irmão Guy Manuel na revista «O Papagaio» (António Dias de Deus):

#190; 1 Dezembro 1938; Intervenção do egiptólogo dos «Charutos do Faraó» na «História do Egipto; Sérgio Luiz

#199; 2 Fevereiro 1939; Banda Título; Tintim; Arcindo (Sérgio)

#224; 27 Julho 1939; Intervenção na BD «Aventuras do Boneco Rebelde; Tintim; Sérgio Luiz

#237; 26 Outubro 1939; Banda Título; Tintim e Milou; Guy Manuel

#244; 14 Dezembro 1939; Página dos leitores; Tintim e Milou; Sérgio Luiz (245?)

#251; 1 Fevereiro 1940; Capa; Tintim, Milou e os Dupond(t); Sérgio Luiz - Página dos Leitores;

#366; 16 Abril 1942; Capa; Tintim e Milou; Guy Manuel

mais alguma informação sobre os dois irmãos:

https://digitarq.adlra.arquivos.pt/details?id=1070935

O Papagaio - incluindo lista dos desenhadores portugueses com desenhos alusivos ao universo de Tim-Tim.

https://tintinofilo.weebly.com/o-papagaio.html



sexta-feira, 30 de julho de 2021

António Martinó


Com a lamentável caligrafia que jamais consegui corrigir, escrevi numa carta datada de 23 de Agosto de 1948, em Ermesinde, quando aí passava férias com o avô e o irmão, em casa da Tia Aurora: “Minha querida Mãezinha. Agora é a minha vez de escrever, mas não sei o que hei-de dizer.

Há tanto tempo já que não vejo nem Mosquitos, Diabretes e Camaradas. Mande dizer se já começou alguma história nova ou qualquer coisa engraçada que tenha vindo”…

Creio que este banal escrito resume com rigor as vivências pessoais dominantes. Os quadradinhos continuavam a marcar a minha vida.

Como que premiando esta fidelidade, O Diabrete devolver-me-ia em Março de 1949 o contacto com Tintin. Em vez de fragmentos soltos das suas aventuras nas Américas do Norte e do Sul, na China, no Oriente, em Angola e cá pela Europa, em especial na Escócia, agora viajaria com ele pela Bordúria e pela Sildávia, por terra e mar na busca do tesouro de Rackham, o Terrível, e envolvido no mistério das 7 Bolas de Cristal… 

Tinha perdido o vibrante colorido d’O Papagaio mas conquistado o direito às histórias continuadas semana a semana. Tim-Tim era o mesmo mas Rom-Rom tinha passado de cadela a cão… 

Pormenores, apenas.

https://largodoscorreios.wordpress.com/2018/05/07/pedagogia-aos-quadradinhos-memorias-dos-outros-tempos-nove/

O meu filho, que regularmente corre o mundo, sabe como poucos do meu gosto por estas coisas dos quadradinhos. Há uns anos, por exemplo, trouxe-me de Paris o fabuloso catálogo da mais completa exposição organizada sobre Hergé, na passagem dos 100 anos da sua vida e obra, um “cubo” densamente recheado de imagens e textos únicos que reflectem o que foi a mostra patente no Centre George Pompidou, entre Dezembro de 2006 e Fevereiro de 2007.

https://largodoscorreios.wordpress.com/2012/06/26/167/

loja

https://largodoscorreios.wordpress.com/2018/04/08/tintin-em-portugal/

https://largodoscorreios.wordpress.com/2018/05/02/tintin-em-lisboa/

colecao

https://largodoscorreios.wordpress.com/2016/02/14/para-os-amigos-arranja-se-sempre-um-cantinho/

CG

https://largodoscorreios.wordpress.com/2018/08/15/a-bd-vista-por-carlos-goncalves-cinquenta-e-tres/

camaradagens

https://largodoscorreios.wordpress.com/2015/01/15/camaradagens-03/

https://largodoscorreios.wordpress.com/2016/01/11/marcelices/

https://largodoscorreios.wordpress.com/2013/04/18/uma-data-de-datas-xxiii-o-papagaio/

quinta-feira, 22 de julho de 2021

80 Anos de Tintim - Lousã 2009


Exposição Museu Dr. Louza Henriques, Lousã 16/01/2009 - 15/02/2009
Organização Cooperativa Trevim

Na Lousã está patente ao publico (até ao final do mês de Fevereiro, e não até 15 de Fevereiro como estava previsto inicialmente) uma magnifica, para não dizer excelente exposição sobre a iconografia de Tintim e Hergé. Organizada pela cooperativa Trevim, tendo como comissário Carlos Sêco, nesta exposição pode-se viajar pela obra de Hergé e por toda a iconografia e merchandising criada à sua volta. Muito bem estruturada e documentada é uma exposição a não perder para quem é admirador das aventuras de tintim. Seguem fotos da exposição complementadas com fotos do encontro que se realizou no dia 24 de janeiro à mesa das dissertações teóricas de Osvaldo de Sousa e Geraldes Lino.


O Museu Dr. Louzã Henriques, na Lousã, recebeu uma carta da Fundação Moulinsart a solicitar o cancelamento da exposição "80 anos de Tintim" por isso a mesma teve de ser cancelada antes do fim de fevereiro.


Mas o que me importa frisar é o facto de os organizadores desta exposição não terem tido problemas (ainda bem!) com os herdeiros dos direitos autorais de Hergé, Fanny Vlamynck e Nick Rodwell.
Isto porque na Lousã, uma simples exposição organizada pelo professor, jornalista e cartunista CarloSêco, tintinófilo compulsivo, foi mandada desmontar exactamente pela Fondation des Studios Hergé, por alguém, que faz parte do grupo de portugueses pertencente ao clube belga Amis d'Hergé, ter tido o "descaramento" de a ter montado, e ainda por cima, inocentemente, lhes ter dado conhecimento.

A exposição estava bonita, incluía livros sobre o autor e respectiva personagem, pertencente à colecção pessoal de Carlos Sêco, uns objectos de merchandising do mesmo coleccionador, e umas tantas imagens, entre as quais uma cópia digital do episódio criado para o meu fanzine Efeméride (nº4 - Jan.09), também publicada no jornal Trevim, da Lousã, e houve pessoas (eu incluído) a apresentar trabalhos relacionados com o tema.

Foi uma situação desgostante para o entusiasta organizador, de que me lembrei agora, igualmente algo entristecido, pelo desagradável acontecimento, (...)


Os 80 anos de Tintim em exposição na Lousã
Publié le 14 février 2009 par Zetantan

Por gentileza do tintinófilo Jorge Macieira, eis a reportagem em vídeo da exposição dos «80 anos de Tintin», realizada este mês na Lousã, sob a organização de Carlos Seco. Para verem um mostra fotográfica do evento, eis o link também de Jorge Macieira:

 
Fotos e um pequeno vídeo da Exposição "80 anos de Tintin" que se realizou em 2009 na Lousã.
Na página de facebook "Tintin News" tem várias imagens dessa exposição.

«Gostei de rever a exposição. Passados oito anos, fiz algumas novas aquisições. Quem sabe se em 2019 o Tintin não volta à Lousã. Só não sei se a Moulinsart aprova.»


As fotos estavam também disponíveis em
http://my.opera.com/macieira_law/albums/show.dml?id=695429

Algumas das imagens da exposição "80 Anos de Tintim - Lousã 2009" que ainda faltava partilhar:




















cartoon de Eduardo esteves


um cartoon de Zé Oliveira

















imagem com um cartoon de Rodrigo e outra imagem de Alex Gaspar

TREVIM

O n.º 2 do "BronKit", suplemento do jornal "Trevim", dirigido por Carlos Sêco, foi dedicado na totalidade aos 80 anos do Tintim e inclui os cartunes/BD's que estiveram na exposição "Lousã 2009". 

O n.º 3 do "BronKit" incluiu mais dois desenhos alusivos ao Tintim (de Carlos Sêco e César Évora) que tinham ficado esquecidos na gaveta.





Gon

Carlos Laranjeira



Eduardo Esteves

Bruno Taveira

Alex Gaspar - O Pasquim - cópia retirada do suplemento










80 anos de Tintim na Museu Dr. Louzã Henriques na Lousã
Publié le 14 novembre 2009 par Zetantan

Uma reportagem fotográfica sobre a exposição tintinófila realizada no início deste ano na Lousã. - Blog Humorgrafe de Osvaldo Sousa


15 FEBRERO, 2009
Datos sobre la exposición en Lousa
Por lo que he podido ver en las imágenes que han colgado (http://my.opera.com/macieira_law/albums/show.dml?id=695429), la exposición no era gran cosa. No había nada especialmente resaltable.

Lo que me llama la atención es que Moulinsart pidiese la cancelación de esa exposición, literalmente:

O Museu Dr. Louzã Henriques, na Lousã, recebeu uma carta da Fundação Moulinsart solicitando o cancelamento da exposição «80 anos de Tintim», alegando não terem sido consultados, o que imediatamente foi acedido.

Visto en: http://tintinofilo.over-blog.com/

 
(comentário de um conhecido fã espanhol que já conhece a maior parte dos objectos por isso não seria surpreendente para ele)
 
Em maio de 2007 tinha havido uma exposição menos ambiciosa na Biblioteca Municipal da Lousã.
 

 exposição de 2007
 
 

sexta-feira, 16 de julho de 2021

Manuel António Pina

A LINHA CLARA

"Sou pouco dado a efemérides. As efemérides têm, porém, uma virtude: a da memória. Na terça-feira passaram 100 anos sobre o nascimento de um belga chamado George Remi, autor de duas personagens que marcaram profundamente a minha memória e a da minha geração, uma um autor de BD, Hergé ('erre' de Remi mais 'gê' de Georges), outra, espécie de alter-ego de um alter-ego, Tintin, um desenho de coração puro.

Tintin e os outros (Haddock, Milou  Tournesol, os Dupont/d, a Castafiore, Tchang, Oliveira de Figueira ...) chegaram à minha vida na Infância com o 'Cavaleiro Andante' e, como na canção de Maria Bethânia, instalaram-se para sempre feitos posseiros dentro do meu coração. Com eles fui à Lua e viajei por todos os mares do mundo, subi aos Himalaias e desci aos negros porões da alma humana, atravessei os desertos da Arábia e as estepes da Rússia, defendi os fracos e enfrentei opressores e ricaços sem escrúpulos, persegui 'gangsters', traficantes, escroques, usurários, assustei-me, enterneci-me, comovi-me, ri, chorei, convivi com guerrilheiros, com tiranos, com comerciantes, com sábios, com iluminados 

... Se algo essencial aprendi (e acho  que aprendi) das minhas aventuras com Tintin foi o desprezo da infâmia e a 'linha clara' da coragem e da justiça."

Manuel António Pina, JN, 24/05/2007

(Em  CRÓNICA, SAUDADE DA LITERATURA, Assírio & Alvim, 2013)

+

UMA VIDA DE AVENTURAS

O meu nome é Manuel António Pina. Nasci numa terra com um grande castelo. Nas margens de um rio onde, no Verão, passeávamos de barco e nadávamos nus. Chama-se Sabugal e fica na Beira Alta, perto da fronteira com Espanha. Quando era pequeno, olhava para o mapa e pensava que, por um centímetro, podia ter nascido em Espanha.

Mais tarde descobri que as fronteiras são linhas inventadas que só existem nos mapas. E que o Mundo é só um e não tem linhas a separar uns países dos outros a não ser dentro da cabeça das pessoas.

A verdade é que pela profissão de meu pai, vivi (depois de ter nascido, antes não me lembro) em muitas diferentes terras e, por isso, não tenho só uma terra, tenho muitas. Uma delas é o Porto, onde vivi mais tempo do que em qualquer outra, onde nasceram as minhas filhas e provavelmente morrerei um dia.

Como fui muitos anos jornalista, mais de trinta, viajei um pouco por todo o Mundo, da América ao Japão,  da China ao Brasil, da África ao Alaska. E como sou escritor tenho viajado também por dentro de mim mesmo. E por dentro das palavras. 

Assim, apesar de ter nascido numa terra com um grande castelo, nas margens de um pequeno rio, não pertenço a lugar nenhum mas pertenço a muitos lugares ao mesmo tempo. Alguns desses lugares só existem na minha imaginação. Porque a imaginação,  descobri-o também, é o modo mais fantástico de viajar.

De facto, os lugares mais distantes e mais belos onde eu alguma vez estive não vêm nos mapas. Quando tinha a tua idade, viajei pelo fundo dos mares, e desci ao centro da Terra, e fui à Lua, e aos pólos, e ao passado e ao futuro, dentro dos livros de Júlio Verne, de Jack London, de Emílio Salgari. À noite, quando todos se iam deitar e a casa silenciosamente adormecia, partia eu para as mais emocionantes aventuras, às vezes só regressando já de madrugada. Combati nos mares do Sul contra piratas e flibusteiros, ao lado de Sandokan; persegui Moby Dick, a baleia branca no tempestuoso barco do Capitão  Acab, desci o Mississipi na jangada de Huckleberry Finn, cacei búfalos nas imensas pradarias do Oeste; e, com Tintin fui preso e condenado à morte em Chicago, na China, nos Andes, e salvei-me sempre no último momento, e com ele e com o Capitão  Haddock, e com a cadela Milou, perdi-me nas neves do Tibet e nos desertoa da Arábia, e fui à Lua e voltei.

Como vês, tenho tido uma vida emocionante e aventurosa. Hoje lembro-me das grandes viagens e das aventuras que todas as noites começavam  no meu quarto e tenho medo de não ser já capaz de vencer tantos perigos e tantas emoções. De qualquer maneira, continuo a ter livros na mesa de cabeceira, e quando saio de casa gosto de levar um comigo. Porque me pode apetecer voltar a partir ...

MAP. Netescrit@ - 2010  -  Nónio - Capela Arraiana - Livro Aberto

quarta-feira, 7 de julho de 2021

sexta-feira, 25 de junho de 2021

Tintin


Estive há pouco tempo no lançamento dos novos livros do Tintin, agora com a chancela da ASA. A agradável surpresa destes livros é o seu formato, mais pequeno do que o costume, mais maneirinho para transportar e prático para ler. Eu, com grande vergonha tenho que admitir que apesar de ler imensa banda desenhada, de ter lido tantas vezes todos os álbuns do Astérix, sou uma ignorante em matéria do Tintin. Acho que só li duas ou três histórias. E é por isso que agora, com os livros mais pequenos, vou deitar mãos à obra e começar a ler os álbuns do Tintin deste o primeiro, todos por ordem.

Beijinhos e abraços. Até já!

Alexandra Sousa, 20/10/2010

Há algum tempo atrás falei aqui de querer iniciar a leitura de todos os livros do Tintin, por considerar uma falha grave na minha cultura de banda desenhada. E eis que comecei mesmo e já li os seis primeiros. Continua a não merecer lugar no top of the top. Para mim o Astérix é anos luz melhor que o Tintin, mas ainda assim vou continuar a ler as aventuras do jovem repórter e do seu cão Milu que é de quem eu mais gosto nas histórias. E coitadinho do cão que se farta de sofrer nas aventuras porque passa com o seu dono. E não deixa de ser interessante viajar pelos vários cantos do mundo onde o Tintin nos leva, apesar de ter sido há já várias décadas.

Beijinhos e abraços. Até já!

Alexandra Sousa, 16/12/2010

O tema (cinzento) do dia é o relógio que o meu marido me ofereceu há vários anos e que ocupa lugar de destaque na nossa sala.

Alexandra Sousa, 06/03/2014

quinta-feira, 24 de junho de 2021

Exposição "Tintin por Tintim" (1990)

O "Espaço Litoral - Novo Século", situado em Lisboa na Rua do Século 4 B, organizou uma exposição de pintura, escultura, fotografia e vídeo denominada "Tintin por Tintim". Decorreu no período de 6 de Abril a 9 de Maio de 1990.




Exposição Tintin por Tintim
 
AUTOR(ES):
Galeria Novo Século (Lisboa, Portugal ), ed. lit.
PUBLICACAO:
lisboa : Espaço Litoral - Novo Século, 1990

. - Desdobrável 21x32 cm publicado por ocasião da exposição organizada e patente no Espaço Litoral - Galeria Novo Século, Lisboa (Portugal), de 6 de Abril a (1)9 de Maio de 1990
. - Artistas representados: António Mendes, Alvim, Carlos Barroco, Carlos Ferreiro, Caseirão, Jorge Camões, José Eduardo Rocha, Luís Cruz, Luísa Ferreira, Manuel San Payo, Miguel Horta, Romualdo, Vitor dos Reis, Vitor Rua

Reportagem publicada no Diário de Lisboa de 09/04/1990






(imagens retiradas da reportagem da RTP)


 Fotografia de Luísa Ferreira

Pintura - Escultura - Fotografia - Video

Obras:

1-António Mendes

2-Alvim

3-Carlos Barroco apresentou uma visão "transgressora" de Tintin a beber.

4-Carlos Ferreiro

5-Caseirão criou esculturas subversivas, incluindo uma onde Tintin e Milou são vítimas de um sacrifício fatal ou estão "cravados de pregos" ou pendurado no pescoço de um caçador de cabeças .

6-Jorge Camões fez um dirigível.

7-José Eduardo Rocha

8-Luís Cruz esculpiu o foguetão.

9-Luísa Ferreira - fotografia com Hernâni Miguel.

10-Manuel San Payo

11-Miguel Horta - tela de acrílico com o amuleto das "tenazes de ouro", recriado pelo autor. A tela foi vendida a um colecionador de Banda Desenhada.

12-Romualdo

13-Vitor dos Reis evocou a história das "Sete Bolas de Cristal" em pintura.

14-Vítor Rua

ESPAÇO LITORAL - NOVO SÉCULO - Rua do Século 4-B-C 1200 Lisboa Tel. 327712

Posteriormente existiu a "Loja Tintin por Tintim" na Rua do Século, nº 4 conforme postal já aqui publicado. (https://caisdoolhar.blogspot.com/2010/12/e-permitido-afixar-anuncios_27.html) Mudou depois de nome para Tom Tom Shop.

«A outra onde comprámos móveis, na Rua do Século, passou a chamar-se TomTom.» fvv, abril/2018

De facto participei nessa exposição com uma tela de acrílico com  o amuleto das "tenazes de ouro", recriado por mim. A peça não aparece nas imagens recolhidas... A tela foi vendida a um colecionador de Banda Desenhada. Devo ter uma fotografia da peça dos anos oitenta, algures no meu arquivo. Miguel Horta (mail, 26/02/2022)

-

Exposição Tintin por Tintim
 
AUTOR(ES): Galeria Novo Século ( Lisboa, Portugal ), ed. lit.
PUBLICACAO: lisboa : Espaço Litoral - Novo Século, 1990
DESCR. FISICA: 1 desdobr. : il. color. ; 21x32 cm

NOTAS:

. - Desdobrável publicado por ocasião da exposição organizada e patente no Espaço Litoral - Galeria Novo Século, Lisboa (Portugal), de 6 de Abril a 9 de Maio de 1990

. - Artistas representados: António Mendes, Alvim, Carlos Barroco, Carlos Ferreiro, Caseirão, Jorge Camões, José Eduardo Rocha, Luís Cruz, Luísa Ferreira, Manuel San Payo, Miguel Horta, Romualdo, Vitor dos Reis, Vitor Rua

ASSUNTOS:

Exposição Tintin por Tintim -- Lisboa (Portugal) -- 1990 -- [Folhetos]
Pintura -- Portugal -- Séc. 20-21
Arte -- Portugal -- Séc. 20-21
Arte -- Exposições -- [Folhetos]

CDU:
7.071(469)"19"
061.4(469)"19"

COTA(S): AHP 7366 [Obra de acesso reservado. Sujeito a autorização]

Biblioteca de Arte Gulbenkian

https://www.biblartepac.gulbenkian.pt/ipac20/ipac.jsp?session=174231073U8MY.1460120&profile=ba&source=~!fcgbga&view=subscriptionsummary&uri=full=3100024~!220465~!0&ri=1&aspect=subtab11&menu=search&ipp=200&spp=200&staffonly=&term=tintin&index=.GW&uindex=&aspect=subtab11&menu=search&ri=1
--

https://search.worldcat.org/pt/title/959176734

quinta-feira, 10 de junho de 2021

Rui Reininho

Um dos temas do disco "Independança" dos GNR, editado originalmente em 1982, chama-se "Dupond & Dupont". 

Curiosamente, a letra do tema apareceu publicada no livro "Líricas Com & Onianas" de Rui Reininho, editado em 2007 pela Palavra, mas onde aparece erradamente como "Dupond & Dupond". 

Noutro livro, "Afectivamente GNR", aparecem comentários de Reininho sobre alguns dos temas. Diz que era habitual brincar com os títulos das canções, tal como nesse tema e em "The Light".



O novo disco a solo de Rui Reininho, editado esta semana, inclui um tema chamado "Tan Tan No Tibet".  Por coincidência também é a terceira faixa do disco.


Texto de apresentação de concerto:

Os vislumbres do futuro parecem ressoar sempre de paisagens ancestrais. Nada é bem deste mundo tirando, talvez, todas as coisas mágicas; as percussões, as vozes, o Himalaia lá ao fundo, Tantan pós Tibet. Um olho é uma nau imaginária que avista 20.000 éguas submarinas. 

Em 2008 ele escreveu um artigo no JN, onde colaborava periodicamente, a que deu o nome de "Tchin tchin no Tibetche".

Tchin tchin no Tibetche
É óbvio que para quem percebe pouco de reencarnações, mesmo que acredite, como a maioria dos nossos não praticantes que o messias reapareceu na maior ao fim de três dias, dificilmente entenderá o que se passa no tecto do mundo, num Tibete.

Em verdade vos digo que caso não haja um derramamento insano de espiritualidade, a encarnação do famoso marquês de Coubertin, inventor da olimpíada moderna, industrializada e convenientemente polvilhada com esteróides pouco ou nada tem a ver com os jogos gregos, a halterofilia, a pedofilia mais os homens de saiotes ou completamente nus.

Agora que captamos a atenção dos nossos leitores mais devassos, convém lembrar que há reencarnados e encarnados no meio de nós pensar que Sócrates anda por aí, sem Platão nem Zico e Tostão nem IVA e Adam, que o índio Jerónimo abandonou as eternas pradarias de caça para se insurgir contra a invasão na Abissínia, vulgo Iraque e se esqueceu (coitado, é da idade) que os seus camaradas Jin tau tau nos pobres dos monges vai para décadas. O Dalai Lama, o XIV, qual rei sol é das personas mais gratas, com mais sentido de humor do que os encarnados que ainda acreditam numa reviravolta, para cima, no topo Norte da tabela e é uma espécie de punk suave com as suas botas dr. Martinez a quererem dialogar com um dos mais cruéis, sanguinários e amarelentos regimes de comuna pura e dura; só o Jerónimo, o de Sousa como os Paços, pode apoiar a economia selvagem, vulgo chinatown que arruina o preguiçoso e datado comércio tradicional das nossas decrépitas cidades e serras.

Mas há mais o desporto contemporâneo enche a blusa e os calções para não falar da sapatilha de milhões de criancitas que trabalham escravizadas pelos orientes e nós os outros só divisamos a crista da onda, guerreiros Spice, Old and Beckham.

Mas sem retenções na fonte, com equipas que jogam sem treinar e fingem que têm jogadores que não viram as bundas uns dos outros mais gordas, como as equipas do titio Scolari que a gente puxa da caixa, que isto de re-evoluir para um ser mais puro, de uma minhoca para um lagarto, de uma águia careca e para um dragão mitológico vai um passo, de pardal.

Os monges, franciscanos, artistas ou budistas, são gente corajosa que não espera recompensa depois de sair do governo do mundo e para acordar com uma reforma por inteiro no Tibete não há tachos nem peditórios, nem santuários de vendilhões do templo.

Há uma fé, inabalável, de que seremos melhores do que antes. E gostamos de champagne, de amor e gelo. Tchin tchin!